DO QUE VOCÊ TEM MEDO?

“Cada um guarda mais o seu segredo,
A sua mão fechada,
A sua boca aberta,
O seu peito deserto,
A sua mão parada, lacrada
E selada,
E molhada de medo.
Medo, medo, medo…”

In: Na Hora do Almoço – de Belchior

Todos nós, de alguma forma, vivemos em uma espécie de negação constante. Parte de ser humano e de viver em uma sociedade com outros humanos, é encontrar maneiras inteligentes de expressar – ou esconder – os sentimentos.

O pior aspecto é que – da linguagem diplomática mais sofisticada à mentira mais deslavada – os humanos sempre encontram formas de enganar uns aos outros.

Porém, é importante manter em vista que decepções não são necessariamente ruins; em algum nível elas são vitais para se criar uma vivência comum.

Ainda que, na prática da civilidade social, você fique em silêncio sobre coisas que claramente entende, mas que acredita que não deva expor. 

Justamente por isto é que há tempos venho tentando escrever sobre um dos fenômenos mais intrigantes que percebo inserido nas relações humanas: a capacidade que algumas pessoas possuem de negar a realidade, por mais que ela se declare e se escancare frente a elas.

Nosso planeta tem vivido uma catástrofe ímpar envolvendo saúde pública e contrastes sociais crescentes.

A ganância, a irresponsabilidade, a absoluta ausência de humanidade, bondade ou empatia de alguns seres nada humanos, rendem tragédias, além de devastar milhões de vidas.

O mais perturbador nisto tudo é prever que, em pouquíssimo tempo, o desterro que tanto nos impacta neste momento, será colocado dentro de uma caixinha tão logo algo maior se anuncie.

Isto para mencionar somente algo pinçado da minha memória e sem qualquer critério ‘científico’, devo esclarecer.

Ainda que os demais exemplos sejam desconcertantes, o que gostaria de registrar é meu total assombro diante da forma como estas experiências dantescas são absorvidas pelo nosso psiquismo, enquanto outras se aproximam como se fossem propositalmente aceleradas a fim de não haver tempo para pensar, digerir e compreender a dimensão ou o significado do que se passou.

Uma amiga recentemente comentou que se sentia presa dentro de um pesadelo horrível, com acontecimentos se atropelando em um ritmo tão avassalador, que não sentia a menor condição de enxergar, de fato, o que estava acontecendo no mundo e na sua vida.

Por vezes parece melhor parar e não fazer nada. Outras vezes, desejamos ficar bem longe da fonte da angústia e olhar para o lado oposto.

No entanto, como simpáticos avestruzes, a maioria das criaturas prefere afundar a cabeça na terra enquanto reza, desesperadamente, para que aquilo passe.

Você não faz ideia de quantas vítimas de abusos, das mais diferentes categorias, passam a vida negando e tentando explicar a própria dor até que tenham coragem suficiente para denunciar seus algozes.

Aliás, psicopatas vivem disto: da certeza de que a dor que provocaram é tamanha que suas presas levarão muito tempo para reunir força para se levantarem. E muitas, infelizmente, jamais o farão.

A negação pode ser considerada um instinto humano natural a serviço de lidar com o estresse, a dor, as emoções, o medo, a ansiedade e a tristeza. Ainda que seja uma intuição, nem sempre será desejável nos deixarmos ser comandados por ela. Em algum momento teremos que decidir se esses instintos inatos de sobrevivência realmente nos servem.

A negação, então, é um adversário muito poderoso, infiltrando-se em nossos pensamentos como um radar.

É da natureza humana lutar contra esta sensação durante circunstâncias difíceis ou estressantes, ainda que ela seja uma ferramenta que nosso cérebro usa para desviar de verdades inevitáveis ​​- e quase sempre, especialmente em cenários de sobrevivência, de vida ou morte, essas verdades chegarão, quer as neguemos ou não.

Sem dúvida, enfrentar fatos incômodos é profundamente doloroso. Pode ser embaraçoso e é, muitas vezes, um golpe para o ego. Contudo, salvar a aparência nunca deve ser mais importante do que salvar a vida que realmente se deseja.

Se você se perguntasse: como me sentirei se um dia, enquanto durmo, minha casa for invadida por lama altamente contaminada e toda a minha família morrer? Estaria preparada(o) para isto? Teria uma caixa de primeiros socorros para impedir a dor e o desterro que muito provavelmente vivenciaria?

Honestamente, creio que você irá argumentar que isto jamais acontecerá com você. Então, por que cargas d’água precisaria se preocupar com esta improvável possibilidade?

Pense no Tsunamis na Ásia, os desastres em Mariana, Tiradentes e Capitólio, em Minas Gerais, as enchentes na Europa, os incêndios nos EUA, os vulcões, quantas coisas, não?

E eu lhe responderei que esse é apenas um exemplo simples de como a negação pode colocar as pessoas em arriscadas sinucas. 

Porque você está rejeitando a possibilidade de que um desastre repentino e inesperado pode atingir sua existência a qualquer momento, sem aviso prévio. Isto acontece com pessoas de todo o mundo, o tempo todo. Ninguém está isento. Ou à salvo. O senso comum (e as evidências estatísticas) diz que é mais provável do que muitos imaginam.

Logo, especialmente em um cenário de sobrevivência com risco de vida, você tem que negar a negação. E isto nunca é fácil, bem sei. Mas é imprescindível.

A causa da nossa negação é tipicamente muito óbvia. Reconhecê-la e suspendê-la antes que seja tarde demais é a parte complicada.

Agora, você precisa aprender que identificar a negação exige que prestemos muita atenção a nós mesmos. E nós adoramos analisar e criticar os outros quando raramente olhamos no espelho. 

A melhor maneira de evitar a negação é confrontar verdades sombrias e estressantes o mais rápido possível. Torne-se responsável de suas próprias decisões – boas ou ruins. Ignorar ou adiar más notícias só piora as consequências. 

Se você acredita tanto em alguém que muitos dizem não ser confiável; se uma teoria é defendida por você como verídica, mas você percebe falhas e distorções; se algo é perigoso para muitos ainda que poucos afirmem que não oferece ameaça; se você começa a perceber que repete as mesmas coisas já sem nenhuma convicção; se o senso comum não explica as contradições contidas em certas afirmações suas; se as dúvidas provocadas em você lhe trazem medo; se as velhas teorias lhe afasta de pessoas legais – então, está na hora de duvidar de suas alegações e certezas.

Só assim é possível encontrar a saída mais viável.

Pratique isto reconhecendo e confrontando a negação agora, para que ela não pegue você de surpresa quando a sobrevivência estiver em risco.

É importante entender que enquanto muitas pessoas se recusarem a aceitar ou acreditar em dados reais, informações comprovadas, mesmo que seja concedendo uma pequena dúvida, simplesmente porque isso interfere em convicções que nem sempre são suas, estaremos todos em sérios apuros.

E, se desejar, envie seus comentários para psicologaheloisalima@gmail.com

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