“Quero soltar bombas no Congresso.
Fumo Hollywood para o meu sucesso.
Sempre assisto à rede Globo
Com uma arma na mão.
Se aparece o Francisco Cuoco
Adeus televisão.”
In: Psicopata – de Capital Inicial
INTRODUÇÃO DA AUTORA: Convivi, por anos, com um amigo psicopata – segundo a equivocada definição ainda em voga do que seja PSICOPATIA e é importantíssimo que você retenha este dado. Ele não conseguia sentir as coisas da mesma forma que a maioria das pessoas. Não sabia chorar (a não ser que se forçasse a isto), não entendia o sofrimento que, por vezes, causava nas namoradas, por exemplo, e vivia quase que exclusivamente preocupado consigo mesmo. Apesar disto, era um cara extremamente cativante e inteligente, capaz de produzir coisas legais que, indiretamente, ajudavam os demais. Certamente fui a única amiga a perceber este viés e assim que comuniquei minhas impressões ele concordou integralmente comigo. Acredito que, no fundo, já se reconhecesse ‘diferente’ – ainda que não possuísse repertório suficiente para nomear a estranheza de suas idiossincrasias. No entanto, existem aqueles muito mais instáveis, sinistros e perversos, que são capazes de ferir e controlar intensamente quem os rodeia, causando estragos irreparáveis em suas vidas. São predadores natos. Por fim, este artigo é unicamente uma tentativa, dentre muitas, de discriminar o que é uma característica intrínseca e inata de alguns seres humanos e o que determina a total ausência de humanidade na existência nesses outros que jamais deveriam ser nomeados “seres humanos”, já que decididamente não o são. Psicopatia permanece sendo um termo que define este amplo espectro onde cabem seres humanos e seres desumanizados. À ciência urge definir claramente as profundas e indiscutíveis discrepâncias existentes entre ambos. Sigamos.
Muito já escrevi sobre psicopatas. Mas não é sobre desta definição que pretendo discorrer e vocês logo entenderão.
Existe, há tempos, uma enorme confusão envolvendo a definição do que é psicopatia – principalmente diante da ausência de trabalhos científicos mais focados em estabelecer uma clara distinção entre os padrões de comportamento díspares entre os inúmeros subtipos que a expressão “PSICOPATA” abrange.
Embora a psicopatia tenha sido historicamente conceituada como um tipo de transtorno, há evidências crescentes de que pode ser, na verdade e em determinada graduação, uma estratégia adaptativa projetada por uma espécie de seleção, ainda que a etiologia das perturbações psíquicas não esteja totalmente desvendada.
Mesmo assim, já não persistem dúvidas sobre a psicopatia não ser um adoecimento, um distúrbio ou um transtorno mental.
Esta tese repousa na constatação de que não existe qualquer possibilidade de “cura” para isto que ainda chamamos de psicopatia. Logo, não pode ser considerada uma doença a ser “tratada”.
Por outro lado, sociopata é um termo equivocadamente usado para descrever quem não demonstra qualquer limite moral a ponto de alcançar o status de criatura odiosa ou digna de ódio. Assim, o termo psicopata acaba sendo usado para definir um ‘sociopata mais perigoso’.
Entretanto, está comprovado que existem psicopatas que apesar de serem frios, calculistas e isentos de emoções (como o amigo descrito na introdução) conseguem conviver em sociedade até com muito sucesso, uma vez que jamais se tornarão criminosos perversos.
Contudo, embora sociopata e psicopata sejam palavras frequentemente usadas de forma intercambiável, como se pudessem se sobrepor, cada tipo possui descrições muito próprias.
Por este motivo é que o conceito “psicopata”, usado como referência aos verdadeiramente perigosos e nefastos, deveria ser melhor classificado.
Contudo, na falta de outra, continuaremos a utilizar a mesma denominação.
Sociopatia é o registro não oficial para Transtorno de Personalidade Antissocial (TPA), enquanto psicopatia não é um diagnóstico oficial.
É realmente confuso. E este caos nos torna mais vulneráveis aos perigos representados por estes seres sem caráter, enganosos e narcisistas. Além disto, são desprovidos de sensibilidade e jamais sentem remorsos. São abusivos, mentirosos e, alguns, potencialmente criminosos, quando sobrevém a tendência para agredir ou matar pessoas. Estes são os INTRATÁVEIS e IRRECUPERÁVEIS. E por isto, precisamos entender como identificá-los.
Existe, na comunidade científica, um consenso de que nem todos os indivíduos com Transtorno de Personalidade Antissocial (TPA) sejam psicopatas, porque apenas um terço deles preenchem os critérios para psicopatia.
Porém, todo indivíduo psicopata teria um diagnóstico de antissocial?
Muitos psiquiatras, incluindo os forenses, parecem acreditar que sim, mas há poucos estudos investigando a relação entre psicopatia e outras disfunções de personalidade além do TPA.
