O VALOR DA PALAVRA DE UMA MÃE

Como foi? Por que foi?
Você não saberá como foi.
Só eu sei. É sua vez de saber
Que será? O futuro que eu fiz, é você
Como foi? Só eu sei.
E perdoe quando errei, sem querer errar
Meu filho a vida é isso ai.
Se as vezes fico sério, e só prá ver você sorrir.”

In: Pais e Filhos – de Tim Maia e Arnaud Rodrigues

 

Não é de hoje que nos deparamos com notícias sobre a existência de inúmeras quadrilhas formadas por jovens da chamada ‘classe-média’ brasileira.

As idades variam entre 15 e 30 anos e, na maior parte dos casos, usam da mesma violência que todas as demais gangues, que roubam, sequestram, aprisionam e violentam do mesmo jeito, e com a mesma brutalidade, que os jovens ‘bem-nascidos’, frequentadores de famosas universidades utilizam para agredirem e violarem as jovens colegas de classe, alegando que elas estavam “bêbadas”, “deram mole” ou, ainda, “vestiam roupas pouco descentes” (sic).

São jovens de classe média/alta que, quando não estão drogados, parecem até pessoas normais e tranquilas. No entanto, sob o efeito das drogas, tudo o que possuem de ruim aflora e tornam-se perigosos e violentos.

Espancam suas vítimas lhes roubando, inclusive, itens desnecessários. Costumam portar armas pesadas, munições, carros, motos, dinheiro em espécie, joias e cartões de créditos – todos roubados, claro.

A mãe de um desses criminosos, de 22 anos, teve a desfaçatez de declarar que todos os seus filhos primavam pelos tais decantados “princípios familiares” onde a consideração ao próximo era central e, ainda, afirmar que em sua casa todos viviam dos próprios salários e que nunca almejaram nada além disto. Questionada sobre a suspeita de que seu filho participaria da tal gangue, ela prontamente respondeu: “– Meu filho é inocente!!!!” E emendou com o indefectível: “Palavra de mãe”.

Não sei se sinto pena ou se fico estarrecida e indignada. Não que isso vá fazer qualquer diferença, mas desconfio, cá comigo, que talvez eu não me encontre sozinha nesta indagação

Porque não posso deixar de perguntar o que é que certos pais fazem ou, pior, deixam de fazer, quando percebem que os filhos estão agindo de maneira estranha, nada comunicando sobre o que fazem ou consomem, para onde vão e com quem andam. Ou, ainda, quando adquirem coisas ou hábitos que não condizem com suas posses ou com o perfil da família. Ou quando somem de casa reaparecendo, inexplicavelmente, trajando roupas de marcas caras ou carregando muito dinheiro.

Imagine uma mãe ganhando um presente valioso sem se interessar sua origem daquilo e, ainda por cima, demonstrando uma descabida indulgência que tenta esconder seu mais puro cinismo?

O mecanismo desta “cegueira”, provavelmente, é primo-irmão daquele que faz determinados pais se orgulharem das façanhas dos filhos quando estes se metem em confusões, quando se tornam os tais “fortões briguentos” (‘ninguém se mete com o meu garoto’, já ouvi de um pai ao se vangloriar do filho que acabara de massacrar outro rapaz numa estúpida discussão de trânsito) ou, ainda, quando,  sob muitos aspectos, transformam-se em seres automatizados, cegos e insensíveis, sem nenhuma condição ou disponibilidade para aprimorar nada do que existe à sua volta.

E, então, lembro-me, com genuína emoção, da mãe de um amiguinho do meu filho, quando ambos tinham oito anos de idade. Certa noite, quando já nos preparávamos para dormir, fomos surpreendidos com sua visita acompanhada do filho. Este, bastante acabrunhado, segurava um carrinho de brinquedo que, naquele momento, não identifiquei. A mãe foi logo explicando, antes mesmo de ser convidada a sentar-se:

”– Olha, Heloisa, meu filho veio aqui para devolver o carrinho que ele levou escondido, dentro da jaqueta, pra nossa casa. Ele sabe que não podia ter feito isto sem pedir emprestado para o dono. Portanto, está aqui para pedir desculpas para todos vocês. ” 

E ali, diante da nossa perplexidade, orientou ao menino que depositasse nas mãos do amigo o objeto furtado e pedisse, a cada um de nós, desculpas pelo que fizera. Depois deste comovente ritual, lembro-me de tê-lo abraçado com força e carinho, dizendo que aquela atitude me deixara muito orgulhosa dele.

Hoje não tenho nenhuma dúvida de que o que aquela mãe fez, de maneira sensível e consciente, foi evitar viver o drama que a outra, anos depois, precisou enfrentar ao entregar o filho para a polícia por medo das violências que ele andava cometendo e que em pouco tempo se virariam, sem qualquer sombra de dúvida, contra a própria família.

Penso que a verdadeira “palavra de mãe, seja ela proferida por quem for, e expressada nas conversas do dia a dia, é aquela capaz de orientar na direção de um caminho legitimamente digno e ético. Independente dos péssimos exemplos que são cotidianamente noticiados.

Não tenho dúvidas de que a conversa necessária, e que tanto falta, ainda será capaz de transformar o mundo num lugar muito melhor – onde as relações sejam mais humanas e amorosas.

Depende da coragem que cada um de nós tenha de nos impormos diante do mal que nos assola, a fim de nos mantermos fiéis ao compromisso de criar seres humanos que defendam e reproduzam profundos votos de respeito aos melhores princípios, além da solidariedade e da justiça hoje tão escassas.

Com exemplos íntegros e edificantes como fez aquela maravilhosa e exemplar mãe, na minha sala de estar, alguns anos atrás.

E, se desejar, envie seus comentários para psicologaheloisalima@gmail.com

Um pensamento sobre “O VALOR DA PALAVRA DE UMA MÃE

  1. Adorei esse texto; essa reflexão. Quando criança, tive a grata experiência de vivenciar algo semelhante na minha casa. Meu pai tinha dado um par de tênis para um aluno, da escola que ficava na esquina da nossa casa. Naquele mesmo dia, a tarde, o garoto, junto com a sua mãe, voltaram em casa, porque a mãe, humilde, buscava esclarecimentos sobre o presente que o filho havia ganhado. Naquele dia, aquela senhora cumpriu o papel dela de mãe com o filho e o social dela comigo, me deixando mesmo sem saber, um valioso e inesquecível aprendizado. Obrigada por seu texto me remeter a essa boa lembrança do meu passado. Um abraço.

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