ENCARANDO OS MEDOS

Imagem Movimento Medos

“Medo, medo, medo, medo, medo, medo…
Cada um guarda mais o seu segredo,
A sua mão fechada, a sua boca aberta,
O seu peito deserto, a sua mão parada,
Lacrada, selada, molhada de medo.”

In: Hora do Almoço – de Belchior

Você sente algum tipo de medo? Ou vários, quem sabe? Pois eu vou confessar que sinto. E também sinto que vivemos, a todo momento, como se estivéssemos a um passo de uma crise de ansiedade.

De acordo com o mais recente relatório divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil é o país do mundo com a maior taxa de pessoas com transtornos de ansiedade (18,6 milhões de brasileiros têm este diagnóstico) e o quinto em casos de depressão, sendo a maior prevalência da América Latina.

Nos últimos anos temos nos tornado cada vez mais ansiosos – sobre conseguir um emprego ou não, ter dinheiro ou cair na miséria, ter amigos ou nos mantermos isolados, viver ou morrer e sobre tudo mais.

Quer dizer: o medo da morte, medo da vida, medo da solidão, medo da escuridão, medo de não ser ninguém, medo de não alcançar algum sucesso, medo de não ter talento para coisa nenhuma, medo de muitas coisas diferentes.

Diante disto, é possível que existam muitas pessoas levando uma vida extremamente superficial, falando eternamente sobre coisas que não importam para, assim, nunca estarem conscientes de si mesmas e das próprias inseguranças. 

Se você busca se entender de uma forma mais profunda, saberia dizer em que nível é capaz de se tornar consciente dos seus temores? Trata-se de uma consciência intelectual deles ou você está realmente ciente nos seus níveis mais profundos? E se eles estão escondidos, como espera que eles lhes sejam expostos? Você precisa ir a um analista ou o analista é você mesmo?

Uma coisa que aprendi é que o medo é como o tronco de uma grande árvore que, quando a gente consegue desvendar, faz os galhos murcharem. Se conseguimos entender a raiz dele, então seus ramos – ou seus vários aspectos – podem arrefecer. 

Então, qual é a raiz? Você já tentou olhar para as suas mais profundas apreensões de verdade?  Por favor, tente olhar para elas agora. Convide-as para aproximarem-se de você. 

Naturalmente, é bem possível que você não esteja com medo agora, sentada/o aí diante do seu celular ou computador. Então, pode pensar um pouco sobre elas?

É quase certo que sejam muitas. Se sentir só, não ser amada/o, não ser bonita/o, perder o emprego, isso ou aquilo. Olhando para um medo, para o seu medo particular, você pode então ver sua raiz; não apenas a raiz de algo específico, mas a raiz do todo

E através dele, observando-o no sentido de ‘o observador ser o observado’, você verá por si mesma/o que através de uma ansiedade você pode descobrir a raiz de todas ansiedades.

Ao olhar para um temor, você descobre a natureza de todos.

Suponha que tema a solidão. Você já se defrontou com a solidão ou ela é apenas uma ideia do que você teme experimentar? Não o fato da solidão, mas a ideia de solidão, entende?

É a ideia ou a realidade que assusta você? Eu tenho uma ideia de solidão e a ideia é a racionalização do pensamento que me diz: ‘Não sei o que é, mas tenho medo’. Ou, pelo contrário, você sabe o que é a solidão, o que não é uma ideia, mas uma realidade

‘Eu sei disso quando estou entre muitas pessoas e de repente sinto que não estou relacionado a nada, que estou absolutamente dissociado, perdido e que não posso confiar em ninguém. Todas as minhas amarras foram cortadas e sinto-me tremendamente solitário, assustado.’

Existe um sentimento de viver num tremendo isolamento, tão vasto quanto duro, e que parece não poder ser penetrado, o que, naturalmente, traz grande apreensão. 

Isso é uma realidade. Mas a ideia sobre isso não é uma realidade. O que a maioria de nós tem é apenas uma ideia sobre o medo.

Confesso que, em minha vida diária, minhas atividades, pensamentos, desejos, prazeres e experiências são cada vez mais isolados. Eu observo claramente isso. E percebo esta sensação em meus movimentos e atividades diárias. E na observação dessa solidão, o observador faz parte dela, não tenho a menor dúvida.

Ainda que você tente escapar, encobrir, racionalizar, você se depara com isso. Você é isso. Agora você pode observar seu medo e através dele chegar à sua raiz. Isto é, através dessa sensação de solidão, você encontra a fonte do seu medo.

Mas, para alcançá-la, para apreender este nível de consciência, é preciso estar paradoxalmente realmente livre do medo. O medo é a essência do animal. Agora, para compreendê-lo é preciso entrar diretamente em contato com ele.

Pois só então você descobrirá que, mais hora menos hora, todo medo cessa. Porque acima da compreensão e do aprendizado sobre ele, vem a inteligência. E a inteligência é a essência da liberdade. 

Finalmente, a exposição ao que produz medo é particularmente útil no nível emocional. Acontece que muitos (talvez todos) problemas de ansiedade são, em sua essência, um “medo do medo“. A maioria das pessoas que temem multidões, elevadores ou aviões sabem, num nível muito racional, que esses objetos não são perigosos, uma vez que não ficam aterrorizados quando seus pais ou seus filhos frequentam shows lotados, usam elevadores ou avião. O que eles temem, no fundo, são as sensações do próprio medo. 

Pessoas sem transtornos de ansiedade lidam com sentimentos periódicos de medo e pânico com mais tranquilidade que as demais. No entanto, aquelas que lidam com ansiedade ou pânico evitando o que temem têm um risco muito maior de desenvolver um distúrbio de ansiedade. 

Evitar o objeto do medo realmente aumenta o medo do objeto. 

Isso pode ser um problema quando o medo impede que alguém aproveite sua vida ou promova seus potenciais. O sujeito com medo de viajar de avião, por exemplo, pode deixar de visitar amigos queridos porque estão em cidades distantes ou de seguir a carreira almejada porque envolve viagens aéreas.

Logo, a exposição às sensações de medo pode permitir que a gente se habitue com esses receios, ao mesmo tempo em que melhore nosso desenvolvimento emocional.

Morar na prisão representada pela eterna evitação do que nos aterroriza deve ser terrível. Ainda que o exercício de exposição não seja tarefa fácil, é a maneira mais saudável de encontrar uma vida livre deste tipo de ansiedade debilitante.

E, se desejar, envie seus comentários para: psicologaheloisalima@gmail.com

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