PESSOAS FRAGMENTADAS

Imagem Movimento Psicopata 2

Quem canta fala consigo,
Quem faz o amor nunca quer ferir,
Quem não fere vive tranquilo,
Vê muita gente sorrir
.”

In: Piano e Viola – de Taiguara

Quem nunca teve uma pessoa próxima – uma amiga, um parente, um vizinho – que quando se aproxima provoca um enorme desconforto que que nos faz duvidar das nossas próprias percepções?

Alguém cuja presença parece infiltrar-se por dentre os fios das nossas cortinas, os veios das nossas madeiras e todos os espaços da nossa morada, deixando tudo denso e sombrio tão logo nos deixa?

Já parou pra pensar por que uma simples presença pode ser capaz de causar tamanho transtorno e mal-estar?

Quando meu filho mais velho era ainda um bebê, com poucos dias de vida, costumávamos receber muitos parentes e amigos para animadas confraternizações. Éramos jovens, nossa casa era alegre e nos sentíamos muito felizes. Mas havia uma visita que todas as vezes que aparecia, na maioria delas ocupando horários totalmente descabidos, ‘agitava’ tudo de tal modo, com suas gargalhadas exageradas e sua mania de dar palpites tolos e impertinentes sobre cada aspecto da nossa casa e da do nosso garotinho, que ao retirar-se algo dela ali permanecia de maneira latente e perturbadora.

Como um indesejado efeito colateral, ela já havia afetado o ambiente de um jeito que meu pequeno ficava sem conseguir mamar ou conciliar seu sono de maneira serena pelos dias subsequentes.

Isto aconteceu tantas vezes que chegamos ao ponto de inventar viagens e programar saídas absurdas para justificar nossas ausências sempre que a “visita” avisava que pretendia dar o ar da graça. Tudo porque temíamos algo que não era possível racionalizar ou mesmo explicar. E a verdade é que não conseguíamos sequer conversar a respeito desta insólita sensação com os demais pois imaginávamos que ninguém conseguiria entender a forma com a qual víamos o “fenômeno” acontecer bem ali na nossa frente.

Tratava-se de alguém cuja vida, em alguns aspectos, parecia sempre dar ‘errado’. Apesar de ter sonhado em se casar e ter muitos filhos, jamais realizara tal projeto. Seus relacionamentos amorosos eram invariavelmente confusos e duravam pouco tempo. Ela era bem mais velha do que eu e, decididamente, se incomodava com a minha vida – certamente porque não enxergava meus problemas e dificuldades, mas, ao contrário, fantasiava com o que imaginava ser uma vida perfeita e invejável, o que – evidentemente como todas as demais – não era.

Portanto, sua presença sempre tão carregada desvelava uma “inveja” mal elaborada e nada assumida. E, apesar das aparentes desordens pessoais, ainda teimava em se portar de maneira a aparentar segurança e altivez que a fazia parecer extremamente arrogante.

Em outras palavras, uma inoportuna presença insuportavelmente pesada e hostil. Ainda que inconsciente.

Segundo Carl Gustav Jung, psiquiatra e psicoterapeuta suíço, fundador da psicologia analítica, “é um pensamento assustador que o homem também tenha um lado de sombra que consiste não apenas de fraquezas, mas de um dinamismo positivamente demoníaco. O indivíduo raramente sabe sobre isso. Mas deixe que essas criaturas inofensivas formem uma massa, e surgirá um monstro feroz.

Para Jung, a sombra seria um aspecto (ou “arquétipo”) e parte integrante do nosso inconsciente, composto de ideias reprimidas, instintos, impulsos, fraquezas, desejos, perversões e medos embaraçosos.

Este arquétipo é muitas vezes descrito como o lado mais sombrio da psique, representando a selvageria, o caos e o desconhecido. Jung acreditava que estas disposições latentes estariam presentes em todos nós, em muitos casos, formando também uma forte fonte de energia criativa – quando bem colocada.

Será que o corpo humano pode emitir tanto uma energia positiva quanto outra negativa – naquilo que algumas pessoas chamam de “vibrações”?

Todos nós nascemos, de alguma forma, “puros”. Mas durante o nosso desenvolvimento, a partir da infância, assimilamos “lições” que nos ensinam a separar as coisas entre o bem e o mal. A partir do momento em que nos alimentamos desta ‘fonte de conhecimento’ que nos auxilia tanto em nosso processo de socialização quanto no processo cultural, nossas sombras nascem e começamos a nos dividir. Desta forma, começamos a separar dentro de nós as características que são socialmente aceitáveis e as que não são. Estas últimas fatalmente permanecerão escondidas.

