Coração de estudante,
Há que se cuidar da vida,
Há que se cuidar do mundo,
Tomar conta da amizade.
Alegria e muito sonho
Espalhados no caminho,
Verdes, planta e sentimento,
Folhas, coração,
Juventude e fé.”
In: Coração de Estudante – de Milton nascimento
Tive o privilégio de estudar exclusivamente dentro do sistema público de educação desde a minha infância. Passei por escolas incríveis e fui aprovada em dois vestibulares para universidade estadual.
Naquela época, nossos professores se dedicavam exclusivamente ao reconhecido e grandioso ofício de ensinar e, para isto, ganhavam bons salários. E, na maior parte dos casos, davam aulas apenas nas escolas onde escolhiam trabalhar.
Experiência totalmente diferente desta que o Brasil vive atualmente em relação ao ensino público. Como chegamos a tamanha ruína?
É inegável que algo de muito impressionante e assustador acontece com a escola pública atualmente. E um destes aspectos refere-se a certa prática conhecida entre eles como uma espécie de política das Portas Trancadas.
Provavelmente por conta da falta de funcionários, muitas escolas decidiram trancafiar os alunos dentro de suas salas assim como manter os banheiros também trancados. Tudo ali, muitas vezes, possui grades no lugar de portas ou janelas.
Uma docente conta que já viu alunos fazerem suas necessidades fisiológicas nas calças porque não houve tempo hábil até que conseguissem alcançar o vaso sanitário!
Aparentemente tanto esta quanto as demais mudanças na rotina escolar fazem parte do evidente processo de desumanização da escola assim como do corte visceral da conexão entre ela e o mundo que a rodeia.
As administrações escolares justificam serem estas tentativas para “dominar” os alunos e os professores que, segundo elas, devem aprender a obedecer a rigidez dos horários estipulados para entradas e saídas.
Nem um minuto a menos, nem um minuto a mais. Entendeu? Nem eu.
Outra professora confessa que o primeiro dia letivo é, de fato, o primeiro dia de aula. E a primeira reunião entre os professores só acontecerá muitos dias depois. O que significa que não existe qualquer tipo de contato ou relação entre professores, direção e alunos anterior a esta data. Nada sobre e necessária preparação pedagógica.
Ou seja: não existe nada.
Professores sem tempo nem condições de se reciclarem. Alunos desmotivados e sem o menor estímulo para estudar. A educação virou uma panaceia inútil que não remedia coisa alguma. Muito menos a ignorância e a desinformação que assola gerações de brasileiros há décadas.
Há, estranhamente, uma espécie de “naturalização” deste formato escolar atual. Por mais antinatural que seja. É como se as escolas brasileiras sempre tivessem sido desse jeito.
E você precisa saber que isso não é verdade.
Quando o professor questiona este estado de coisas numa reunião, por exemplo, é classificado como um chato e passa a ser pressionado pelos colegas – que acham o tema pura “perda de tempo” – e pela direção, que não deseja ser criticada.
“Educadores” fingem que ensinam, alunos fingem que aprendem. E todos os envolvidos na farsa fingem que está tudo bem com a nossa educação.
Professores desumanizados e desumanizadores – mesmo que as escolas públicas admitam uma média de 45 a 50 alunos dentro de parcos 25 ou 30 metros quadrados de área ou que um laboratório seja transformado em duas salas – neste caso real, pouco tempo depois, apareceu um grave vazamento e uma rachadura no meio das salas. Em três semanas, além de terem perdido o laboratório de ciências, os alunos amargaram a perda das duas classes também.
Hoje, acima deste laboratório rachado, existem outras duas salas de aulas com 48 alunos abrigados em cada uma. E se ambas desabarem?
Um mestre conta que na sua escola foi a pequena biblioteca que virou uma sala de aula. Perdeu-se a biblioteca.
Muitas das antigas escolas que abrigavam crianças e grupos escolares, hoje abrigam jovens adultos – uma vez que contemplam o ensino médio – sem terem passado por uma mínima reformar qualquer!
Portanto, as salas de aulas passaram a operar praticamente como penitenciárias que funcionam como depósitos humanos e onde os jovens precisam se revezar para “ocuparem” seus exíguos ambientes.
