LIÇÕES DE DESUMANIDADE

Post Heloisa

“No mundo masculino, pobre do menino Que, nas pedras, vê sua essência bem refletida. Não confunda força com violência. Respeite a água, pois ela molda toda a vida. Mulheres não têm que chorar.”

In: Mulheres Não Têm Que Chorar de Ivete Sangalo

Dentro de cada clínica de luxo espalhada por alguns países do planeta – onde se negociam as famosas barrigas de aluguel – as residentes, na maioria jovens mulheres pobres, vivem em completa reclusão enquanto cuidam dos fetos que sentem crescer dentro de si.  Nestes locais a gestação é considerada um trabalho de tempo integral e com uma espécie de ordem rígida como a de um chão de fábrica. Muitas das mulheres são empregadas domésticas, babás, auxiliares de enfermagem, desempregadas, etc., que entenderam, a duras penas, que cuidar de um feto é mais lucrativo do que cuidar de algo ou de alguém.  Elas têm pouca ou nenhuma interação com os clientes, que vão de uma escriturária até um ganhador do Oscar; a família contratante pode até ter condições de engravidar, mas prefere que outra pessoa o faça. As anfitriãs, como são chamadas, não têm permissão para se importar com estas razões. Elas devem dar à luz um bebê saudável se quiserem receber seu bônus e só. A maioria das mães de aluguel, como é fácil supor, só aceita esta condição porque precisa desse dinheiro para sustentar as próprias famílias, as quais não têm permissão para ver durante o período do seu contrato.  O livro The Farm, da escritora filipina-americana Joanne Ramos, foi escrito a partir da perspectiva de quatro personagens, todas elas barrigas de aluguel, cuja protagonista Jane é uma mulher também filipina-americana, de vinte e poucos anos, que procura uma  dessas clínicas em Nova Iorque, depois de ser despedida de seu emprego de babá e não conseguir outra forma para sustentar sua própria filha. O OUTRO LADO DA MOEDA
Há alguns anos, um casal de jornalistas brasileiros também contou sua história, só que do outro ponto de vista: o dos compradores.
Chamaram sua história de ‘saga’, embora saga seja uma palavra usada para designar uma lenda ou aventura relacionada a personagens famosos de uma determinada cultura. Desta forma, estranhou-se o fato de a história versar única e exclusivamente sobre as vicissitudes experimentadas na busca de realizar sua intenção de serem pais, jamais alcançada pelas vias naturais. A despeito de todas as infrutíferas tentativas de engravidar e dos sete anos de esforços, a parte mais chocante do relato começa exatamente no momento em que eles encontram uma saída para sua dificuldade do outro lado do mundo, num canto do continente asiático.
O casal decide pagar por uma barriga de aluguel na Índia, um dos destinos mais procurados para tanto e um país tragicamente mergulhado na mais brutal miséria e destruição.
E, no decorrer do texto, não hesitam em enaltecer a própria decisão propagandeando valores, facilidades e cuidados dos profissionais em relação aos locatários.
Pagaram 25 mil dólares pelo procedimento, dos quais apenas 8 mil formam destinados à mãe de aluguel, uma indiana de 28 anos que já tinha um filho de 5 e que não falava uma palavra em português ou inglês.
Não faltou, ao registro, uma passagem digna de bon vivant: a locatária recebeu a notícia de que a fertilização dera certo no decorrer de uma viagem internacional com amigos. Foi também avisada de que seria contemplada com duas crianças. Comemorou com champanhe. Oito meses depois, dirigiu-se à Índia para acompanhar os últimos dias da gestação e descobriu que as filhas já haviam prematuramente nascido. Descreveu certa ‘irritação’ com o fato.
Alguma informação sobre o estado de saúde físico ou mental da jovem contratada? Sobre sua situação familiar? Social? Nada. Sobre ela, apenas uma cínica constatação: “Fez o procedimento pelo dinheiro e eu a contratei pela barriga. E tudo bem. Ela estava grata por ter sido ‘escolhida’ por nós – há várias mulheres que querem ser barrigas de aluguel, mas nem todas são eleitas.
Outra pérola vem na explicação do motivo que a fez decidir pelo leite materno:
Ela mandava o leite que ordenhava para as meninas. A opção ao leite materno era uma lata importada com pó desidratado, comprada na farmácia. Não podia descartar o que chegava fresco, pelo menos não naqueles primeiros dias, com todo aquele sol da Índia.”
E, candidamente, conclui:
“Não tenho nenhum tipo de problema com o fato de elas não terem nascido de dentro de mim. Me sinto 100% mãe, nem lembro mais que não foram geradas na minha barriga!”
