ADEUS ANO VELHO

BLOG Fogos

“Reciclar a palavra, o telhado e o porão…
Reinventar tantas outras notas musicais…
Escrever o pretexto, o prefácio e o refrão…
Ser essência… Muito mais…
Ser essência… Muito mais…
A porta aberta, o porto acaso, o caos, o cais…”

In: Reticências – de O Teatro Mágico

Parece haver uma espécie de pressão cultural vagando pelo mundo que, apontada para cada um de nós, nos obriga a fazer promessas ou tomar decisões futuras no último dia do ano.

Assim, se existe algo que você prometeu em 2020 e que até o momento permanece adiando, é possível que seja igual aos 72% das pessoas com mais de 45 anos que simplesmente não se importam em cumprir promessas de Ano-Novo.

Ainda que pareça que as redes sociais terão a capacidade de tornar todas as resoluções da humanidade bem-sucedidas já que, afinal, seus amigos online podem ‘ver’ se você está seguindo seus planos, então, por que nós – por que eu – continuamos falhando?

Talvez seja porque as resoluções registradas nas vias virtuais sejam particularmente propensas à síndrome da falsa esperança.

Quando expectativas irracionais de mudança pessoal não são atendidas, todos nos sentimos frustrados e desanimados e, desta forma, desistimos de tentar mudar.

Em outras palavras, definimos metas inalcançáveis para nós mesmos e, então, ficamos proporcionalmente aborrecidos quando falhamos. A síndrome da falsa esperança é, em muitos aspectos, o resultado do excesso de confiança à que a vida de mentirinha virtual nos impele. Uma das causas do excesso de confiança ou das expectativas irrealistas podem ser as promessas exageradas de mudança que, muitas vezes, envolvem a ilusão de enormes benefícios sem esforço e com absoluta rapidez.

Se você gasta a metade do tempo que eu gasto online, com certeza se acostumou a ver e fazer promessas super valorizadas como emagrecer 12 quilos, voltar a fazer exercícios físicos diariamente, deixar de beber, parar de fumar, ter mais tolerância com a sogra, prestar mais atenção no(a) parceiro(a), viajar mais, ir ao cinema uma vez por semana, ler um livro por mês.

Aliás, quase me esquecia: escrever um livro, plantar uma árvore e ter um filho, só para completar a tradição.

A gente faz estas promessas no silêncio de uma noite qualquer do final do ano ou em meio a algazarra familiar, entre brindes e beijos ou, ainda, entre amigos e, seja como for, já sabendo de antemão que não serão cumpridas nem a curto, nem a médio e nem mesmo a longo prazo, pelo simples fato de preverem a própria antítese.

Afinal, quem é que pode emagrecer 12 quilos sem nem sequer entender porque é que está 12 quilos acima do peso?  E, por falar nisso, que medida é essa que determina que você deva estar 12 quilos mais magro(a)? Mais e menos em relação ao que? Quem, afinal de contas, é esta sacripanta referência? Aquela modelo longilínea e esquálida, com seus olhos de morcego circundados por enormes cílios negros que lhe cobrem a possibilidade de um olhar mais humano?

Ou a atriz que desesperadamente tenta esconder a idade real, ora usando roupas exageradamente juvenis, ora namorando garotos de corpos bombados? Ou o ‘famoso’ que gasta tudo o que tem em tratamentos e plásticas mirabolantes que lhe fazem parecer um grotesco arremedo de si próprio?

E vamos combinar que viajar mais, ir mais ao cinema ou ao teatro semanalmente, jantar fora, e outras coisas legais, não depende exclusivamente da nossa vontade ou desejo, mas, acima de tudo, das nossas condições financeiras e materiais, não é mesmo?

Ler livros, então, parece uma prática cada vez mais intangível. E escrever um, então? Para grande parte desta estranha geração formada pelos polegares mais ágeis da história humana, largar o celular, o wattsapp, as redes sociais ou a tela do computador para prestar atenção à qualquer outro lugar onde não haja incidência deste tipo de faixa de luz que nos hipnotiza, parece tarefa para deuses – e esses não estão lá muito animados para tamanho e inútil esforço.

Então, que tal começar pelo mais simples?

O que é que você não tem feito ultimamente e que poderia fazer de pronto, por exemplo, já e agora?

Dar uma caminhada diária, independente do seu peso ou do seu projeto de dieta, não lhe parece algo viável? Visitar aquela tia querida, que lhe dava tanta atenção e carinho na infância, nas últimas sextas-feiras de cada mês, não é fácil?

Desligar o celular durante toda a noite e parte do dia, parece complicado demais? E nos finais de semana, quem sabe? Mande por mensagem este seu novo intento.

E se propostas servirem, considere ficar alguns dias sem acessar sua rede social virtual. Aquela mesma onde você vasculha e é vasculhado fingindo que não está lá e nem aí com nada. Aposto muitas fichas em como sua vida vai parecer muito mais produtiva e apreciável quando você simplesmente viver em vez de pretensiosamente se exibir.

Porque não existe nada mais lastimável do que alguém que precisa mostrar cada pedaço do seu dia para provar que vive… seu dia! Grande buraco existencial parece ali revelar-se, não?

Ou você acredita mesmo que alguém ainda não percebeu sua flagrante necessidade de se expor aberta e descaradamente para convencer os demais de que se sente realizado(a) e feliz?

Você pode descobrir quem é você e qual é o poema que melhor define sua existência agora. E, então, preencher os espaços em branco com afetos reais, com sorrisos largos, abraços demorados e apertados. Realizando coisas belas. Por mais invisíveis que aparentem ser. E mesmo que só você tome ciência delas, pouco importa. Engrandecendo sua existência de dentro para fora – trazendo à tona o seu melhor. O nosso melhor.

Resoluções não são destinos e sim caminhos e comportamentos que nos darão licença para chegar aos nossos destinos. Desta forma, quando olhamos para trás, perceberemos que será a disciplina desses hábitos que pavimentará a longa e tortuosa estrada até onde estamos hoje.

Portanto, para 2022 decida fazer as coisas que deixarão você feliz quando olhar para trás a partir de 2023.

Prometa, então, que em 2022 largará esta mania de parecer e passará a ser. Verdadeiramente.

E, de verdade também, desejo-lhe um feliz 2022!

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