NUNCA DESCUIDE DA DEPRESSÃO

Imagem Movimento Narciso 4

“Quantas vezes eu já fracassei,
Quantos bons momentos desprezei,
Por pensar demais, por ouvir demais,
Por não saber olhar a vida simplesmente.
Dentro desse louco turbilhão,
Cada um querendo ser melhor,
É muito melhor se deixar ficar
Em tudo que você sentir,
Simplesmente.”

In: Simplesmente – de Paulinho Nogueira

Juliana, aos 22 anos, já havia sido internada duas vezes por conta de suas profundas crises depressivas.

A terceira – e última – ocorreu no início de abril passado, quando ela mesma entrou pela clínica aos gritos, desesperada, implorando para que a impedissem de se matar.

Os médicos contaram que ela se sentia muito mal por ter perdido o emprego logo no início da pandemia e por nunca mais ter conseguido trabalhar. Não tinha planos nem perspectivas e tanto sua família quanto seus amigos mais próximos preferiram manter-se afastados dela e das suas mazelas.

Porém, bastou que obtivesse alta, quinze dias depois, para que o vaticínio se realizasse e a jovem levasse consigo toda o sofrimento que ninguém quis acolher de verdade.

E numa tarde quente de domingo, sem ninguém por perto para conversar, Juliana partiu.

Perturbadores, também, foram os comentários que, durante o velório, deram conta de que a jovem há bastante tempo falava em suicídio.

Mesmo assim, muitos ali demonstraram surpresa diante das imagens, mantidas nas suas redes sociais, dando conta de tratar-se de alguém aparentemente muito feliz.

Como se este pretenso “paradoxo” fosse alguma novidade em tempos onde parece valer mais do que ser, e quando todos se sentem compelidos a participar do inexorável e feroz jogo das aparências incentivado pelo mundo virtual.

Mas, afinal, por que é que a depressão tende a ser negligenciada e colocada como um fenômeno secundário e sem grande importância?

Quantas vezes você ouviu dizer que depressão ‘é frescura’, ‘falta do que fazer‘ e ‘coisa de gente fraca‘?

Ora, se uma conhecida escritora brasileira, certa vez, teve a coragem de declarar que “com um bom tanque de roupa para lavar nenhuma mulher teria tempo para ficar deprimida“, quanta falta de empatia é possível tolerar?

Com certeza, esta desinformada e arrogante senhora, tão preconceituosa quanto infeliz em seu comentário, passava bem distante da cozinha e do quintal da própria casa. Provavelmente, também, jamais sentiu na pele o tormento associado à profunda tristeza que é tão familiar as pessoas alcançadas por este mal.

Considero muito importante refletir sobre o tema porque percebo, com sincera preocupação, a existência de algumas correntes dentro da esfera psi que, simplesmente, abominam a ideia de indicar ou prescrever o uso de qualquer tipo de medicamento que contribua para a remissão dos desagradáveis e, muitas vezes, quase insuportáveis sintomas deste fenômeno que escolhi chamar de doença da alma.

Outras, ainda, descaradamente teimam em orientar o paciente a suportar aquela dor incomensurável até o último suspiro de suas forças, como se todo o mal-estar pudesse ser expiado pela vivência visceral da aflição, da angústia e do desespero. E como se esta fosse a única saída para este sombrio e doloroso túnel.

Toda a doença da alma busca desesperadamente ser compreendida. Mas, antes de qualquer coisa, é preciso acolhê-la sob o risco dela, quando negada, encontrar uma forma de expressão ainda mais lesiva.

Quando afirmamos para alguém que aquela dor profunda pode ser suportada e que, portanto, depende exclusivamente da força de vontade para ser superada, estamos tornando-a ainda mais intolerável.

Evidentemente, não se trata de reparar uma enfermidade para se retomar o projeto original – e inatingível – de viver uma vida sem desordens ou agonias. Trata-se, isto sim, de encontrar condições para que se consiga olhar para a dor de uma maneira mais humana e acolhedora e, assim, sustentá-la como parte daquele ser, posto que dor, desespero e angústia são condições inerentes à existência humana.

Também lhe será próprio o estranhamento provocado, uma vez que uma sociedade, atormentada e desigual como a nossa, nos impele na direção de modelos inalcançáveis de sucesso, beleza e realizações – onde fracassos e derrotas parecem não terem vez nem lugar.

Conheci um jovem senhor que, depois de tentar tratar durante mais de 8 anos uma depressão com 3 sessões semanais de psicoterapia, acordou, certa manhã, com fortes dores abdominais que, seis dias depois, revelaram-se causadas por um enorme e, até então, assintomático tumor que lhe resultou na perda de grande parte do intestino.

Em todos aqueles anos de sofrimentos, temores diversos, insônias e tristezas constantes, seu médico psiquiatra escolheu mantê-lo distante dos remédios alegando convicção de que o falar terapêutico seria caminho suficiente para a compreensão e, consequentemente, para a cura daquilo que o afligia.

Uma família, por outro lado, conviveu por vários anos com a filha mais velha apresentando comportamentos estranhos cuja idiossincrasia não se conseguia entender. A moça, muito estudiosa e inteligente, por vezes mostrava-se exageradamente insegura nos contatos interpessoais. Terminado um namoro, passou a perseguir o ex-namorado a ponto de tumultuar a vida pessoal do rapaz. Em determinada altura, passou a recusar qualquer contato afetivo, procurando manter-se sozinha e apartada de todos. Numa noite de domingo, depois de conversar com a família sobre uma notícia do telejornal, jogou-se da varanda do apartamento para a morte, diante dos irmãos mais novos e dos pais.

A família, mesmo percebendo que algo andava mal, preferiu não considerar a possibilidade de a jovem estar sofrendo de alguma espécie de transtorno mental. Desta forma, jamais foi encaminhada a qualquer avaliação ou tratamento.

Existe, na verdade, muita dificuldade de se aceitar ajuda em relação à questões relacionadas à área psíquica porque elas podem desvelar um ‘campo emocional’, invariavelmente nebuloso para todos  nós. Como se fosse feio ou vergonhoso ser portador de algum distúrbio, sendo ele passageiro ou associado à necessidade de algum tipo de controle pelo resto da vida.

Logo, a depressão persiste como uma das doenças mais sub diagnosticadas do mundo, principalmente quando se trata de mulheres. Primeiro, pela falta de conhecimento que redunda na incapacidade de identificar os sintomas e, segundo, pela dificuldade de entender que nem todo distúrbio psíquico significa ausência de lucidez ou incapacidade de manter o equilíbrio ad infinitum.

Portanto, fica a sugestão: se uma pessoa próxima a você mudar repentinamente de hábitos, tornando-se mais reclusa e distante, preste atenção. Se demonstrar falta de interesse pela vida, pelas coisas e pessoas ao seu redor, preste mais atenção. Se falar em suicídio, ligue todos os sinais de alerta. São indícios, nem sempre muito claros, emitidos como gritos de socorro, que precisam ser levados a sério. Nestes casos, comunique algum parente e, se este for você, encaminhe esta pessoa, o mais rápido possível, a um profissional (psiquiatra, de preferência).

Se ela já estiver sendo acompanhada e, mesmo assim, não apresentar melhora neste quadro, troque de especialista.

Se mesmo com todos estes cuidados a pessoa cometer um desatino, entenda que ela foi dona absoluta de seu gesto. E ninguém tem o poder de ajudar aquele que não deseja ser ajudado. Infelizmente.

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