AMAR NÃO É INEVITÁVEL. ENVELHECER É.

“Eu gosto de você
E gosto de ficar com você.
Meu riso é tão feliz contigo,
O meu melhor amigo é o meu amor.
E a gente canta,
A gente dança,
A gente não se cansa
De ser criança.
A gente brinca
Na nossa velha infância.
 
In: Velha Infância – de Arnaldo Antunes

A maioria das pessoas se sente mais jovem ou mais velha do que realmente é – e esta ‘idade subjetiva’ tem um grande efeito na saúde física e mental de cada um de nós.

Senão, vejamos. Imagine que você não tenha certidão de nascimento e que sua idade será baseada em como se sente neste momento. Quantos anos você diria que tem?

Um dado inegável é que um bom número de anos se passou desde que você chegou ao mundo. Mas a experiência cotidiana sugere que muitas vezes não experimentamos o envelhecimento da mesma maneira que as outras pessoas. E isto é fato.

Minha mãe sempre foi um exemplo extraordinário neste sentido. Começando por nunca ter se preocupado em ser considerada a ‘ovelha negra’ de uma família extremamente conservadora e retrógada. Ela era exuberante quando queria, linda e solta toda vez que decidia e profundamente livre. Magnífica. E nunca aparentou a idade que tinha, para inveja das ‘amigas’, irmãs, primas e sobrinhas.

Afinal, não seria ótimo se todos pudéssemos viver com alegria e autenticidade para além da meia-idade? Logo, imagino que deva ser horrível sobreviver desafiando o tempo de maneira insana e tirânica.

Você concorda com isto?

Calcule o martírio que deve ser olhar para o espelho todos os dias com tristeza, vergonha, raiva e sei lá mais o que. Alguém que não aceita o que vê. Difícil, não é mesmo?

Mas o que me trouxe a este texto não foi exatamente isto que até aqui descrevi. Desejava falar sobre a importância de envelhecermos não apenas com qualidade, mas, acima de tudo, muito bem acompanhados(as).

O que acontecerá mais tarde em nossas vidas?

Poderemos estar sozinhos. Porém, estar sozinho pode ser o resultado de um estado emocional que nos impele ao sentimento de isolamento, desamparo, solidão e de ânsia desesperada por companhia.

Sabemos que muitas pessoas ficam sozinhas também porque enviúvam, se divorciam ou nunca encontraram o par desejado. Há ainda aquelas que, com mais de 50 ou 60 anos de idade, vivem diferentes formas de relacionamentos envolvendo casamento, união civil ou estável ou optando por cada um viver na própria casa, dentre outras.

Mas me deixa esclarecer uma coisa: se você tem 35 ou 80 anos, saiba que nunca será tarde demais para se apaixonar serena ou loucamente.

Conheci várias mulheres que encontraram o amor nesta fase da vida – e quando/aonde menos esperavam.

A primeira que me veio à lembrança foi a mãe de uma amiga, que conheceu seu grande amor aos 72 anos, depois de ficar viúva e jurar solenemente que nunca mais iria querer um homem na sua vida. Num clube, aprendendo a dançar, ele, 10 anos mais jovem, simplesmente se apaixonou por aquela figura bonita e cheia de alegria. Bastou um oi para se tornarem inseparáveis.

O fato é que muitos homens e mulheres, com o tempo, tornam-se extremamente bons no quesito viverem sozinhos. Sentem-se agradecidos pelos filhos criados, pelos lindos netos, por terem boa saúde e uma vida afortunada.

Ainda que, por vezes, e sorrateiramente, anseiem por um(a) parceiro(a) para conversar, para se aconchegar e acarinhar. E este(a), veja bem, pode não ser aquele(a) com o(a) qual ainda estejam casados(as).

Algumas mulheres afirmam que, depois dos 50 anos, as possibilidades decaem drasticamente. Garantem que ao irem a festas ou eventos, é possível contar doze mulheres livres para um cara solteiro que, brincam elas, inevitavelmente será uma péssima aposta ou um promissor amigo gay.

Isso parece bem desestimulante, concordo. E foi aí que me perguntei se a experiência da mãe da minha amiga não teria sido fruto de um mísero acaso. 

Então, no decorrer dos últimos meses, resolvi perguntar para 14 homens e mulheres – entre 50 e 76 anos – sobre como teriam encontrado um amor significativo, muito depois de acreditarem que isto seria possível.