Como Jung disse: “O que chamamos de ‘consciência civilizada’, separou-se dos nossos instintos básicos. Mas esses instintos não desapareceram. Eles simplesmente perderam o contato com a nossa consciência e são, assim, obrigados a afirmarem-se de forma indireta. Isso pode ocorrer por meio de sintomas físicos, no caso de uma neurose, ou por meio de ‘incidentes’ de vários tipos, variações de humores inexplicáveis, esquecimento inesperado ou erros na fala. O homem moderno se protege para não ver seu próprio estado mental dividido. Certos aspectos de seu próprio comportamento e de seus instintos são mantidos, por assim dizer, em gavetas separadas e nunca são confrontados com os outros”.

Provavelmente a palavra-chave aqui seja exercitarmos nossa capacidade de “integrar” – que vem da palavra latina integrum, ou seja, “fazer o todo” ou “restaurar à condição original”.

Para integrar uma qualidade interior é necessário se tomar posse e assumir a responsabilidade por ela, em vez de rejeitá-la ou negá-la. Os benefícios são muitos: sanidade, cura e integridade são apenas alguns deles. Por outro lado, o oposto de integração é “desintegrar”, ou seja, fragmentar e dividir em pedaços.

Uma pessoa que “se quebra” ou “cai por terra”, por exemplo, é alguém incapaz de lidar com o stress e prefere ignorar muitos dos seus traços de personalidade, especialmente aqueles oriundos da sua sombra. Na realidade, uma pessoa fragmentada pode não lidar com a adversidade, porque ela não possui nenhum centro coeso dentro de si e estará sempre precisando lidar com as inúmeras e desencontradas peças de sua confusa personalidade.

Os seres humanos só se completam quando abraçam sua escuridão e sua luz. A nossa cultura judaico-cristã ensina-nos que a escuridão e a luz são polos opostos e que devemos abraçar o que for luz e negar o que pertencer ao escuro.

Mas, felizmente, estamos começando a aprender que negar a escuridão só lhe dará mais poder pois em vez de ser controlada ela passa a controlar nossas atitudes, nossos pensamentos, nossas obsessões, nossos desejos, nossos sonhos, nossos amores e nossos ódios. 

A única maneira de “controlar” a escuridão é abraçá-la, possuí-la e assumir a responsabilidade por ela. E nós só nos sentiremos inteiros quando reconhecemos todos os nossos pensamentos, impulsos, desejos e sentimentos como próprios e humanos. Como parte integrada de nós mesmos.

Quanto mais entendermos sobre nós mesmos, mais estaremos preparados para trazer à tona o que há de melhor dentro da gente.

Afinal, é preciso olhar para o escuro para, através dele, enxergar a luz.

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A CHAVE DA PAZ

Imagem Movimento Coração sendo passados

“Onde hoje é tarja preta,
Lia-se frase otimista
E nela se acreditava
Do cético ao humanista.
A ela todos se davam,
Amor de primeira vista.
Onde ontem era frase
Hoje é uma tarja na vista.”

In: Tarja Cravada – de Sérgio Ricardo

Quantas pessoas não sonham com um “final feliz” em suas vidas pessoais, do tipo: duas pessoas se conhecendo, namorando, se casando e vivendo felizes para sempre?

E quantas, ainda, não aguardam encontrar a decantada “alma gêmea”?

E o que dizer sobre as famílias totalmente tóxicas e desequilibradas que inventam uma pseudo realidade feliz que esconde todas suas mazelas, aflições e desgostos?

E você, se sente pressionada(o) a continuar na ilusão de felicidade conjugal?

A narrativa comum das histórias de amor nos contos de fadas é que, mesmo diante de conflitos intransponíveis, um casal pode viver feliz para sempre. E que, quaisquer que sejam as tensões, decepções, traições, mal-entendidos ou ilusões que encontrarem, tudo se resolverá a fim de alcançarem a tal felicidade e harmonia perenes e, cá entre nós, inalcançáveis.

Ou quem sabe, talvez nossos relacionamentos sejam tão fictícios quanto essas histórias.

Algo bastante parecido com aqueles seriados e filmes norte-americanos onde as comunidades e seus habitantes são extremamente simpáticos, amistosos e solidários. Todas as pessoas das famílias são felizes e, no máximo, sofrem de algum infortúnio amoroso.

Tem coisa mais falsa que essa?  