Interessante constatar que o texto é arrematado com uma reveladora foto onde o casal de jornalistas brasileiros, o jovem casal indiano e seu filho aparecem próximos a uma piscina. Cada mulher segura um bebê. Os locatários estão sorridentes. A “mãe de aluguel” de olhos baixos, seu marido e filho, visivelmente constrangidos, não sorriem. No entanto, caminhando no sentido oposto e, logo, mais sensível do que o apontado pelos jornalistas-alugadores de barriga, alguns dados podem nos trazer pistas para entender melhor esta situação. E a principal delas é uma constatação: este país, que tantas e incríveis contribuições civilizatórias transmitiu ao ocidente, continua sendo objeto de cobiça e interesses desumanos. O fato de quase um terço da população mais pobre do planeta encontrar-se na Índia certamente mantém absoluta relação com a escolha do casal. Isto porque o comércio de barrigas de aluguel movimenta mais de US$ 1 bilhão (cerca de R$3,3 bilhões) por ano. Ali, o preço, como constatou a esperta locatária, é “quatro vezes menor do que nos Estados Unidos. Os críticos destas ‘fábricas de bebês’ explicam que a pobreza é o fator que mais influencia a decisão dessas mulheres. Há um estado de necessidade absoluta para a maioria das mulheres (e homens) na Índia. Todos necessitam de comida, abrigo, roupas, escolas, além de todo o tipo de assistência médica. Não obstante a mão de obra ali ser muito barata ela também é muito produtiva e inteligente, com alto grau de cultura – assim como na China, que sempre resistiu ao avanço do colonialismo inglês desde o início. Coisa que a Índia não conseguiu.
E a Índia não foi sempre como é hoje. Era uma sociedade desenvolvida, criativa e seu povo vivia de sua própria produção. O sucesso de seu modo de vida pode ser aferido pelo seu intenso crescimento populacional: depois da China, é o país mais populoso do mundo.
É uma civilização com aproximadamente 5.300 anos. Já seu colonizador e atual dominador, o império britânico, tem apenas 400 anos de existência. A catástrofe que levou o país do budismo e da condição de civilização florescente, sem escalas, para o abismo de miséria e fome dos dias de hoje, começou em 1858 quando em suas terras aportou a ‘mui amiga’ Companhia Inglesa das Índias Orientais, nome fantasia que o império britânico utilizou para disfarçar a sua natureza de lobo em pele de cordeiro.
Por ser militarmente frágil, o velho sábio sucumbiu à força do jovem e ardiloso inglês.
O sistema hierárquico de autogestão por castas, que constituía a coluna vertebral da soberania nacional hindu, cedeu lugar à administração inglesa na figura do bwana vice rei, o governador colonial que vinha de Londres para reinar em nome de sua majestade. Apesar de tudo, foi e continua sendo um país extremamente rico do ponto de vista cultural.
Segundo o estudioso e matemático Luciano Lima, é inegável que a Índia, junto com China, a Mesopotâmia e o Egito, constitui a mais vigorosa fonte da humanidade. O modo de produção destes países era baseado na produção de comunidade, ou seja, a partir da cultura por ela criada. É, também, praticamente o berço da matemática – título indevidamente atribuído à Grécia que, na verdade, ligava a Ásia à Europa e, desta forma, levava o conhecimento asiático para a Europa transformando-o, em pouco tempo, em propriedade privada.
E, por conta disto, foi que se estruturou a ideia do conhecimento enquanto base do poder. Ainda hoje na Índia a matemática permanece como a base da comunidade. Os maiores pensadores matemáticos foram e ainda são os indianos. Não é à toa que é entre eles que são recrutados os melhores quadros para as mais famosas universidades dos Estados Unidos e da Inglaterra.
Há casos de adolescentes e jovens indianos analfabetos que são levados para Harvard, Cambridge, Oxford, porque possuem um pensamento lógico-matemático altamente desenvolvido. Na Índia a matemática é muito mais uma prática mental que escrita. Conversam e interagem pensando de maneira “matemática”. 
Foi a civilização indiana que criou os fundamentos da matemática moderna como o sistema numérico atual, o cálculo algorítmico, a trigonometria, etc. Isto desvenda porque todos os meses milhares de indianos deixam suas tribos do Himalaia e vilas de pescadores costeiros para buscar, nas cidades maiores, trabalho outsourcing (terceirização de processos) que inclui atendimento ao cliente, vendas e qualquer outra coisa que as corporações estrangeiras necessitem. Em outras palavras, o país tornou-se, também, a nação do telemarketing. Por conta da sua enorme capacidade intelectiva, aprendem idiomas rapidamente e com o sotaque desejado. Para tanto, são proibidos de falar o idioma hindi nos locais de trabalho e obrigados a adquirir nomes e atitudes ocidentais. Ganham cerca de 20.000 rúpias por mês, US$ 2 por hora ou US$ 5.000 por ano. Isto se durarem muito tempo no emprego, o que não acontece com a maioria. Em um país onde a renda per capita anual é de cerca de US$ 900, este salário se qualifica como de classe média.
Logo, torna-se fácil entender porque US$8 mil para alugar uma parte do próprio corpo por 9 meses seja algo tão vital e concebível para essas pessoas.
Difícil é entender como um ser humano ocidental aceita e utiliza-se disto sem nenhum tipo de crítica ou compaixão. Acompanhe os novos textos através do: http://www.facebook.com/aheloisalima E, se desejar, envie seus comentários para: psicologaheloisalima@gmail.com

Um pensamento sobre “LIÇÕES DE DESUMANIDADE

  1. É absurda a forma como as mulheres ainda são consideradas objetos nos dias de hoje. Precisamos resistir à naturalização desta terrível e recente visão da mulher como “barriga de aluguel”, pois as mulheres têm sentimentos e são profundamente feridas por essa instituição desumana. Ninguém têm o direito de tirar a filha ou filho de uma mulher. Pessoas que desejam ser mães e pais devem procurar orfanatos, onde de fato elas(es) encontrarão muitas crianças precisando de cuidados.

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