FELICIDADE VIRTUAL? FALA SÉRIO!

Imagem Movimento Felicidade Virtual 3

“Tristeza não tem fim,
Felicidade sim.

A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar.
Voa tão leve,
Mas tem a vida breve,
Precisa que haja vento sem parar.”

In: A Felicidade – Vinícius e Tom

O aumento da exposição pessoal através das mídias sociais, invariavelmente traz a incômoda questão: até que ponto as informações ali são verdadeiras? Quão honesta é a pessoa que publica uma informação ou uma foto numa rede social?

O fato é que as pessoas mentem sobre suas vidas num esforço de se tornarem mais admiráveis.

Uma recente pesquisa sugere que cerca de 84% dos usuários retratam relacionamentos estratosfericamente mais felizes do que realmente são; quase 100% melhoram seus perfis com ocultação de fatos ou com supervalorização de dados; praticamente nada que ali é registrado pode ser considerado uma representação realista da vida de quem publica; a acachapante maioria das pessoas perde mais tempo procurando uma pose para sua self do que aproveitando a experiência em si.

Isto sem mencionar todos aqueles registros incríveis de paisagens surreais, de abraços e sorrisos em profusão, de almoços em família acompanhados de hashtags entusiasmadas, dando conta de uma vida sem conflitos e maravilhosa, além dos milhares de filtros capazes de esconder não só olheiras e celulites, mas, principalmente, dores, angústias e corações partidos.

Você já pensou no quanto uma noite solitária, depois de uma drástica ruptura amorosa, pode se transformar em uma imagem capaz de remeter a uma noite incrivelmente feliz? Ou como a notícia da perda do emprego pode ser repercutida como uma nota feliz?

Praticamente um borrado retrato tragicômico das contradições entre a vida real e a virtual.

O campo virtual está longe de ser um simples jogo porque é mesmo muito sério. Torna-se uma espécie de simulação que oferece a falsa crença de que é possível manter uma ‘vida inventada’. Temos ali a ilusão de que podemos dissolver o espaço e o tempo para satisfazer nossos sonhos – ou delírios.

O fato sistematicamente reiterado de que redes sociais podem produzir depressões graves em todo e qualquer ser – justamente porque as vidas dos outros sempre aparentam ser melhores que as nossas – parece não convencer nenhum de nós.

Afinal de contas, depois de tantos anos, já deveríamos ter compreendido que compartilhar sorrisos não nos deixará mais felizes, assim como imagens de beijos e abraços não nos deixarão menos carentes ou confusos – como nos sentimos na maior parte do tempo.

Por conta disto, começo a pensar que no lugar de compartilharmos fotos de ocasiões aparentemente ‘memoráveis’ a gente bem que podia manter aquela imagem – ainda que ocasionalmente – para nós mesmos.

Quando observarmos uma paisagem de tirar o fôlego ao mesmo tempo em que decidimos se preenchemos nosso coração com aquela sensação deliciosa ou procuramos o celular a fim de registrarmos a imagem seria importante compreender que esta decisão pode nos auxiliar na direção à autenticidade

Talvez a gente só precise recuperar a serenidade da felicidade discreta, resguardada e não exibida. Sabe por quê?

Porque não há a menor dúvida de que a uma das melhores coisas que podemos fazer é entender a felicidade, assim como outras emoções, não como algo que você obtém, mas algo que você habita.

Da mesma forma que quando você está furioso(a), e joga um sapato na cabeça de alguém, não está consciente de seu estado de raiva. Não está pensando: “Estou com raiva. O que estou fazendo não é certo.

Não. Porque, de alguma forma, você está ‘fora de si’. 

Você habita e vive a raiva. Você é a raiva. Até que ela se vá.

Assim como um homem confiante não se pergunta se está confiante ou uma mulher segura não se pergunta se está segura. Eles simplesmente estão.

E isto nos ensina que o encontro com a felicidade não é algo em si, mas uma espécie de efeito colateral da reunião de uma série de experiências de vida que estão em curso. E isto nos confunde, especialmente porque a felicidade é vendida de maneira exagerada (e enganosa) como um objetivo em si. 

Use esta roupa e será feliz! Compre este carro e será feliz! Case-se e será feliz!

Mas não nos é dado comprar felicidade e, pensando bem, nem mesmo alcançá-la. E é assim que devíamos olhar para muitos aspectos de nossa vida.

Você já experimentou pensar que felicidade não é o mesmo que prazer?

Acredito que na procura da felicidade, as pessoas esquecem que, no fundo, estão buscando prazer: uma boa amizade, uma comida gostosa, um sexo retumbante; desfrutar das melhores companhias, assistir bons filmes, ter mais tempo para ficar quieto, fazer uma viagem legal, perder cinco quilos, se tornar mais bonito ou popular e assim por diante.

Ainda que o prazer pareça ótimo ele não é, necessariamente, sinônimo de felicidade. 

O prazer pode estar correlacionado com a felicidade, mas não é responsável por ela.

Pergunte a um alcoólatra se ter prazer com a bebida o fez feliz ou se um obeso mórbido comendo quatro hambúrgueres de uma só vez sentiu a plenitude da felicidade.

O prazer é um deus falso. 

Porque, decididamente, quem concentra suas energias nos prazeres instantâneos e passageiros acaba se tornando mais emocionalmente instável, ansioso e muito menos feliz a longo prazo. Porque o prazer em si, aquele mais fácil e efêmero, representa uma satisfação muito superficial.

Este prazer é de algum modo aquilo que nos distrai; que nos retira superficialmente da dor e do sofrimento. É uma ilusão. É o que nos é vendido como real e que repercutimos como ‘nossa realidade feliz’ que nos embota. E só.

Afinal, embora necessário, o prazer não é suficiente. Por detrás desta alquimia existe algo muito maior na vida que nos é dado viver.

E não estou aqui defendendo que encontrar felicidade nas coisas da vida significa diminuir as expectativas diante dela. Nada disso.

Porque o medo das ‘expectativas mais baixas’ é vítima da mesma mentalidade que acredita que a felicidade é derivada do que temos exclusivamente fora da gente.

Afinal, a máxima alegria não pode residir no fato de ganharmos muitos cifrões por mês porque isto vai significar que, nos outros meses, nos obrigaremos a lutar para aumentar nosso ganho financeiro. Independente do que conseguirmos construir de significativo e verdadeiro.

Portanto, que tal baixar suas expectativas? Alongar seu processo interno e ir mais longe? Não olhe para aquilo que não construiu ou para o que ainda deseja alcançar.

Sim. Imagine sucessos impossíveis e, a seguir, saboreie o inevitável fracasso. Dialogue com ele. Aprenda com isto. Deixe que tudo desmorone. Depois, com calma, recolha todas as pedras e refaça sua casa.

Está tudo bem, acredite. E vai dar tudo certo.

Você pode ser infeliz; você pode sofrer. Porque é através destas vivências que você forjará o novo. Dentro e fora de si.

E, se desejar, envie seus comentários para: psicologaheloisalima@gmail.com

4 pensamentos sobre “FELICIDADE VIRTUAL? FALA SÉRIO!

  1. Na vida real, é exatamente isso que se vê. Se escondem atrás de um perfil aparentemente feliz, mas na maioria das vezes, são pessoas frustradas e sem perspectivas de serem felizes!

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