
“E como um conto de fada
Tem sempre uma bruxa pra apavorar.
O dragão comendo gente
E a bela adormecida sem acordar.
Tudo que o mestre mandar
E a cabra cega roda sem enxergar.
E você se escondeu,
E você não quis ver.”
In: Jardins da Infância – de João Bosco
Você sabia que o TODOS OS ANOS o planeta convive com o dado estarrecedor de que 400 milhões de crianças e adolescentes são vítimas de violência sexual?
No Brasil, segundo a Fundação Abrinq, a cada 24 horas o Brasil registra 124 denúncias de violência sexual contra crianças e adolescentes.
Sabemos que o número de estupros vitimando mulheres no Brasil aumentou significativamente nos últimos meses. A pandemia aprofundou este terrível quadro que alcança mulheres de todas as idades. E a tragédia, evidentemente, atinge cada vez mais crianças neste país.
Se para que uma mulher consiga ter coragem de expor uma denúncia de abuso, o caminho é duro e extremamente tortuoso, imagine quando se trata de uma criança?
Logo, é essencial valorizar a palavra da vítima. E ponto final.
Quando se fala de abuso sexual no Brasil, 70% dos casos envolvem crianças e adolescentes.
Menores de idade são os principais alvos deste tipo de violação que mistura medo, pressão, covardia e uma espécie de exercício de ‘poder’ – aquele da pior espécie.
O grande problema é que por ser uma barbaridade praticada, na maioria das vezes, por familiares ou pessoas muito próximas da família, apenas 35% dos casos são notificados.
E o restante? Evidentemente é varrido para debaixo do tapete.
Outra triste estatística brasileira dá conta de que, segundo um recente censo, pelo menos 877 mil meninas, com idades entre 10 e 15 anos, se encontram casadas no país. Entre 15 e 17 anos, o total é de 567 mil menores.
Isto nos torna o QUARTO país no mundo em casamentos de crianças e adolescentes. São mais de 1,3 milhões meninas casadas com menos de 18 anos – atrás apenas da Índia, Bangladesh e Nigéria.
Em 2022 foram registrados 40.659 estupros de menores de 13 anos no país. As meninas são as maiores vítimas. São quatro estupros por hora e a maior parte deles acontecem dentro de casa.
A RESPONSABILIDADE DE CADA UM DE NÓS.
É inadiável uma reflexão acerca das responsabilidades envolvidas em situações de abuso sexual que atingem de maneira crescente tantas crianças indefesas.
O “mercado do sexo” em nosso país é considerado uma atividade econômica que está claramente ligada à ideia de que o corpo feminino é público. Neste sentido, a mulher torna-se, ela também, uma mera mercadoria – a serviço do homem.
É preciso falar muito sobre isto. Amanhã pode ser tarde. A hora é agora!
Meu conhecimento e minha experiência clínica me confirmam que o silêncio, junto ao desconhecimento e à desinformação, tem sido o maior e mais feroz aliado deste crime.
Se um adulto se cala a respeito dos perigos e das armadilhas às quais as crianças estão cotidianamente expostas, está colocando-as frente ao mundo adulto, e diante de seus potenciais algozes, de maneira despreparada e desprotegida.
Não conversar abertamente com as crianças a respeito do assunto, no meu ponto de vista, caracteriza uma forma de abandono. Mais que isso: uma certa conivência com a trágica situação que daí poderá advir.
Acima de tudo, cabe principalmente à mãe (ou quem estiver cumprindo este papel) ou a um(a) educador(a), devidamente preparado(a), a tarefa de explicar às crianças sobre os limites que podem, precisam e devem ser estabelecidos em relação aos adultos, sejam estes integrantes ou não do círculo familiar. Este assunto, aliás, deveria ser tratado natural e corriqueiramente. Sem segredos. Com alertas periódicos em casa, na escola, nos meios publicitários, etc.
Saliento, ainda, que não pode existir nenhum profissional, seja de que área for, que se outorgue o direito de “exigir” ficar a sós com um menor. Toda consulta, toda entrevista, todo contato pode ser supervisionado pelo responsável ou tutor legal, sob pena de cair em suspeição.
Também em qualquer tipo de terapia, ao responsável deve ser concedida a autorização de participar ou de observar, ainda que à distância, se o mesmo entender ser necessário. Não podem existir barreiras para este cuidado ou controle.
