Há poucos dias a jornalista e escritora Vanessa Barbara participou de um episódio intitulado CPF na Nota, dentro do podcast Radio Novelo (Youtube), onde contou, na forma de um desabafo, seu desgastante casamento de anos com o jornalista André Conti, sócio da Editora Todavia, editor da Cia. Das Letras e da revista Piauí e filho do jornalista Mario Sérgio Conti, da Globo.
Nele ela detalhou o complicado equilíbrio que se viu obrigada a manter entre suas tarefas dentro daquele casamento – como pagar contas e organizar as coisas de casa – e a constatação de que era traída não apenas pelo marido, mas pelos colegas dele – que acompanhavam par e passo as questões pessoais que ela acreditava enfrentar exclusivamente com ele.
Este declarado grupo machista de amigos, formado em uma lista de e-mails aos quais ela teve acesso, não apenas partilhava experiências sexuais em seus detalhes mais íntimos, como rifava mulheres já abandonadas para que essas pudessem ser ‘apreciadas’ pelos demais, revelando os horrores da misoginia escondida por detrás de fachadas bem construídas de homens inteligentes, progressistas e sensíveis que fingiam ser.
Todos na faixa dos 30 anos.
Evidentemente, essa notícia não podia fazer bem aos agora desnudados cafajestes.
O ex-marido acusado, escreveu uma nota reconhecendo o que fez e pedindo desculpas à Vanessa e aos amigos pelo mal causado, talvez como uma referência ao descuido de não os ter protegido de olhares externos, como o da sua esposa.
No entanto, na contramão desta aparente tomada de consciência de André, sua atual esposa resolveu publicar (dificilmente sem sua permissão, convenhamos) uma carta onde não apenas defende o companheiro, como o justifica com passagens do tipo: era um tolo, mas amadureceu… já faz tanto tempo, além de destilar inúmeras grosserias e provocações contra Vanessa.
Não obstante as reações cínicas de diversos machistas de plantão que nem da famigerada lista faziam parte, a faceta misógina, preconceituosa e desqualificadora deste grupo de falsos companheiros de luta foi desvelada, e é importante recuperar algo que todos nós, de uma forma ou de outra, já estamos cansados de saber.
A maioria das coisas nunca é o que parece ser. E isso inclui pessoas que parecem felizes demais, bacanas demais e bem-resolvidas… demais.
As redes sociais estão aí justamente para garantir que tudo o que de pior a desumanidade possa produzir se torne normal e palatável, garantindo que todos sigamos fingindo ser aquilo que nem de longe somos. Tal qual André e seu grupo de amigos sem-noção.
Porque não vamos nos esquecer a forma como os homens e as relações sociais claramente estabelecidas ajudam a perpetuar a violência contra as mulheres, já que a violência deles contra elas consiste na continuidade e no encobrimento de práticas destrutivas socialmente normalizadas e toleradas, assim como construídas sob sexismo e misoginia profundamente enraizados em nossa sociedade como um todo.
Desse jeito, é bastante provável que a maioria dos homens (se não todos) tenham se envolvido ou endossado este tipo de comportamentos em alguns – ou em vários – momentos de suas vidas. Ou mesmo, permaneçam assistido a tudo em silêncio ou de maneira totalmente acrítica.
Tenho um parente que, vira e mexe, conta, entre muitas risadas, quantos dos seus melhores amigos lhe confidenciam suas escapadas conjugais, dentre outras intimidades.
Todos na faixa dos 50/60 anos.
Se lhe pergunto o que ele acha daquilo, ou como se sentiria sua própria mulher saísse com outros, ele de pronto me responde que homens e mulheres têm naturezas muito diferentes e que, portanto, elas não possuem as mesmas necessidades.
Não preciso dizer o que a maioria das mulheres pensam sobre isso. Mas sinto pena quando percebo que este é o pensamento comum à muitos homens que se dizem liberais e abertos.
Assim, a famigerada solidariedade acima de qualquer contradição continua propagando e perpetuando o terrível sofrimento pelo qual nós, mulheres, continuamos passando, não é mesmo?
A solidariedade é um valor moral universal, uma espécie de paradigma ético, que constitui um dos valores mais completos e necessários na educação integral do ser humano, com implicações nas mais diversas áreas das relações humanas dentro de uma sociedade que se deseja mais igualitária.
Todavia, muitas vezes admitir cumplicidade não é o bastante entre os machistas: eles necessitam amplificar todos os seus preconceitos e discriminações baseados no sexo ou na orientação sexual. Este é o berço e a fonte de toda a violência contra as ditas minorias, por sinal.
O sexismo, cuja crença defende que um gênero é inerentemente superior ao outro, costuma se manifestar através da escolha do conteúdo das conversas, nas atitudes, palavras, piadas, etc. Este tipo de preconceito tem o poder corrosivo de afetar – e muitas vezes destruir – a vida de todas as pessoas, principalmente de meninas e mulheres.
Homens que se recusam a criticar comportamentos abusivos de seus parceiros estão, no fundo, implicados em suas transgressões.
Afinal, a cumplicidade se revela na ação ou na falta dela, na fala ou no silêncio, na associação ou na omissão, pois decorre do desejo de preservar a reputação (do ‘macho’, no caso) e de não querer abordar criticamente o sistema em que se vive.
É preciso destacar que o assédio, a degradação e a opressão representam o aspecto mais perverso de uma sociedade dominada por homens, já que sobrevive nas entranhas das estruturas de poder onde a desigualdade se encontra consolidada.
Os maus-tratos às mulheres perpetrados por homens-canalhas não devem ser tolerados, assim como nenhum tipo de cumplicidade em relação a esse comportamento.
Fingir ignorar a própria ignorância não é uma desculpa cabível ou aceitável, especialmente diante do contexto de desigualdade de gênero – claramente colocado. E essa realidade não é algo novo, muito menos desconhecido da maioria absoluta dos homens.
Alegar que “naquele tempo” os homens não entendiam as consequências brutais de seus comportamentos é de uma hipocrisia absolutamente revoltante. Porque esta será a mesma desculpa que os abusadores oferecerão em 2035 e em 2045.
E, antes que eu me esqueça, o link para o citado podcast:
https://youtu.be/OcvDAvfW-FU?si=-5BXo_F07nr1OzfX
Minha derradeira sugestão é a seguinte: se você vive uma relação que acredita honesta, então não haverá qualquer problema em se cobrar transparência. Para que esconder as coisas pessoais com senhas? Por que não abrir tudo a fim de que as dúvidas e as inseguranças se dissipem como tem que ser?
Abra suas senhas e exija a abertura das do seu companheiro ou companheira. Nada precisa ser segredo se a relação é, afinal, baseada em confiança, confere?
Então, mãos à obra, casais!
Se desejar, envie seus comentários para psicologaheloisalima@gmail.com
