SABE O QUE É SER MULHER NO BRASIL?

Imagem Movimento Mulher e Coração Partido

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas.
Geram pros seus maridos,
Os novos filhos de Atenas
.

Elas não têm gosto ou vontade,
Nem defeito, nem qualidade,
Têm medo apenas.
Não tem sonhos, só tem presságios,
O seu homem, mares, naufrágios,
Lindas sirenas, morenas
.”

In: Mulheres de Atenas – de Chico Buarque

Na última semana correu pelo país a macabra e odiosa notícia dando conta de que os – sempre complicados – planos de saúde, estariam exigindo autorização do cônjuge para que mulheres pudessem colocar o DIU.

DIU, para quem não sabe, é um dispositivo intrauterino usado como método contraceptivo, que age no útero impedindo a gravidez. É considerado um método seguro e bastante eficaz de contracepção.

Porém, a imagem perturbadora de um grupo de homens bloqueando literalmente o acesso de mulheres a métodos contraceptivos é totalmente revoltante – se você for mulher, evidentemente.

Esta verdadeira insanidade nos remete ao indigesto debate sobre a decisão acerca do aborto que, até hoje, envolve uma narrativa secular que concede a homens o direito de controlar o corpo e a vida de mulheres. 

E o que os homens têm a ver com os direitos reprodutivos das mulheres?  

Não deve ser novidade para ninguém que as mulheres, sem exceção, arcam com a maior parte dos gastos financeiros relacionados à sua própria saúde e contracepção. 

Não há dúvidas de que os métodos femininos tendem a ser muito mais caros do que os masculinos, justamente por exigirem consultas, exames, prescrições e intervenções médicas.

E tudo isto custa tempo e dinheiro, assumidos, via de regra, apenas pelos esforços delas – e não deles.

Além de mais caros, tais recursos podem ter efeitos colaterais severos, em parte porque envolvem hormônios ou ações invasivas, enquanto nenhuma técnica para homens é em tal grau problemática.

Sabemos, por outro lado, que a razão mais comum pela qual mulheres desistem do uso de anticoncepcionais, são os efeitos indesejados, além do alto custo. As estatísticas demonstram que mais de 50% delas abrem mão destes cuidados logo depois do primeiro ano.

Decididamente, é preciso entender que as duas formas disponíveis de contracepção masculina – preservativos e vasectomia – trazem bem menos riscos à saúde do que os métodos femininos correspondentes: anticoncepcionais de barreira e laqueadura tubária.

Seria cínico demais fingir não entender que são as mulheres que realmente carregam seus filhos – o que determina que a consequência concreta e duradoura da decisão de tê-los pertencerá exclusivamente a elas.

Logo, é incontestável que as mulheres sejam as principais, quando não as ÚNICAS, cuidadoras e provedoras de suas crianças.

Conte nos dedos quantos pais solteiros você conhece. E confesse quantos pais abandonados com filhos você já viu na vida.

No entanto, esta pretensa obrigação social se encontra baseada em papéis de gênero socialmente construídos, em detrimento do que seria melhor para todos os envolvidos.

Se, ao contrário, fosse convencionado que os homens deveriam ser os cuidadores primários dos filhos (ou, pelo menos, compartilhassem igualmente este papel com as mulheres), a gravidez também acarretaria consequências significativas para eles – e isto NUNCA ocorreu no Brasil.

Segundo o artigo 128 do Decreto Lei nº 2.848 de 07 de Dezembro de 1940, o aborto é considerado legal quando a gravidez for resultado de abuso sexual ou se colocar em risco a saúde da mulher. Em 2012 o Supremo Tribunal Federal (STF) estabeleceu que seria permitido interromper a gestação diante da constatação de anencefalia fetal (quando o feto não possuir cérebro).

Importante entender que, diferente destes “critérios” obsoletos, frios e ilegítimos, a decisão de fazer um aborto sempre será motivada por razões diversas e inter-relacionadas. E todas muito, mas muito difíceis, solitárias e dolorosas…. para a MULHER.

As razões envolvem medos, conflitos e limites concretos, sejam eles emocionais ou financeiros, passando pela total falta de apoio do ‘parceiro’, da família e da sociedade.

O fato é que nenhuma menina ou mulher deveria ser forçada a escolher entre continuar uma gravidez contra sua vontade, muitas vezes arriscando sua própria saúde e vida, e o risco de fazer um aborto clandestino, já que esta segue sendo a PRINCIPAL causa de morte materna no país.

Isto sem contar as mulheres que chegam aos hospitais com abortos espontâneos e, ainda assim, são tratadas como mentirosas ou criminosas.

As mulheres, no Brasil, têm cada vez menos direitos enquanto, cada vez mais, vão sendo abandonadas à própria sorte.

Lembre-se de que a Organização Mundial da Saúde (OMS) registra que um em cada quatro menores sofre abuso sexual antes dos 17 anos de idade, segundo dados oficiais. No entanto, a realidade pode ser definitivamente pior. Isto porque a maioria dos casos sequer é denunciada seja porque envolva familiares, gente importante, traumas, medos, vergonhas, culpa, etc, etc. E, desta forma, podemos estar falando de uma epidemia tão silenciosa quanto dantesca.

Afinal, o abuso sexual contra mulheres não se encontra na agenda política ou social do governo brasileiro.

A maioria das vítimas são garotinhas de até 13 anos. Conforme dados atualizados, quatro meninas até essa idade são estupradas por hora no país. Ocorrem, em média, 180 estupros por dia no Brasil.

A violência começa cedo na vida das mulheres. E é bastante possível que muitas delas você até conheça, que estejam dentro da sua própria família e que tenham sido ou ainda estejam sendo violadas, sem que ninguém jamais venha a saber disto.

E os levantamentos, pós-pandemia, deverão apresentar um quadro ainda mais dramático.

A reincidência e o aumento desta violência, demonstra que nossa sociedade alimenta e reproduz uma visão extremamente distorcida do que significa ser mulher num país como o nosso.

O certo é que uma mudança de visão e de comportamento dependerá completamente de uma transformação nas relações sociais e humanas.

E olha que nem sequer falamos dos espancamentos, dos feminicídios, das humilhações, das injustiças…. tantas coisas, não?

E se você acha que esta condição está distante de você ou das suas filhas, sobrinhas ou amigas, comece a duvidar seriamente desta ilusão. A barbárie alcançará todas nós, sem distinção. Portanto, cuidado, muito cuidado, com o que ou quem você defende ultimamente.

Porque a próxima vítima poderá se você.

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