VOCÊ ESCOLHE OU ESCOLHEM POR VOCÊ?

“É o fim da picada,
Depois da estrada começa
Uma grande avenida.
No fim da avenida
Existe uma chance, uma sorte,
Uma nova saída.
São coisas da vida
E a gente se olha, e não sabe
Se vai ou se fica.”

In: Coisas da Vida – de Rita Lee

São inúmeros os fatores, os preconceitos e as influências que podem afetar as escolhas que fazemos sem que percebamos seus efeitos sobre nós. As influências sociais, por exemplo, são capazes de nos levar a uma espécie de comportamento de rebanho que nos induz a reproduzir a mesma escolha dos nossos pares a fim de que nos sintamos encaixadas/os em um grupo.

No fim, tudo isto serve para revelar quanto medo, carência e insegurança permeiam nossas existências. Assim, cabe perguntar quantos de nós repetimos comportamentos degradantes e atrozes apenas para agradar os outros? Em outras palavras: apenas para obter uma mísera gota de atenção que, naquela altura, poder ser a derradeira chance de sentirem-se objeto de algum amor?

A questão de como fazemos escolhas e tomamos decisões está longe de ser nova. Afinal, muitas razões delimitam nossa tomada de decisão, intencionalmente ou passivamente. A teoria da escolha continua sendo um tópico ativo de pesquisa em vários campos.

Mecanismos inconscientes controlam a maior parte dos nossos comportamentos, nossas escolhas, nossas emoções e nossas decisões, como têm demonstrado inúmeras experiências na área psi. Nossas escolhas podem ser livres, mas jamais estarão livres de influências. A consciência é apenas a ponta do iceberg de processos cognitivos.

O melhor papel do nosso inconsciente – caso o levássemos realmente a sério – seria fazer-nos viver com o melhor de nossas habilidades, ou seja, baseados/as no que aprendemos através das experiências de vida, afastando-nos de tudo aquilo que, no fundo, sabemos ser ruim.

E este é o seu aspecto mais benevolente, ao contrário do que suspeitam as crenças mais arcaicas.

Entretanto, algumas pessoas têm medo do seu inconsciente e negam esta parte importante do psiquismo, o que agrava as dificuldades. As causas destes receios são variadas e podemos considerá-las enquanto medo do desconhecido – ainda que este repouse na imagem refletida em nosso espelho.

Se não formos portadores de distúrbios mentais, transtornos de personalidade, algum tipo de psicose ou, pior, de psicopatia, nossas intenções inconscientes tenderão sempre a serem cuidadosas com a nossa existência.

Porque o inconsciente é um reservatório inesgotável de sabedoria e autoconhecimento – isto se prestarmos a devida atenção a diversas

A forma mais danosa com a qual nosso inconsciente se expressa é repetindo tudo aquilo que apreendemos a partir do nosso surgimento no mundo. Quando passamos a reeditar atitudes, pensamentos, concepções, gostos, preferências ‘pessoais’, orientações políticas, opiniões, etc.

Feito uma pulsão – como Freud nomeou o impulso gerado por uma energia interna em direção a um determinado comportamento – a repetição é basicamente uma força extraordinária da qual não conseguiremos fugir enquanto não for devidamente compreendida.

O inconsciente é, então, uma energia excepcional que nos arremessa no sentido das escolhas que fazemos em nossas vidas, desde os amigos, passando por nossa profissão, chegando até na pessoa que elegeremos como nossa parceira de vida. Tantas vezes quantas forem as tentativas.

A questão crucial reside justamente no fato de que tais escolhas são decididas a partir de processos que desconhecemos, muito embora busquemos acreditar que sejam exclusivas e racionais e que partam de conclusões individuais.

Tais ‘inclinações’ possuem esta marcante característica: baseiam-se nas impressões inconscientemente registradas e que nos impulsionam a copiar gestos, modos, gostos, práticas e pontos de vistas que não são absolutamente genuínos ou pessoais.

Logo, podemos afirmar que o inconsciente tem o poder de nos levar a repetir incessantemente modelos que juramos ser nossos, como a maneira de nos vestirmos, o jeito de nos comportarmos, como nos vinculamos amorosamente, com quem escolhemos conviver, as opiniões que defenderemos com unhas e dentes até eventualmente nos darmos conta de que as unhas e os dentes nem sequer eram da gente.

Então, como um rio desenfreado que não conseguimos dominar, nossas compulsões muitas vezes deságuam num lugar que nem sequer imaginamos existir. Por isto, tantas vezes, os filhos reeditam os mesmos medos e infortúnios nos quais viram papai e mamãe mergulhados por anos a fio.

Sem se darem conta, filhas escolhem companheiros muito parecidos com suas figuras paternas internalizadas. E, nelas, tentam remendar o que viram de errado. Com os filhos, ocorre exatamente o mesmo.

Conheci um homem que casou com uma mulher que parecia ser o oposto de tudo aquilo que temia e reconhecia em sua própria mãe – que se transformou em sua dependente desde a morte do pai, tendo ele se sentido obrigado a cuidar dela, além de assumir todos as obrigações e despesas da casa . Desta forma, aos 36 anos de idade, quando conheceu uma moça livre, independente, que morava sozinha desde os vinte anos, cuidando de suas coisas e de seus projetos, não titubeou e, desta forma, casaram-se quatro meses depois, mesmo contra a vontade da genitora que reclamava do “excesso de independência” da futura nora.

Pouco tempo se passou para que Marcos percebesse que por trás daquela fachada de pura autonomia e de uma ousadia, por vezes, até agressiva, existia uma mulher insegura e carente que exagerava na aparência emancipada justamente para negar a referência herdada de uma mãe também dependente que buscava desesperadamente contestar.

Com o tempo – pouco tempo, por sinal – ela começou a revelar suas inseguranças e mazelas como Marcos jamais suspeitara. Não suportava ficar sozinha, queria os dois fizessem tudo junto e quando resolveu ter um filho, entregou-o para o pai cuidar pois não dava conta nem de si mesma.

Logo, aquelas duas pessoas se transformaram em múltiplas e estranhas personalidades que agora tentavam reencontrar o caminho de volta pra casa.

De um lado, a mulher que tentava escapar do modelo feminino de dependência e submissão atrelado ao padrão masculino e machista envergado pelo próprio pai. De outro lado, o homem que tentava se esquivar de mulheres dependentes que procuravam homens que cuidassem delas.

Deu tudo errado, como é fácil ver. A cegueira diante da percepção dos papéis desempenhados pelos nosso pais, nos impele inevitavelmente a repetir o que mais tememos.

Porque o inconsciente é mesmo muito esperto. Copiamos mesmo quando temos certeza de que estamos desconstruindo padrões e fazendo tudo ao contrário.

Muitos de nós reprisamos nossos parâmetros porque neles nos sentimos seguros e também porque esperamos garantir o amor parental que julgamos insubstituível. Muitos de nós os repetimos ainda que buscando a (aparente) oposição – e mesmo quando pressentimos que ela encobre a existência daquilo que desejamos negar.

De uma forma ou de outra, penso que tais identificações podem produzir coisas muito boas e produtivas em nossas vidas se fizermos um sincero exercício de observação crítica, mesmo que sem os julgamentos que tanto tememos.

Olhar com honestidade para a experiência que nos forjou enquanto seres humanos podem trazer luz a todos os nossos verdadeiros temores e desacertos nos dando condições para experimentar novas possibilidades além de magníficos voos independentes, ainda que solitários.

Se desejar, envie seus comentários para psicologaheloisalima@gmail.com

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