COMO FAZER UM ALEMÃO EM SOLO BRASILEIRO

“Não quero ser o Mandela,
Apenas dar um exemplo.
Não sei se você me entende.
Mas eu lamento que
Irmãos convivam com isso naturalmente.
Não proponho ódio, porém,
Acho incrível que o nosso conformismo
Já esteja nesse nível.
Mas Racionais resistente, nunca iguais.”

In: Voz Ativa – de Racionais MC’s

O título deste post deve parecer uma maluquice, não é mesmo? Afinal, como é possível que alguém imagine criar um legítimo ser humano alemão, africano, italiano ou canadense dentro do território brasileiro?

Pois foi justamente a “receita de bebê alemão” que uma pomerodense (pessoa que nasce na cidade de Pomerode, Santa Catarina, Brasil) resolveu publicar em uma rede social na semana passada.

O controverso vídeo afirma que descendentes de alemães (aparentemente por conta dos bisavôs, no caso dela), ainda que nascidos no Brasil, podem ser considerados alemães, desde que tenham uma pele bem branquinha e lindos olhos azuis (sic).

Não é novidade para ninguém que existe uma impressionante escalada nazista mundo afora e, em especial, dentro do nosso país.

Um estudo recente (de 2022) apontou um crescimento de 270% de grupos neonazistas dentro do Brasil, espalhados por 530 núcleos extremistas.

Segundo a antropóloga Adriana Dias, uma referência no tema e coordenadora do estudo, “eles começam sempre com o masculinismo, ou seja, eles têm um ódio ao feminino e por isso uma masculinidade tóxica. Eles têm antissemitismo, eles têm ódio a negro, eles têm ódio a LGBTQIAP+, ódio a nordestinos, ódio a imigrantes, negação do holocausto“, enumera.

Também constatou que estes núcleos nazistas se concentram na região sul do Brasil, embora existam grupos espalhados nas demais regiões, com destaque ao Centro-Oeste e Sudeste, como Minas Gerais e Rio de Janeiro.

Apenas no município de Blumenau (que dista 30 km de Pomerode) foram mapeadas 63 células neonazistas na pesquisa de Adriana.

Em Santa Catarina um dos mitos que perpassa essa ideologia é o de tratar-se de um estado branco (não misturado) que se proclama a “Europa Brasileira”. 

Foi em Pomerode, a autodenominada “cidade mais alemã do Brasil”, que se descobriu, em 2014, uma suástica desenhada no fundo da piscina de Wandercy Antônio Pugliesi, conhecido como Wander, um professor de História em colégios de Blumenau.

Este mesmo homem já havia aparecido em rede nacional 20 anos antes de sua suástica ser fotografada. Em fevereiro de 1994, mostrou, num programa de televisão, sua coleção de documentos e objetos sobre o Terceiro Reich. Um ano depois, foi capa de jornais exibindo um quadro de Adolf Hitler diante de sua estante de livros – a maioria deles publicada por uma controversa editora gaúcha, a Revisão, especialista em livros revisionistas sobre o Holocausto.

O pequeno município – que tem 31 mil habitantes e cuja origem remonta à chegada, em 1863, de imigrantes oriundos da antiga Pomerânia – só se tornou emancipado de Blumenau em 1959.

Feita esta introdução, voltemos ao vídeo do bebe alemão.

Além de exaltar a cor branca e os olhos azuis de seu lindo bebê e de seus ascendentes, a mulher afirma que seu município é considerado o mais desenvolvido (sic) do país.

É evidente que para preservar tamanha ‘branquitude’, foi necessário não ocorrer nenhum tipo de miscigenação.

Agora, de onde ela sacou a ilusão de “melhores em tudo”, digna de um Transtorno Narcisista, não nos é dado saber. O que importa aqui é que seu vídeo recebeu várias críticas, que resultaram em celeumas implicando um monte de gente branca dita “progressista”, como a psicanalista Maria Rita Kehl ou um youtuber chamado Henry Bugalho, dentre outros.

Ambos, no lugar de tentarem refletir sobre a visível distorção defendida por esta mãe – quando enaltece não a maternidade, mas as cores da pele e dos olhos de seu filho – partem para a defesa cega daquilo que escolheram nomear de direitos dos brancos ao mesmo tempo em que atacam o que resolveram definir como “mimimi” da ‘militância identitária‘.

Parecem desconhecer que os brancos, ricos e poderosos deste país, são todos oriundos de uma Europa colonizadora que controlava (ou controla?) este emaranhado de interesses envolvidos na colonização tanto do sul quanto do restante do Brasil.

É fundamental lembrar que TODA a região do rico Vale do Itajaí era densamente habitada pelos povos indígenas Xokleng, Kaingang e Guarani, centenas de anos antes da chegada dos invasores europeus.

Portanto, afirmar que eles ali encontraram um espaço livre, onde prosperaram sozinhos e pela força de vontade própria – criando a imaginária ‘região mais rica do país’ (sic), como é insistentemente repetido nos dois vídeos publicados – vai frontalmente contra a verdade dos fatos.

Depois, fingem não enxergar que a colonização de Santa Catarina diante da presença indígena, principalmente na região de Itajaí, foi marcada pela violência e pelo extermínio destas populações, o que foi amplamente apoiado pelo governo provincial e por empresas particulares europeias.

Em 1845, para se ter uma ideia, foi criada uma colônia exclusiva para Belgas, administrada pela empresa “Societé Belge-Bresilienne de Colonisation” (Sociedade Belgo-Brasileira de Colonização) junto ao governo brasileiro.

A partir disso ficou definido, entre os novos colonos impostos, que os povos originários e a população negra seriam chamados de “caboclos”, “bugres” ou “brasileiros”, sempre de forma pejorativa e depreciativa, ao mesmo tempo em que os descendentes europeus passaram a ser tratados como os “povos com origem”.

Desta forma conseguiram ir apagando a história primitiva dos nossos povos e a substituindo pela narrativa oficial que apresentava, e ainda apresenta, os colonizadores brancos como os produtores legítimos de toda aquela riqueza.

Se descendentes de europeus colonizadores que nunca se misturaram se definem como lindos e fofos, simplesmente porque são brancos e têm olhos claros, é evidente que estão SIM fazendo um discurso eugenista, discriminatório e inaceitável nos dias de hoje.

Logo, o encobrimento deste indisfarçado racismo serve exclusivamente à interdição da crítica e autocrítica de tamanha violência.

Enfim, é sempre bom lembrar que, segundo a Wikipédia, “Raça Ariana é um conceito de raça que teve origem no auge do século XIX numa noção inspirada pela descoberta da família de línguas indo-europeias. Ganhou ênfase durante a Alemanha Nazista e tinha enfoque em traços faciais definidos, um queixo forte, e linhas faciais proeminentes e visíveis, a origem étnica caucasiana,[1] cabelo claro, sobretudo loiro[2] e espectro de olhos azuis a verdes, onde as características eram idealisticamente representadas sobretudo pelos povos nórdicos.[3]”.

Deixo, a seguir, o melhor e mais bem-humorado vídeo comentado acerca deste episódio:
http://www.youtube.com/watch?v=ZAHRDBhqUIs

Se desejar, envie seus comentários para psicologaheloisalima@gmail.com

Um pensamento sobre “COMO FAZER UM ALEMÃO EM SOLO BRASILEIRO

  1. Além desse professor nazista o pai da antiga vice governadora era declaradamente nazista. Uma reunião nazista foi desmantelada em São Pedro de Alcântara. Nazistas foram julgados e inocentados em Itajaí. Etc.

Deixe seu comentário...