“Na verdade a mão escrava
Passava a vida limpando
O que o branco sujava, ê.
Imagina só
O que o branco sujava, ê.
Imagina só
O que o negro pensava, ê.
Mesmo depois de abolida a escravidão,
Negra é a mão
De quem faz a limpeza,
Lavando a roupa encardida, esfregando o chão.
Negra é a mão
É a mão da pureza.”
In: A Mão da Limpeza – de Gilberto Gil
“No fim das contas, a pauta identitária, quando voltada exclusivamente para si mesma, tem esvaziado o debate político e o tornado facilmente cooptável pelos interesses do mercado, pois desuniversaliza as pautas enquanto centraliza o debate no monitoramento do comportamento individual. Foca na exclusiva construção das diferenças, deixando de lado a identificação através das semelhanças.” Artur Moura, cineasta e Ricardo Nascimento, fundador da Bacamarte Produções.
O racismo é uma aberração tacitamente planejada por grupos bastante específicos de pessoas – e na defesa dos seus interesses – que diz se basear no “progresso” como critério de priorização das ‘raças’.
No entanto, a verdadeira base material do racismo está na história imperial do Ocidente e jamais foi uma realidade inevitável.
O racismo é um sistema de dominação historicamente construído pelas escravidão e colonização, com base em privilégios e discriminação envolvendo seres humanos sabidamente iguais.
E esta famigerada noção de raça nada mais é do que uma construção social ‘sustentada’ por meras características humanas: cor da pele, religião, cultura, língua, sotaque, etc.
É uma espécie de processo imposto a fim de organizar o ‘desenvolvimento’ econômico europeu que perpetuou-se criando um sistema de competição que divide, até hoje, trabalhadores entre úteis e inúteis.
Esta competição tem como foco um processo que finge ser “natural” e que permite a desvalorização específica da força de trabalho. E isso também permite que os empregadores obtenham preços de mão de obra envolvendo valores irrisórios.
Basicamente, o racismo é uma visão do mundo que se recusa a admitir a unidade da espécie humana e que afirma que esta espécie é e sempre será dividida em raças superiores e inferiores. Seu mecanismo de sustentação coloca na conta da natureza a tal da ‘desigualdade’ que sabe não existir.
A ideologia racista é um subproduto da história da colonização das Américas, África, Ásia e Oceania, realizada desde o século XVI pela burguesia ocidental para seus próprios interesses.
A partir do século XIX, esta ideologia se cristalizou como uma justificativa para a divisão de trabalho dentro de grupos populacionais com base na sua origem e cor de pele e foi ‘racionalizada’ pelos impérios coloniais existentes.
Logo, o tal progresso descrito enquanto avanço dentro da evolução humana – originalmente aquela que converge para o bem comum – foi manipulado por este grupo a fim de servir como critério para a definição de uma espécie de “corrida” entre os seres humanos em busca de estabelecer uma hierarquia, mesmo que em absoluto desacordo com a realidade.
Porque, na verdade, ontologicamente é fundamental entender que todos os homens são iguais. E isto deveria ser indiscutível. Ponto.
Ainda assim, o racismo e a luta antirracista permanecem alimentando categorias de ‘raças’ que almejam classificar seres de acordo com seu grau de ‘progresso’.
Mas o fato é que NÃO EXISTE RAÇA HUMANA.
Porque o nosso DNA, ao contrário dos nossos amigos, os belos animais irracionais, são muito semelhantes.
“Há tantas diferenças entre o DNA de dois indivíduos da mesma aldeia quanto entre um preto e um branco. As diferenças são o resultado da migração dos nossos antepassados, nosso ambiente e mistura genética entre os dois pais. Diferenças de cor da pele assim como também pequenas variações genéticas são o resultado da adaptação de nossos antepassados às condições climáticas especiais. O DNA humano não permite categorizar a espécie humana.”
É o que afirma, entre centenas de outros cientistas, Evelyne Heyer, professora francesa de antropologia genética no Museu Nacional de História Natural e coordenadora de uma extensa pesquisa que se concentra na evolução do homem a partir de dados genéticos.
Apesar do que confirma a ciência, a discriminação racial e étnica ocorre, ainda hoje, no dia a dia, a fim de dificultar a vida e o desenvolvimento de milhões de pessoas ao redor do mundo.