É preferível o exagero que resguarda do que a liberalidade que entrega.
Quando a mãe ou o pai conversam com os filhos, de forma clara e honesta, abrem o espaço em que se consolida um saudável vínculo de amor e confiança.
Uma maneira muito simples e direta da mãe (ou do educador) informar para as crianças, mesmo as mais novas e imaturas, onde e como a barreira entre ela e o adulto deve ser colocada, é a seguinte:
“— Seu corpo lhe pertence totalmente e você deve fazer o que for de melhor para ele. Pode conhecê-lo, observá-lo, admirá-lo e tocá-lo, mas apenas você, ninguém mais. Nem mesmo eu ou seu pai, seus irmãos, primos, amigos, professores, nenhuma outra pessoa, enfim, tem o direito de tocar no seu corpo sem a sua permissão. E esta permissão você só poderá conceder quando crescer e for mais adulta e experiente. E se um dia algo, porventura, lhe acontecer, alguém lhe tocar de maneira suspeita ou lhe falar coisas estranhas, conte imediatamente para mim porque estou aqui para lhe proteger e orientar.”
Apesar de serem, aparentemente, uma conduta e um diálogo simples, muitos pais sentem-se bastante desconfortáveis em abordar o tema, muito provavelmente porque ele foi de difícil trato em suas próprias vidas. Outros preferem protelar o assunto para um “momento mais adequado”, ou “de maior amadurecimento e com melhores condições de assimilação” ou, quem sabe, para NUNCA.
De uma forma ou de outra, os pais que assim agem estarão abdicando da responsabilidade de preparar seus filhos para enfrentar os reveses da vida, deixando uma clareira onde dor e sofrimento poderão ameaçar a delicada e vulnerável existência infantil.
Não existe momento melhor para tratar da questão do que aquele em que os responsáveis percebem que seus filhos serão deixados alguma parte do dia na companhia de outras pessoas, familiares, amigos ou profissionais.
A sexualidade precisa perder sua condição de intocável tabu para se tornar um tema cotidiano, conversado diariamente, sem medos, sem metáforas de flores e abelhinhas, sem dramas, pois apenas a partir da informação ajudaremos a construir a consciência de que determinadas atitudes de alguns adultos devem ser reconhecidas como inapropriadas e rechaçadas por parte dos nossos pequenos.
Já ouvi de alguns pais a desculpa do temor de ‘chamar a atenção’, revelando desnecessariamente um tema ‘desagradável’ que seus filhos não estariam preparados nem dispostos a absorver. Costumo contrapor esse argumento com a seguinte observação:
“ – Ok! Não tome a iniciativa de levantar este tema, muitas vezes tão difícil de lidar. Deixe-o sepultado eternamente nas profundezas da comodidade, se omita de preparar seus filhos para os riscos da vida, permaneça alienado. Desta forma, logo, logo, algum pervertido poderá fazê-lo em seu lugar. Só que de uma maneira cruel e perniciosa.”
Quando uma criança aceita que um adulto lhe toque intimamente é porque este, de alguma forma, aproveitando-se de sua pretensa posição de ‘autoridade’, lhe assegurou que aquele ato era legítimo e que não haveria qualquer restrição de ordem moral ou legal para a sua prática, enfim, nada que o tornasse indigno de ser praticado.
Quando um adulto adota esta prática de maneira sistemática, mesmo que ela represente um terrível desconforto físico e provoque um indescritível sentimento de horror na criança (não raramente acompanhado por uma difusa sensação de prazer), é porque este algoz já conseguiu convencê-la de que naquela experiência está implícito algum grau de cumplicidade de sua parte.
Portanto, ao garantirmos para a criança que não há nada de natural ou de ingênuo numa aproximação íntima entre ela e um adulto, e que, caso isso ocorra, sempre será por responsabilidade deste último – ensinaremos que este crime deverá ser denunciado, independente das ameaças que eventualmente o abusador fizer. Aliás, esta é a prática mais comum entre os pedófilos: ameaçar covardemente a vida da própria criança ou de seus familiares mais queridos.
Não resta qualquer dúvida de que os maiores aliados do abusador infantil são o silêncio e a desinformação.
Então, que tal conversarmos claramente sobre isto com nossas crianças?
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