Dentro dos seus estudos, alguns autores utilizam expressões como malsucedidos para designar psicopatas criminosos (ou presos pela justiça) e bem-sucedidos para designar aqueles que apresentam vários sinais de psicopatia, mas sem registros criminais.
Essa divisão em categorias (bem e mal) entende que os traços psicopáticos podem ser uma forma de adaptação que a espécie vem desenvolvendo frente a determinadas situações.
Acredito que um novo modelo neurobiológico de psicopatia bem-sucedida e malsucedida precisa ser delineado e renomeado. Imagina-se que os psicopatas bem-sucedidos mantenham um funcionamento neurobiológico intacto ou aprimorado, o que explica seu funcionamento cognitivo normal e, por vezes, superior à média. Isto, por sua vez, os auxiliaria a alcançar seus objetivos usando métodos mais encobertos e não violentos. Em contraste com os psicopatas malsucedidos e capturados, os comprometimentos estruturais e funcionais cerebrais, juntamente com a disfunção do sistema nervoso autônomo, são definidos como subjacentes a déficits cognitivos e emocionais que oferecem ofensas brutais mais evidentes.
Isto posto, chamar de humano esta criatura que já nasce predisposta a aniquilar todo e qualquer obstáculo aos seus impulsos desumanos e desejos egoístas, não responde as inquietantes indagações que estas devastações promovem, como o que aconteceu na Segunda Guerra Mundial, somente como um exemplo dentre milhares.
Por conta disto é que se faz urgente determinamos e classificarmos estes tipos que, não podendo serem considerados seres humanos na acepção do termo, precisam que tenhamos todo o cuidado diante de qualquer tipo de aproximação.
Psicopatas bem-sucedidos apresentam aspectos emocionais e interpessoais característicos da psicopatia e uma certa ausência de comportamentos antissociais, bastante diferente dos psicopatas que cometem crimes (os malsucedidos).
Talvez seja necessário excluir o comportamento antissocial da definição de psicopatia a fim de descrever a existência de indivíduos psicopatas insensíveis que parecem inteiramente ‘sociáveis’.
Em 2012, um artigo da Frontiers in Evolutionary Psychology (importante revista de psicologia) propôs que (1) a psicopatia está associada ao nepotismo e, portanto, (2) a psicopatia não é um transtorno, mas uma estratégia de vida baseada evolutivamente.
A partir disto, passaram a defender uma teoria evolutiva alternativa.
Outra informação relevante é que naquela época haviam poucos dados envolvendo o impacto dos agressores sobre os amigos e familiares solicitados a atuar como apoio. Se a psicopatia estaria associada a danos sobre pessoas próximas, passou-se a enxergar como não ético incentivar os laços familiares.
Análises qualitativas de memórias escritas por esposas e filhos adultos de indivíduos sabidamente psicopatas, que indicaram membros da família relatando danos consideráveis, incluindo abuso psicológico, emocional, financeiro e físico, e exploração. Filhos e filhas comunicaram ter sido encorajados a se engajarem em comportamentos antissociais.
Conhecidos e amigos também confessaram terem sido forçados a participar de atos planejados por psicopatas, através da manipulação, ameaça e do medo.
Conheci, no decorrer da minha experiência clínica, alguns psicopatas diagnosticados. Como trabalhava em conjunto com psiquiatras – que os indicavam para psicoterapias – posso afirmar, com certa convicção, que existem alguns traços comuns aos psicopatas que conheci. Todos foram considerados tratáveis por seus médicos, embora não houvesse perspectiva de serem mudados. E jamais apresentaram inclinação para crimes (hediondos ou não). E, nos casos que conheci de perto, sempre procuravam se cercar de pessoas empáticas e comunicativas, talvez numa tentativa de esconder suas deficiências mais visíveis.
Alguns percebiam mesmo a ausência de sentimentos de empatia ou compaixão em relação às pessoas que lhes eram próximas. E um deles procurou seu tratamento porque queria compreender o motivo de não sentir as emoções como os outros, declarando o quanto isto lhe preocupava.
Em geral, a comunidade científica e os profissionais de saúde mental compartilham a mesma visão sobre a psicopatia. Alguns até escreveram que “dada a morbidade da psicopatia e seu impacto negativo na sociedade, é difícil imaginar que qualquer transtorno mental possa ser considerado um problema maior de saúde pública“.
À vista disto, considerando que vivemos dentro de uma comunidade onde os laços de solidariedade se tornaram extremamente frágeis – ou até inexistentes – e onde sequer conseguimos manter um mínimo de convívio e intimidade, estaremos para sempre à mercê não apenas dos farsantes predatórios, mas, sobretudo, das criaturas virulentos sobre as quais só nos daremos conta tarde demais.
