AMIGA DA ONÇA. QUEM NÃO TEVE OU TEM?

Imagem Movimento Amigo da Onça

Meu coração é deserto
Em busca de encontrar,
Amigo, amiga ou um rio
Ou quem sabe um braço de mar
.”

In: Amigo, Amiga de Milton Nascimento

Quem nunca teve – ou ainda tem – uma ou várias amigas da onça? Amigos da onça também contam, naturalmente. Aliás, tudo conta. Até aquela sua conhecida simpática que sorri candidamente enquanto lhe confidencia coisas terríveis sobre uma ‘amiga’ comum que finge adorar.

O personagem Amigo da Onça foi criado pelo cartunista pernambucano Péricles Maranhão para a Revista Cruzeiro, em 1943. O desenho – sucesso nacional por mais de 17 anos, até a morte do seu criador – representava uma figura malandra, irônica e com uma certa dose de deboche e de crítica aos costumes, que aparecia em situações onde seus interlocutores sempre acabavam desmascarados em situações vexatórias.

Amigo da Onça foi um termo popularizado aqui no Brasil. Logo, trata-se de um legítimo patrimônio brasileiro.   

O lado trágico do personagem que inspirou a expressão, ainda hoje tão popular, envolveu a morte do seu autor, no dia 31 de dezembro de 1961, quando este se suicidou no Rio de Janeiro, abrindo o gás de seu apartamento – não sem antes deixar um aviso aos incautos que ali resolvessem adentrar: “Não Risquem Fósforos”.

Bem diferente do que um amigo da onça escolheria fazer, diga-se de passagem. 

O fato é que fui uma legítima e involuntária colecionadora de amigas da onça durante grande parte da minha vida. E é bastante possível que ainda reste alguma perdida por aí, porque estas criaturas costumam se disfarçar feito camaleões enquanto zanzam pelas existências alheias.

As que conheci, eu sinceramente considerava amigas genuínas. E todas encontravam-se entre as pessoas que concebia como insuspeitas e para quem confiava minhas descobertas, meus medos, dores e amores.

Justamente por conta disto, foi doloroso reconhecer que este sentimento era uma solitária via de mão única na qual eu havia deixado passar diversos e impressionantes sinais da falsa amizade.

Aquela que eu considerava minha melhor amiga de infância, por exemplo, de quem fui madrinha de casamento e a quem socorri inúmeras vezes no decorrer da nossa amizade, logo depois da minha separação, me confidenciou que teria que se afastar de mim e da minha família porque o ciumento marido não apreciava que ela mantivesse amizade com ‘divorciadas’.

Aquilo para mim, evidentemente, foi algo muito doído de elaborar. Uma amizade de mais de 30 anos ser desconsiderada desta forma, era muito triste e penoso de aceitar. Ainda que depois ela me procurasse, talvez para se desculpar, nunca mais a atendi.

Foi uma das minhas primeiras decepções com o gênero amiga das onça.

Na época da faculdade uma delas, ciente do encantamento que eu tinha por um colega de classe, foi a primeira a noticiar que ele estava namorando uma mulher mais madura – e muito mais interessante – que eu. Ainda que fingisse uma comoção quase insuspeita, ali estava ela, minha amiga da onça, dando a notícia em primeira mão e partindo meu coração em minúsculos estilhaços.

Muito tempo depois, já no final do curso, soube que não era uma ‘namorada’, mas a amiga da família de quem ele se aproximara, mas o estrago já havia sido feito.

Hoje consigo até imaginar o sorriso maldoso na expressão da minha tão confiável ‘amiga’.

Ou da vez em que, enquanto tomávamos sol no conjunto esportivo da universidade, ao perceber um cara me observando com algum interesse, ela disparou ‘discretamente’ que nunca tinha reparado na ‘profusão’ das minhas celulites.

Outra adorava achar defeitos onde, honestamente, hoje eu duvido que existissem. Falhas no meu couro cabeludo, postura errada que percebia destacada enquanto me observar andar, equívocos nos seminários que eu apresentava e para os quais loucamente me preparava.

