A MENTIRA ESCONDE NOSSA FRAQUEZA

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“Silêncio, por favor,
Enquanto esqueço um pouco
a dor do peito.
Não diga nada
sobre meus defeitos.
Eu não me lembro mais
quem me deixou assim.
Hoje eu quero apenas
Uma pausa de mil compassos.”

in: Para Ver as Meninas de Paulinho da Viola

Quando um sentimento tão importante quanto a confiança é quebrado, algo de muito precioso desaparece de dentro da gente.

A mentira nos obriga a fazer novas perguntas para as muitas certezas que cercavam as paredes da nossa morada – antes tão segura e confortável – e tem o poder de abalar todas as crenças que, até então, cultivávamos.

Uma mentira altera tudo. E nos faz desconfiar se, no fundo, não foi resultado de um hábito que nunca nos foi dado detectar.

Há muitas pessoas que, de tão habilidosas nesta arte, serão capazes de nos manter enganados de uma maneira verdadeiramente surpreendente. E por muito e muito tempo.

Por outro lado, mentiras têm uma espécie de prazo de validade, porque é preciso muito esforço para mantê-las. Isso acaba se transformando em uma espiral de enormes proporções que, em algum momento, não será mais possível administrar. Uma vez que uma mínima parte da mentira deixar de ser secreta, não haverá mais controle sobre o restante dela. 

É como diz o ditado: mais depressa se pega um mentiroso do que um coxo.

Pessoas que estão presas dentro de um ciclo de mentiras são controladas pelo medo não apenas de serem descobertas, mas também de verem desveladas as verdades sobre si mesmas. 

Embora seja muito difícil para uma mentira ser sustentada ao longo do tempo, é muito possível que, cá deste lado, nós continuemos a ser enganados/as. Pode haver muitos sinais, mas os laços emocionais que insistimos em manter, muitas vezes costumam nos cegar diante daquela profusão de pistas e fatos. No fundo, não queremos enxergar. Logo, não vamos mesmo perceber nada além daquilo que queremos.

A rigor, seres humanos não são lá muito bons para ver cores, além do preto e do branco, simplesmente porque parece mais confortável aos nossos olhos não vê-las.

Mas você saberia como sobreviver a uma traição? 

Primeiro, seria preciso definir traição, o que é um exercício bastante complicado.

Tive uma paciente, por exemplo, que disse que se sentia muito mais traída com a intimidade amigável que percebia existir entre o marido e uma colega deste do que as aventuras sexuais que ele mantinha com garotas de programa cujos cartões vivia encontrando pelos bolsos.

A maioria das pessoas considera a palavra traição um sinônimo de infidelidade. Talvez até seja, porque é a forma mais comum que usamos para definir a confiança despedaçada dentro em um convívio íntimo e é o que mais destrói a fé entre companheiros.

Parceiros que se comprometeram de uma maneira mais tradicional, costumam combinar que permanecerão fiéis pelo tempo que durar seu relacionamento e usam esse ‘acordo sagrado’ como base para todas as demais construções da vida conjugal. Quando se quebra essa promessa as consequências se infiltram no vínculo sexual, na teia emocional e no equilíbrio mental e espiritual nos quais o casal amparou o amor.

De qualquer forma, é possível partir do princípio de que traição é uma quebra dentro do acordo que foi firmado, implícita ou explicitamente, e que era até então considerado vital para a integridade daquela convivência. 

A capacidade de ele ser recuperado tem muito a ver com as respostas que necessitam ser fornecidas. E quanto mais abertas e menos defensivas forem, maior a probabilidade de uma retomada.

Mentiras e negações utilizadas a fim de encobrir seja lá o que for, podem causar muito mais danos do que a própria violação da confiança. Mesmo que a mentira nunca seja descoberta e a ofensa não seja revelada, ainda assim pode haver um grande dano à estrutura da relação.

Ou seja: a confiança é inevitavelmente sacrificada mesmo quando os segredos não são detectados.

Esta questão irriga toda a história do conflito. E eu, claramente, não me sinto no direito de teorizar acerca dela, uma vez que faço mais perguntas do que forneço respostas – para cada um dos envolvidos.

Ninguém deveria se sentir no direito de arriscar o uso de bisturis para dissecar a vida de um casal, sob pena de incorrer na famigerada glorificação do amor, assim como desconsiderar as claras dificuldades de ser homem e mulher nos dias de hoje.

Neste tipo de julgamento (já que nunca deixa de ser), tento ser honesta. Não há um(a) santo(a) nem um(a) vagabundo(a). Não vale um levantar questões morais e o outro não; um usar seu status como mulher ou como homem, fingindo ser uma suposta vítima para satisfazer sua ambição, enquanto  o outro se recusa a interpretar este papel.

Por fim, nas minhas três décadas como terapeuta, constatei que mais da metade dos casais que me procuram o fazem por causa de algum tipo de confiança quebrada. A maioria deles quer reconstruir seu relacionamento e muitos, na verdade, decidem se manter juntos. 

Infelizmente, isso não significa que eles realmente se recuperarão do medo, da desconfiança e da angústia latentes.

Porque há uma diferença marcante entre preservar um convívio existente e empenhar-se na construção de um novo – a partir do que restou do outro.

A dor e a tristeza que acompanham uma fissura angustiante na confiança não se dissipam facilmente. Ambos os parceiros devem estar totalmente comprometidos com o que for preciso para aprender com o que aconteceu ao mesmo tempo em que tentam se voltar para um futuro possível.

Mesmo quando há fortes sentimentos de culpa ou rancor, muitos parceiros ainda podem possuir um vínculo que não desejam findar. Isto, porque o relacionamento pode estar profundamente ligado a amigos comuns, família, posturas religiosas ou espirituais. Isto, é claro, sem contar as questões ligadas à estabilidade financeira ou a história partilhada por ambos da qual nenhum pode desejar abrir mão.

Fora isto, ainda pesam as tolas e falsas convenções sociais que sempre se parecem como juízes implacáveis da vida alheia. 

As traições aparecem em muitas formas. Quando os casais olham para o passado, percebem que algumas eram previsíveis. Outras parecem ter se esgueirado sem que os parceiros percebessem que a brecha inevitável estava para acontecer. Mesmo quando um relacionamento parece saudável e inatacável, ele pode ser vítima de uma traição que não tenha condição de ter sido facilmente prevista ou explicada.

Se a ferida da traição pode ser fechada?

Neste caso, convido a cada um que imagine seu próprio epílogo.

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