POR QUEM OS SINOS DOBRAM

Nunca se vence uma guerra lutando sozinho.
Cê sabe que a gente precisa entrar em contato
Com toda essa força contida e que vive guardada,
O eco de suas palavras não repercutem em nada
.”

In: Por quem os Sinos Dobram – de Raul Seixas

Na última 6ª feira, 10 de dezembro, o mundo formado por seres que ainda raciocinam com humanidade assistiu, estarrecido, a terrível decisão do Supremo Tribunal da Grã-Bretanha que acatou extraditar Julian Assange para os Estados Unidos, onde ele será obrigado a enfrentar sua morte em vida. Esta é a punição pelo ‘crime’ de ter praticado um jornalismo autêntico, preciso, corajoso e vital.

Não hesitaram em enviar Julian para a morte.

Por conta das mentiras institucionais que trouxe à tona, Julian Assange hoje é considerado o jornalista que prestou o maior e mais destemido serviço público nos tempos modernos.

E é, há mais de dez anos, prisioneiro justamente dos governos que denunciou com uma profusão impressionante de provas – nunca consideradas, é claro. Durante esses longos anos, enfrentou muitos tribunais enquanto os Estados Unidos tentavam manipular a lei para silenciar a ele e ao WikiLeaks.

O jornalista e fundador do WikiLeaks foi e permanece sendo tratado de forma desumana por forças poderosas e onipotentes, que tentaram por todos os meios silenciá-lo, neutralizá-lo e destruí-lo. É a luta do próprio Davi contra Golias o que o jornalismo sério tem travado para combater a impunidade dos Estados Unidos.

Nascido no dia 3 julho de 1971, em Townsville, Austrália, Julian Assange usou seu genial QI para desenvolver um dos seus maiores talentos: invadir bancos de dados de organizações muito importantes. Em 2006, fundou o site WikiLeaks, uma organização sem fins lucrativos, sediada na Suécia, que coleta e compartilha informações confidenciais, recebidas de fontes anônimas, vazadas de governos ou empresas, que tratam assuntos sensíveis em escala internacional. Por seus esforços, o ativista da recebeu o título de “Personalidade do Ano” pela revista Time em 2010.

Depois de uma série de denúncias envolvendo, principalmente, o governo norte-americano e que culminaram com a acusação de que este teria criado ferramentas para controlar telefones, computadores e televisores conectados à Internet, ele passou a ser perseguido e acusado de coisas que nunca foram esclarecidas.

Buscando evitar a extradição para a Suécia devido a alegações de agressão sexual neste país (que seus advogados afirmaram ser uma represália armada a fim de desacreditá-lo e das quais foi finalmente inocentado em 2017), Assange permaneceu exilado na embaixada equatoriana em Londres de 2012 até abril de 2019, quando, com a troca de governo no Equador, foi entregue à polícia britânica.

Desde a troca do governo, ele teve o acesso à internet totalmente proibido e passou a ter seus direitos, dia a dia, reduzidos.

O pequeno e espremido espaço que ali ocupava não era um local apropriado para residência e não oferecia mínimas condições para uma vida digna. O governo britânico conhecia a situação precária na qual Assange vivia e, violando os direitos humanos, não permitia que ele saísse do local, já que, assim ocorrendo, seria preso. Não tomava banhos de sol nem dava caminhadas, além de que permanecia sem luz natural ou acesso a ar fresco. Ficou mais de SEIS ANOS sem o direito de receber a visita de um médico.

UMA MÃE QUE LUTA PELA VIDA DE SEU FILHO

Segundo Christine, mãe de Julian Assange, seu filho foi criado para sempre se colocar no lugar dos outros a fim de exercer a compaixão. Se visse um bêbado na rua, parava para ver se ele estava bem e como poderia ajuda-lo. Com valores muito sedimentados no sentido do respeito ao próximo, ele procurava não mentir. Jamais. 

Por outro lado, se Julian entrasse em uma disputa com outra criança, sabia que ela nunca ficaria do seu lado só por ele ser seu filho. Então, isto certamente lhe forneceu uma noção bastante clara de justiça.

Além de gostar de tocar instrumentos e de apreciar música de uma maneira geral, Julian adorava aventuras como escaladas, por exemplo. Era destemido por natureza.

Quando garotinho, costumava construir jangadas para passear no rio e estava sempre explorando florestas. Aos 24 anos, chegou ao deserto da Tasmânia com apenas uma faca e se colocou diante da natureza a fim de experimentar sobreviver nestas circunstâncias. 

Logo, a ideia de Julian ser esse nerd atrás de um computador, segundo ela, sempre foi completamente equivocada.

‘Jules’, como costuma ser chamado pela família, sempre foi um profundo interessado na busca da verdade, não importava qual assunto envolvesse – medicina, meio ambiente, natureza, física, etc. 

Segundo seus amigos, Julian Assange é um homem incrivelmente motivado, com um intelecto impressionante e um QI muito acima da média. Ele também tem, em raras ocasiões, um senso de humor ácido e, às vezes, até autodepreciativo.

Para Peter Graham, seu amigo na escola de Goolmangar, na Austrália, Julian era um garoto loiro, cabelo na altura dos ombros, educado e com um estilo de vida alternativo. 