Existe uma lista de alunos (onde os professores precisam pregar folhas avulsas já que os diários só comportam 55 nomes) que fica completa somente nos dias de avaliação – que é quando as cadeiras chegam a ponto de encostarem na lousa da sala.
Os professores perguntam o óbvio:
Com tantos prédios, que antes eram fábricas, vazios, por que não se constroem dentro deles escolas? Nem mesmo se considerarmos que 80% da educação básica no Brasil é pública?
Com base no Censo Escolar 2024 (já que o de 2025 ainda não terminou), a rede pública concentra cerca de 85% dos mais de 47 milhões de alunos no país (cerca de 40 milhões).
Vamos pensar: que trabalho pedagógico é possível nesse cenário, levando em conta as relações humanas totalmente degradadas? Como afirma a professora:
Se para a classe média é ruim, para os mais pobres é ainda pior. As crianças e os jovens ficam largados a maior parte do tempo. Expostos a toda sorte de problemas e perigos. Não almoçam mais. Tomam lanches quando podem, comem porcarias, porque não existe ninguém em casa para lhes oferecer um prato de comida.
A escola passa a ser uma obrigação sem sentido. O valor das coisas, as informações, adquirem um caráter fetichista, quase mágico e irreal: ninguém sabe como nada é feito e, muito menos, de onde as coisas vêm.
A produção de tudo é tão absolutamente distante que quando aparece um vídeo mostrando algo sendo produzido as pessoas ficam encantadas, hipnotizadas, como se aquilo fosse algo supra-humano e não simplesmente fruto do trabalho humano.
Do mesmo jeito desconhecem a história de seu povo e da sua nação
Por outro lado, os alunos percebem claramente o total descaso para com o seu futuro e a resposta que conseguem produzir, diante do que sentem como uma total violência, também é a “VIOLÊNCIA”.
Desabafa a professora, chocada:
As pessoas boas, no sentido humano, estão morrendo no sentido físico. Adoecem porque não conseguem encontrar saídas e assumem o “fracasso” como algo individual, como culpa. E esta tragédia está alcançando todos de uma forma geral e irrestrita. A esmagadora maioria dos brasileiros está comendo menos, se divertindo menos, passando menos tempo com seus familiares, com seus amigos. Vivendo com menos alegria. E a qualidade daquilo que experimentam em vida está piorando e tornando todos um bando de desesperançados infelizes.
E conclui:
Todos precisamos entender que é necessário produzir mais amizade, mais afeto, mais solidariedade, mais união. A soberba precisa ser convertida em solidariedade. As crianças hoje em dia sequer dividem a comida que têm. Todas vibram na escassez. Precisamos resgatar o sentido de comunidade, discutir e ressignificar nossos valores que foram barbarizados com a falta de laços comunitários, de bairros e de relações mais afetivas.
Segundo outro educador:
A esperança para tempos tão difíceis talvez seja a convicção de que o que nos impede de implodir enquanto humanidade é aquilo que em física chamamos de MATÉRIA NEGRA. Matéria, porque é possível medir sua existência por meio da força gravitacional que ela exerce. E é escura porque não emite nenhuma luz. São partículas (átomos e moléculas) que não compõem outros corpos sólidos. São elas que, de alguma maneira, conservam o equilíbrio no universo mantendo a repulsão e a atração num nível semelhante – mesmo que não possam ser vistas. Dentro das relações humanas muito provavelmente existam também estas redes invisíveis que mantêm um tipo parecido de equilíbrio. Todos nós sentimos isto de maneira muito inconsciente e intuitiva.
Afinal, convenhamos: se a maioria de nós fosse formada por seres cruéis ou meros psicopatas, a humanidade já teria sido destruída.
Mas é preciso nos lembrarmos sempre: os jovens são a esperança e não o perigo. E é exatamente isto o que precisamos defender neste momento. Nossos jovens estudantes que ainda possuem vigor para lutar a favor da esperança. E os educadores que ainda mantêm o afeto vivo em seus corações.
Que vivam os estudantes!