O racismo e a intolerância podem assumir muitas formas – da negação do direito dos indivíduos aos princípios fundamentais da igualdade até radicalismos que podem levar ao genocídio – e todas destroem vidas, comunidades e nações inteiras.
Esta é a verdadeira ‘intenção’ do racismo.
O racismo é um mal que se origina a partir de várias fontes. A principal delas é certamente o fato de algumas pessoas serem convencidas de que pertencem a um grupo étnico que é dominante e superior aos demais. Isto as leva a desprezar todos os que têm outra origem e que, segundo suas torpes convicções, seriam inferiores e, assim, aptos a serem escravizados.
A boa notícia é que não se nasce racista. O racista se torna um. Mas como e por que?
Como construir preconceitos? Qual é a realidade de ‘raças’ de um ponto de vista genético? Que argumentos se opõem aos defensores de uma divisão da humanidade em ‘raças’? Por que os estados vieram para estabelecer um racismo institucionalizado contra certos indivíduos?
No cruzamento da antropologia, biologia, sociologia e história, e em apoio das descobertas mais recentes, esta exposição decifra a criação de estereótipos e construção de ideias sobre a natureza do homem.
O livro Uma Incrível História do Homem, lançado em 2019, explora a construção científica do conceito de ‘raça’ e mostra, a partir de exemplos históricos, a implementação do racismo institucionalizado pelos Estados (a escravidão, o colonialismo, nacionalismo, etc.) passando o fio da história a partir do século XVII, percorrendo o século XIX e chegando no hoje e agora.
“Pesquisas científicas recentes confirmam que as populações humanas têm muito poucas diferenças genéticas entre elas para justificar a noção de ‘raça’. Este conceito ainda é relevante para outras espécies, como cães e cavalos, que é derivado de uma seleção feita pelo homem“ afirma a cientista Évelyne Heyer, coordenadora deste trabalho.
Outra razão para a perpetuação da praga do racismo é o fato de que muitos assumem as opiniões das pessoas que os rodeiam.
Como sabemos, muitas atitudes são moldadas quando somos muito jovens. Quando os membros de uma família ou os amigos expressam opiniões racistas, é comum que muitos também passem a assumir esses pontos de vista. O problema é que, a menos que se faça algo sobre isso, estas visões estereotipadas podem permanecer por toda a vida.
Existe também o conceito idiota de que se deve ficar apenas com pessoas “iguais”.
É normal querer passar tempo com pessoas que tenham os mesmos interesses, gostos, cultura e linguagem. Isso cria um sentimento de pertencimento que é realmente importante.
A desvantagem é que, na medida em que persiste algum tipo de “fechamento”, este grupo pode estabelecer e valorizar diferenças com outros grupos e isto, ao longo do tempo, fatalmente o levará a imaginar que seu agrupamento é melhor do que os outros, usando rótulos como: Ele se veste assim, então deve ser daquele jeito. Ela vai para esta escola, então deve ser assim. Também se estereotipa pessoas de diferentes origens como “preguiçosas”, “inteligentes”, “burras”, “fracas”, etc.
A maneira de vencer os estereótipos? Não julgue pessoas ou grupos. Parta da princípio de que nós, seres verdadeiramente humanos, somos todos iguais. Conheça seres humanos de diferentes origens e descubra o quanto vocês têm em comum. Isso vai enriquecer sua vida e o que você tiver para deixar para o mundo.
Quando nos sentimos bravos ou frustrados, muitas vezes procuramos alguém para culpar. Como comunidade, podemos fazer o mesmo, feito uma doença contagiosa. Ou mesmo admitir que idiotas o façam. As pessoas que olham ou falam de maneira diferente são um alvo fácil. Importante frisar que, assim sendo, invariavelmente essas percepções estarão erradas e serão manipuladas para dividir pessoas e criar guerras entre os povos.
Não há motivos ou desculpas para o racismo. Está errado. É reproduzido por obtusos e cretinos; é praticado por pessoas ignorantes que vicejam pelo mundo sem a menor noção da sua história e do espaço que habitam. Ilógico e absurdo.
E lutas contra racismo e xenofobia só serão genuínas quando se tornarem questões prioritárias tanto quanto a desigualdade, a fome, a miséria e a exploração radical e desumana.
