MEU CACHORRINHO SE FOI

Esperteza, paciência,

Lealdade, teimosia.E mais dia, menos diaA lei da selva vai mudar.
 
Todos juntos somos fortes,Somos flecha e somos arco.Todos nós no mesmo barco,Não há nada pra temer.

Ao meu lado há um amigoQue é preciso proteger.Todos juntos somos fortesNão há nada pra temer.”

 
In: Todos Juntos (Saltimbancos) – de Chico Buarque de Holanda 

 

No último dia 16, comecinho da semana passada, perdi meu cãozinho.

Fica assim explicado meu sumiço de duas semanas por estas bandas. Porque junto com ele foi-se boa parte da minha inspiração dominical – que é a que me propicia escrever semanalmente por aqui.

Ele enfrentou o último ano em meio a um estado crescente de sofrimento, passou os penúltimos dias internado em um hospital e os últimos se despedindo da gente. E todos, sem a menor exceção, foram muito tristes para todos nós.

Aliás, ele não era apenas meu e é preciso que eu esclareça isto já. Pertencia ao Edu e à Carol, meus filhos, e ao Dan, meu marido. E à Lindozinha também, é claro.

Mas fui o primeiro colo amoroso que o acolheu. Numa feira de adoção de cães num domingo gélido, há 15 anos e alguns meses atrás, ele me escolheu em meio a tantos humanos que tentavam alcançá-lo antes de mim.

E assim nasceu o Bonifácio. O nosso amado Boni. Ou Boninho. Bororó. Pretinho.

Se você é dono de um animalzinho, seja que tipo, raça, nome ou idade tiver, sabe que a pior parte de ter um bichinho de estimação não é aquele monte de móveis arranhados, de estofados rasgados, de meias desfiadas ou, até mesmo, o cocô que precisa limpar por todos os cantos da casa até que ele, cansado de ouvir tantas reclamações, resolve criar o hábito de fazer tudo… lá fora.

Muito menos as caríssimas contas com veterinários. Ou mesmo a impossibilidade de fazer algumas viagens, ou de viajar com o coração na mão e o olho nos vídeos passados pelo melhor cuidador de pets indicado pela melhor amiga.

Nunca ficamos sossegados até reencontrarmos com nosso amiguinho dentro dos nossos abraços.

Nada, mas nada disso se assemelha a dor de apenas pensar que um dia você terá que dizer adeus ao bichinho.

Enquanto ele é aquele sapeca bailando ensandecido no meio da rua olhando você correndo com a guia vazia entre os dedos, suplicando aos berros para que ele pare e espere por você, nem assim lhe passará pela cabeça a possibilidade de que um dia ele ficará tão velhinho que vai precisar partir.

O dado irreversível é que tanto você quanto ele irão envelhecer e que isso só vai acontecer se vocês tiverem muita sorte, lembre-se disto também. Porque ficar velho é para os fortes.

Nosso Boni foi-se bem aos pouquinhos, definhando, um passinho de cada vez.

E não sei explicar se foram os dolorosos estágios da sua finitude que me fizeram, finalmente, olhar para a minha própria.

Mas confesso, do fundo do meu coração dilacerado pelo dor da perda do meu melhor amiguinho de colo, que vê-lo aceitando calmamente cada limitação que se impunha à uma existência mais plena e feliz, como parte de algo tão certo quanto inexorável, me dava até uma certa inveja.

Ainda que, por vezes, se debatesse diante de obrigações impostas por outros humanos, os ditos especialistas, como remédios a cada tantas e tantas horas, comidinhas especiais com gosto de nada, exercícios físicos extenuantes, choquinhos, agulhas, caminhadas em esteiras submersas n’água e cada vez mais e mais remedinhos, ele seguia ali, obediente, sempre buscando permanecer mais um tempinho do lado da gente.

Sabe aquele cãozinho que pede carinho na maior cara dura? O Bonifácio era exatamente assim.

Não importava a hora, a roupa, a cara de bons ou de maus amigos, nosso vira-lata (esqueci de mencionar sua estirpe RND: raça não definida) pousava solenemente sua cara de pedinte no colo de todos os desavisados que à casa dele (e nossa) adentravam, a fim de pedir um chamego. Assim. Sem a menor vergonha na cara.

E disso tenho certeza de que todos sentiam o mais profundo despeito. Porque nós, humanos, somos campeões em disfarçar nossa sempre profunda carência afetiva – que ele jamais escondeu. 

Desta forma, uma das coisas que aprendi com Boninho foi que nossos animais de estimação nos amam incondicionalmente e que o vínculo e a conexão que nos ensinam a criar são raros e únicos, justamente porque você pode ser verdadeiramente quem é e, ainda assim, eles vão lhe amar, não importa o que aconteça ou o que você venha a fazer.

E este amor faz uma falta danada. A todos nós.

O luto, enfim, é algo que se pode tentar entender logicamente, mas é preciso se permitir experimentá-lo para conseguir superá-lo. E isso significa que você nunca deve pular sua dor emocional.

Entender as diferentes fases dos nossos sentimentos é a única condição para alcançar o estágio de aceitação da morte. E acolher esta dor é uma forma não apenas de honrar seu animal que se foi como também de demonstrar gratidão por todo o amor que vocês compartilharam.

Agradeço demais o apoio que já antecipo de todos vocês. E até a próxima semana!

2 pensamentos sobre “MEU CACHORRINHO SE FOI

Deixar mensagem para Caroline Cabral Cancelar resposta