O fato é que o sofrimento produzido por esse tipo de mentira, amplamente divulgada pelas redes sociais, é simplesmente impressionante.

Neste sentido, as “celebridades” brasileiras também dão seu péssimo exemplo.

E por que alguém que pretende escrever sobre as questões que envolvem o “casamento”, seja ele uma união oficial, oficiosa, estável, turbulenta, religiosa ou civil, envolvendo quaisquer parceiros, independente do gênero, número ou grau, começa mencionando meros contos de fadas?

Elementar, meu caro leitor e minha cara leitora.

Assim como os conflitos que envolvem interesses por um lado e, por outro, produzem dor e revolta, o casamento, guardadas as evidentes e devidas proporções, também é capaz de gerar algum tipo de grande e significativa desordem no nível pessoal.

Desta forma, os contos de fadas seriam uma maneira de evitarmos o contato com uma realidade, tantas vezes, dolorosa.

Gosto de falar do amor como uma necessidade básica – física e mental – de todo e qualquer ser vivente. Precisamos, todos nós, de parcerias saudáveis que, além de testemunharem nosso percurso, nos apoiem durante as previsíveis intempéries e também dividam conosco os almejados louros das conquistas.

Em um primeiro momento, os amantes se unem na esperança de encontrarem um ser que vá confundir-se com sua própria existência, de tão semelhante e ‘conectado’ que é. Passado algum tempo – ou, na maioria das vezes, muito tempo – os anseios iniciais dão lugar a uma visão menos romântica a respeito da gente e do outro que está do nosso lado. Quando deixamos de olhar pro espelho – sim, porque, nesta primeira fase, todos os espelhos são mágicos uma vez que só mostram aquilo que queremos ver – e passamos a mirar nossas próprias questões e necessidades, percebemos que somos seres únicos e singulares. E, assim, um tanto quanto ‘desconectados’ da simbiose inicial.

Daí começa aquilo que classifico como a magnífica segunda parte de uma experiência amorosa. Ela pode acontecer dentro de um mesmo casamento ou, como tem sido muito comum, em uma nova relação – quando já temos maturidade e experiência suficientes para nos desembaraçarmos do outro sem, necessariamente, sucumbirmos.

É quando podemos, e até desejamos, conviver com as diferenças e, principalmente, aprender com elas. O outro, afinal, pode ser uma interessante e inesgotável fonte de aprendizado – desde que se preste muita atenção a este “detalhe”, se esteja profunda e verdadeiramente interessado(a) nesta relação onde dar e receber, ceder e refazer, podem se tornar o canteiro central desta incrível via de mão dupla.

Para se construir uma ponte que atravesse este muro (ou abismo, tanto faz) é preciso, por um lado, força e coragem para levantar as pedras e, por outro, disponibilidade e paciência para esperar até que se configure o caminho passível de ser trafegado.

Como numa emblemática experiência, há que se suportar as dificuldades e os obstáculos que fatalmente se apresentarão e que nos provocarão o franco desejo de voltarmos atrás. Ou, em outras palavras, de retornarmos ao aparente conforto que a falsa ausência de conflitos nos passava. Enfim….

QUANTO MAIS TENHO CONDIÇÕES DE CONCEBER O OUTRO, MAIS CONFUSO TUDO PARECE FICAR!

Porque, do fundo do nosso poço escuro, seguimos esperando que tudo se reflita feito num espelho e à nossa semelhança. E é preciso lembrar que no diálogo com o outro quem permanece de costas somos nós mesmos – que não nos enxergamos de fato. Ou seja: o outro sempre nos percebe de algum jeito. E a gente, quase sempre, de jeito nenhum.

Daí – e desde que nada de mais sério e inegociável exista no caminho até agora trilhado – se você honestamente ama este ser para o qual olha tantas vezes com paixão e carinho, raiva e rancor, vai desistir de tudo sem procurar, em algum cantinho desta relação, a saída que tiver a sorte de antever?

Por que não tentar buscar, nos dentro e fora da gente, esta possível e formidável Chave da Paz?

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UM VENENO CHAMADO ÓDIO

Imagem Movimento Boomerang 2

“Essa noite uma bomba vai explodir.
Quem é que vai conseguir dormir?
Essa noite, essa noite, muitos tiros!
Quem é que vai ligar pra isso?
Se acontecer comigo ou com você,
Vamos saber nos programas da TV
Se a culpa é minha ou é sua,
Não faz diferença nenhuma.
A guerra é aqui!
A guerra é aqui!

In: A Guerra é Aqui  – de Titãs

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