“Mas enquanto houver força no meu peito
Eu não quero mais nada
E pra todos os santos
Vingança, vingança clamar”
In: Vingança – de Lupicínio Rodrigues
Uma coisa é certa: a pessoa que planeja vingança precisa manter suas feridas abertas porque, caso contrário, elas podem sarar – Francis Bacon.
Responda com sinceridade: quando alguém lhe machuca ou trai, você sente vontade de devolver a dor na mesma moeda? E essa busca por vingança realmente lhe faz sentir-se melhor?
É bem verdade que a resposta não é tão simples. Quando somos feridos, esta pode ser uma conclusão naturalmente humana. O instinto de vingança surge em muitas pessoas, mas nem todas irão atuar, de fato, dentro dele.
Existe uma tese, dentro da psicologia evolucionista, explicando que o ser humano estaria mentalmente ‘equipado’ para o exercício da vingança. Sem leis ou prisões, nossos ancestrais contavam com o medo de retaliações para ajudar a manter a paz e corrigir injustiças.
As atitudes de vingança buscavam convencer o malfeitor a não agir de maneira danosa contra o outro e, também, funcionavam como uma ameaça permanente, um sinal de alerta de que ninguém toleraria maus-tratos sem reagir.
Na vida moderna, a traição e a rejeição social doem. O desejo de sanar essa dor e curar nossos sentimentos feridos é uma das razões que nos motivam a buscar a este tipo de reparação.
Logo, o tema vingança inunda não apenas o imaginário coletivo, mesmo que enquanto uma mera possibilidade, mas, principalmente, muitas práticas orientadas no sentido de destruir tudo aquilo que é projetado nos outros – e que não é possível realizar em si ou para si.
É preciso não perder de vista que pensar na possibilidade de uma revanche pode reabrir e agravar suas feridas emocionais. Ainda que você se sinta tentado a punir alguém, a verdade é que acabará se punindo por não ter conseguido se curar.
Mas o que você faz se foi prejudicado? Como você pode lidar com suas intensas emoções? O que você faz se sente uma enorme necessidade de ir à desforra?
Existe uma maneira saudável de lidar com esses afetos que podem ajudar a curar e dar ao seu cérebro a mesma quantidade de recompensas – só que sem as consequências.
Aquela criatura que não consegue viver sem atormentar a vida da(o) ex-parceira(o), que não passa um dia sequer sem arranjar uma forma de atingi-la(o) das mais variadas formas, seja demonstrando ódio ou amor; que precisa berrar aos quatro ventos tudo o que sofreu e ainda sofre, no fundo, só deseja chamar a atenção para o que sente, desconsiderando o que a outra pessoa escolheu para si.
Conheço pessoas que passaram anos inventando formas bem pouco razoáveis (para dizer o mínimo) de exibir seu sofrimento, aquele mesmo que nunca desejaram cicatrizar, simplesmente porque decidiram que o outro não pode seguir a vida sem a sua perversa e avassaladora presença.
Por outro lado, é importante registrar que o sadismo é o traço de personalidade dominante que explica porque certas pessoas são mais propensas do que outras a buscar vingança.
Estas pessoas não gostam de admitir que possuem características ou tendências socialmente inaceitáveis. Aliás, se você perguntar ‘Você é uma pessoa vingativa?’ ninguém dirá que sim.
Ao compreender melhor o que leva alguém a se vingar de algo, podemos tentar identificar aqueles com maior probabilidade de cometer violências, por exemplo.
É evidente que nem todo mundo que se sente injustiçado sai matando quem encontrar pela frente. Nem todo mundo quando é injustiçado começa uma briga atirando garrafas no ar. Mas algumas pessoas o fazem. O tempo todo.
Enquanto sentimento, a vingança pode ser quase uma ‘arte’ praticada por aqueles que não admitem perder ou não sabem deixar de brigar. Ocupa a mesma face da moeda da carência, só que desenhada em cores desagradavelmente berrantes.
O problema de quem se alimenta dela é que enquanto vive esse rancor, tantas vezes encoberto, outras vezes escancarado, deixa de experimentar novos rumos e de procurar alternativas que ajudem a aproveitar as inúmeras possibilidades que a vida oferece, além da chance de vivenciar relações mais satisfatórias.
Concentra-se com tamanho empenho em “atazanar” a vida alheia que se esquece da própria existência e das gratificações que dela poderia extrair, se tamanha energia fosse investida em novos projetos.
Então, vingar-se de alguém porque deixou de ser amada(o) ou de fazer parte de sua vida, é o mesmo que gritar para ser ouvido por quem não possui a capacidade de ouvir. E não importa os motivos alegados: ter dado mais do que acredita ter recebido; ter aberto mão de inúmeras coisas; ter perdido oportunidades; ter deixado a própria felicidade de lado. Não passam de meras e esfarrapadas desculpas. Pretender vingar-se por ter sido preterida(o) ou esquecido(a) é optar por brigar solitariamente contra exércitos de sombras numa atitude que, na realidade, só revela o ódio na sua mais concreta e assustadora concepção. Veja bem: ódio e não o decantado amor, como planeja transparecer.
O vingador deixa pistas porque pretende mesmo ser identificado. É uma carta anônima com nome e endereço de remetente pois deseja que seu alvo saiba do que ele é capaz e até onde pretende ir. Desta forma, é uma maneira de tentar ‘vencer’ pelo medo.
Alguns desavisados espectadores do ato, muitas vezes, sentem-se comovidos e tendem a identificarem-se com o algoz que se autoproclama vítima. É o caso da mulher deixada pelo namorado que passa a mostrar publicamente a dor que garante sentir. Mesmo que utilizando palavras carinhosas quando se refere ao ‘ex’, ela, no fundo, deseja que todos o condenem por fazê-la tão infeliz.
Ou do sujeito que publicou inúmeras notas declarando um amor “extraordinário” pela ex-companheira, enquanto ela, discretamente, tentava seguir em frente, vivendo sua vida sem incomodar ninguém.
Até que ele encontrou uma forma que entendeu ser infalível para atingi-la: publicou fotos e trechos de cartas íntimas trocadas entre os dois muitos anos atrás com a alegada e falsa intenção de persuadi-la a retomar a relação. O resultado foi nefasto e transformou a vida da ‘ex’ num verdadeiro inferno com direito a um doloroso processo judicial que se arrasta há anos.
Portanto, anote aí: todo vingador se julga acima do seu objeto de vingança por subestimá-lo acreditando merecer (muito) mais que ele. Pretende debitar sua incapacidade de viver em paz na conta do outro e pressupõe estar habilitado para ensinar uma “verdade” que só ele vê e que o faz humilhar-se para que aquele a quem martiriza sinta-se humilhado também.
Se eu pudesse falar-lhe claramente, diria:
Não se vingar, não fazer nada e avançar com a própria vida, com certeza, é a melhor forma de provar deste insosso e indigesto prato de mágoa profunda que fica como subproduto no final de um relacionamento. Mas, creia: esta experiência dolorosa pode nos tornar mais fortes e melhores. E muito mais interessantes!
Afinal, convenhamos, as relações começam e terminam como tudo na vida. Vá em frente que atrás – quando se está bem – sempre virá gente.