Daniel Matthews, seu amigo da universidade testemunha: “Julian e eu estudamos matemática na Universidade de Melbourne (Austrália). Eu sempre o achei inteligente, brilhante e eclético. Ele já era um apaixonado pela justiça e pelo livre fluxo de informações e ideias. Sei que esta forma de pensar, lhe rendeu grandes custos pessoais. O acusam de ser portador de algumas idiossincrasias. Quem especula isto não faz ideia do que se passa na cabeça de um matemático.

Iain Overton, editor do Bureau of Investigative Journalism no Reino Unido, diz ter conhecido Julian quando este convidou seu jornal para examinar os Registros da Guerra do Iraque. Comenta que desde o começo ele causou uma boa impressão: “Ele deu talvez a declaração mais dura que já vi na vida para a CNN e, em seguida, como a câmera desligada, transformou-se em um homem caloroso e simpático. Aquele era o homem que se colocou em perigo expondo os segredos dos EUA.”

A jornalista Heather Brooke cita que a primeira vez que avistou Assange, ele estava convencido de que um franco-atirador estava mirando-o pelas janelas de um centro de conferências. “Depois de alguns minutos, me contou sobre o vídeo do Assassinato Colateral*.”  
(*Vídeo vazado pelo Wikileaks que mostra o exército dos Estados Unidos assassinando dezenas de civis inocentes na Guerra do Iraque).

Jérémie Zimmermann, amigo e fundador da La Quadrature du Net (grupo francês que defesa e promove direitos digitais e liberdades dos cidadãos) relata: “Quando nos conhecemos em 2009, Julian me pareceu uma das mentes mais brilhantes que já encontrei. Ele tem uma profunda compreensão da tecnologia e sua importância para construir sociedades melhores, onde os cidadãos são mais capacitados do que controlados. Ele é muito autoconfiante, o que é uma boa qualidade na maioria das vezes, mas é por isso que ele precisa de seus amigos às vezes para introduzir algumas dúvidas em sua mente. Com o WikiLeaks, ele chamou a atenção mundial para a denúncia de irregularidades. Ele mostrou que as tecnologias digitais podem capacitar as pessoas, expondo os erros das instituições. As pessoas que o criticam com base em traços de personalidade devem dar uma olhada melhor no que ele produziu e alcançou”.

Mark Stephens, ex-advogado de Assange, assim o retrata: “Ele tem um conhecimento enciclopédico – e quero dizer que uso o verdadeiro sentido da palavra – dos assuntos atuais. Ele pode falar com você sobre qualquer país do mundo com o máximo de detalhes e conhecimentos e insights sobre as nuances da política e assuntos atuais, pois você e eu podemos falar sobre a política britânica. Ele realmente recebe uma reação mista das pessoas. Ele é uma pessoa sobre quem os mitos crescem facilmente”. 

John Pilger, jornalista australiano e amigo, atesta:

Conheço Julian Assange desde o início de sua extraordinária luta em Londres. O que me impressionou de imediato foi seu destemor, embora a coragem seja uma palavra melhor. Ao enfrentar as forças mais vorazes do mundo atual e dizer às pessoas, em muitos países, o que os poderosos dizem e fazem pelas costas, ele se tornou uma espécie de ‘inimigo’ que os jornalistas deveriam usar como distintivo de honra, mas raramente o fazem. O ciúme e a inveja que ele atrai frequentemente vêm daqueles que estão conscientes de seu próprio conluio com o poder e que são implacáveis com alguém que se recusa a se juntar ao seu clube incestuoso. Pessoalmente, acho-o uma pessoa incrível: visitei-o na embaixada equatoriana, tivemos longas conversas telefônicas, muitas vezes nas primeiras horas da manhã, compartilhamos um humor negro semelhante. Dada a sua energia inquieta, seu espírito é notável ​​nas atuais circunstâncias; e ele tem a sorte de contar com o apoio de um grupo de pessoas impressionadas e impressionantes, inclusive sua mãe, Christine. Desejo todo poder para ele.”

Em janeiro de 2017, em entrevista a um jornalista brasileiro, Julian Assange garantiu que o Brasil é o país latino-americano mais espionado pelos Estados Unidos. “A razão é o tamanho da economia e um dos motivos é o pré-sal”, afirmou. Em 2013, Edward Snowden, ex-contratado da agência NSA, já havia relatado que os Estados Unidos contavam com ferramentas para vigiar cidadãos do mundo inteiro, inclusive órgãos e empresas no Brasil.

Neste exato momento, causa profunda estranheza o ‘estridente’ silêncio dos meios de comunicação de maneira geral e das mídias ditas alternativa de maneira particular. Assange caminha para a morte a passos largos e ninguém parece se importar.

Isto posto, afinal, para quem devem dobrar os sinos? Responda você, depois desta breve e contundente biografia.

P.S.: Conforme declarou está semana o jornalista australiano, John Pilger, “o que está em jogo é a vida de um homem corajoso e, se permanecermos calados, a conquista de nossos intelectos e do senso de certo e errado: na verdade, nossa própria humanidade“.  

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