Acabava por me sentir incapaz e – o que é pior – desestimulada.

Sempre acreditava que estes toques eram para o ‘meu bem’, já que uma amiga fiel – como eu sabia ser – jamais faria qualquer coisa para ferir alguém tão próxima.

Houve situações até risíveis, ainda que esdrúxulas. Como a que passei numa caminhada em grupo, de mais de três horas, com uma casca de feijão grudada em um dos meus incisivos, dando-me aquela ridícula aparência desdentada – apesar de estar acompanhada da infalível amiga da onça que percebera meu revés desde o início e manteve-se em total silêncio.

Certa feita consegui que outra ‘amiga’ fizesse um tratamento dentário (gratuito, é claro) com meu namorado. No dia seguinte à sua primeira sessão ela me ligou para contar que ouvira comentários de jovens e belas pacientes, na sala de espera, sobre paqueras com meu parceiro, lindo e recém-formado.

Quando anos depois, apresentei-lhe o cara com quem ela ficaria por quase 20 anos – e ela teve coragem de confessar sentir que ele teria algum interesse em mim – nem assim eu me dei conta da sua deslealdade.

Óbvio que havia uma assimetria impressionante no quanto eu, de fato, apreciava ajudar e socorrer estas (mui) amigas e no quanto delas recebi auxílios verdadeiros.

Quando, por exemplo, me separei do pai dos meus filhos, uma delas correu para apresentar-me amigos do marido sem me consultar – e sem que eu me desse conta do motivo.

Era ela me convidar para um jantar, que lá estava um primo psiquiatra (totalmente maluco) ou um melhor amigo sem graça, também recém separado. Até que tomei coragem e anunciei que não estava interessada em relacionamentos amorosos e ela nunca mais me convidou para coisa alguma.

Foi quando entendi que, de alguma forma, ela deduzira que eu seria uma espécie de ameaça para seu farsesco casamento.

Foram incontáveis as vezes nas quais socorri amigas de várias maneiras: pagando consultas médicas quando necessitavam, ouvindo seus inúmeros problemas com companheiros cínicos ou adúlteros, pensando em soluções, e tudo o que era possível imaginar.

Sempre fui uma amiga muito bacana, e disto tenho a mais absoluta certeza. Sei ouvir, acolher e ser prestativa, seja a hora que for. Mas meu problema foi saber não dar limites; projetar meus sentimentos nos seres dos quais sinceramente gostava.

Este espécime a gente não se encontra apenas entre conhecidos, mas dentro da família também.

Na minha, deparei-me com várias. Como a prima (muito) mais velha que resolveu dar em cima do homem do qual acabara de me separar e cujo desfecho ela ‘desinteressadamente’ acompanhara.

Ou aquela parente que inventava um monte de coisas que teria presenciado, ouvido ou visto. Jurava de pés juntos que alguém falara algo envolvendo meu nome, o da minha mãe, do meu pai ou de alguém que eu queria bem. Foi duro descobrir em quantas fofocas ingenuamente cai.

Enquanto era mais jovem, estas coisas me desolavam de tal forma que chegava a desacreditar na possibilidade de amizades verdadeiras. Conforme fui amadurecendo, no entanto, tais experiências me ensinaram que confiança é mesmo um bem valiosíssimo que devemos utilizar com cautela e parcimônia, a fim de não sermos surpreendidas.

Então, compreendi que encontraremos estes tipos em todos os cantos da vida.

E o que posso dizer sobre estas pessoas?

Ignore-as e siga adiante. Não perca seu tempo confrontando-as ou explicando sobre como você se sente. Muito menos reclame do quanto foram desonestas, porque elas não irão se importar com você.

Não valem o esforço desta inútil conversa, creia.

Portanto, proponho que você simplesmente saia andando sem olhar para trás. Como eu fiz e ainda faço. Remova todas as conexões com elas. Bloqueie-as em todos os acessos possíveis, se for o caso, não apenas para proteger sua integridade, mas para que finalmente entendam sua mensagem.

Muitas vezes, o silêncio fala mais alto do que qualquer palavra.

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