Confesso que ao escutar estas histórias compreendi que existem esperanças para uns se unirem a outros, independente das suas idades.

Na realidade, eu queria mesmo era explorar se esse tipo de amor aconteceria por sorte, por insistência ou por algum tipo de ‘acidente’. Também conjecturei se haveria transformações pessoais internas que operassem a favor de nos tornarem mais cativantes e interessantes a fim de atrairmos parceiros.

O que me surpreendeu foi ouvir histórias incrivelmente parecidas entre si. 

Invariavelmente todos temiam já estarem velhos demais para o amor. A maioria apreciava o fato de ser independente e fingia bastante bem que isto lhes bastava. Todos acreditavam que estariam fadados a viver o resto de suas vidas desacompanhados.

No entanto, e ao mesmo tempo, foram criando uma espécie de resiliência diante da possibilidade de cruzarem com alguém. Perderam o medo, entende?

E assim, quase sem querer, foram ficando genuinamente abertos a qualquer oportunidade. Não havia mais temor, pudores, falsa moral ou as inseguranças de outrora.

E você precisa entender o quão libertadora pode ser esta sensação dali em diante. Não é mais charme, não se trata de usar máscaras para fingir o que não se é. Existir passa a ser uma experiência de liberdade!

E há algo mais espetacular do que olhar para um ser íntegro e verdadeiro?

Este sentimento, então, lhes permitiu absorver uma sensação de serenidade, aceitação, acolhimento e sintonia que jamais haviam anteriormente experimentado.

Assim, o amor ressurgiu em suas vidas de maneira incondicional, tanto no ato de dar quanto no de receber.

Não há mais padrões inflexíveis, cobranças vazias, sofrimentos inúteis. Não há drama. Há leveza, acolhimento e afeição.

Todos sentem que, de alguma forma, os relacionamentos, as experiências e os sofrimentos passados foram necessários para que fossem ‘preparados’ para a atual união.

Alguns relataram que, por vezes, pensavam: Aonde está todo mundo? Não existe mais gente legal solteira? Cadê os homens? Cadê as mulheres?

Foi quando perceberam que faltava alguém pra dividir a cama, o almoço do domingo sem os filhos, o papo depois daquele filme de arte…. quanta coisa, né?

No entanto, existem muitas variáveis que determinam a longevidade de qualquer relacionamento. As expectativas são uma delas. A rigidez e a falta de vontade de mudar, crescer e se adaptar decididamente constituem a outra parte.

Não permanecemos as mesmas pessoas ao longo dos anos. Nem emocionalmente, nem mentalmente e muito menos fisicamente. A idade e o tempo avançam, e somos vulneráveis ao seu impacto.

Também ouço sobre pessoas que se apaixonam de novo por namorados(as) do passado. Esplêndido isto, não? Ou seja, você vai ‘re-conhecer’ aquela pessoa e descobrir que algo nela pode tê-la tornado mais sábia, mais surpreendente e bela. Quase uma ‘alma gêmea’.

E o que seria uma alma gêmea

Começo a resposta afirmando que esta figura lendária não existe. Mas, com toda a certeza, pode ser um caminho que leve não à uma criatura idêntica a você, mas à uma parceria com quem possa compartilhar valores, conversas, projetos e o compromisso de fazer o melhor para o outro. 

Porque existe uma diferença decisiva entre a pessoa com a qual podemos nos ver casando e a pessoa com quem conseguimos nos imaginar envelhecendo. E isto não é o mesmo que declarar que não exista qualquer chance de nos unirmos à pessoa com quem envelheceremos com alguma qualidade de vida.

Se você está morando sozinho e experimentando sentimentos de solidão, existem maneiras de mudar isso. E todos sabemos o quanto a solidão pode ser um problema sério para os idosos. Um relatório atual revelou que mais de 30% dos adultos com mais de 45 anos experimentam a solidão. Também descobriu que mais adultos com 65 anos ou mais são considerados em isolamento social.

Então, lanço aqui uma ideia. Escreve para mim contando sua história de encontros, desencontros ou expectativas. Quem sabe a gente não lança um movimento para unir pessoas bacanas feito você?

Isto não seria fantástico?

Se desejar, envie seus comentários para psicologaheloisalima@gmail.com

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