PSICOPATAS ODEIAM MULHERES

Imagem Movimento Mulher Correndo Medo

“Cada vez que vejo o sangue
De uma mulher tingir o chão,
Sinto um aperto no peito
Dói demais meu coração.
Ver mulheres assassinadas,
Covardemente violentadas,
Que sórdida situação.

Mulher não é mais escrava
E cativa de um senhor.
Os tempos hoje são outros.
Por isso faça-me o favor!
A mulher pode se manter,
Não precisa se submeter
A morte, castigo e dor.

A violência doméstica,
É bem ruim com certeza.
É dormir com inimigo
É viver sempre indefesa.
A mulher tem que acordar,
Com muita garra lutar
Em prol de sua defesa.”

In: Violência Contra a Mulher – de Dalinha Catunda

Para quem imaginava que assassinos em série (Serial Killers) seriam apenas os psicopatas tipicamente produzidos pela sociedade norte-americana, eis que acabamos de encontrar mais um brasileiro nesta passarela de sangue na qual estão transformando o Brasil.

Que os americanos estejam acostumados a criar monstros capazes de praticar crimes dantescos, com seus atiradores e seus ‘transtornados de guerra’, disto já sabemos. Basta assistir algumas horas do Investigação Discovery HD, no canal 639 da TV fechada – que, pasmem, é considerado um canal de entretenimento. O I.D. apresenta, ininterruptamente, documentários baseados em fatos hediondos e verídicos, onde é possível entender porque o que é ruim vem mesmo do hemisfério norte do planeta. As vítimas são, invariavelmente, crianças e mulheres.

Basta isto para perceber que aqueles filmes ou séries românticas e adocicadas criadas a fim de inventar, para o resto do mundo, uma América que não existe retratam uma enorme e retumbante mentira.

Tirando Nevada, Flórida e Nova Iorque, que são espécies de ‘parques de diversões’ onde residem estrangeiros acreditando viverem nos verdadeiros EUA, o resto é Décadance avec Élégance pura.

Enquanto nosso país se transmuta num depositário de coisas e criaturas ruins, o psicopata da vez, que atende pelo nome de Lázaro Barbosa de Souza, uma fera cruel, sádica e sanguinária, já havia sido preso por diversos crimes. A maioria envolvendo mortes e estupros.

Consta que barbarizava e assassinava pessoas ou famílias inteiras e indefesas, como ‘matador de aluguel’, a serviço de uma quadrilha envolvida em grilagem de terras e especulação imobiliária que age na região do Distrito Federal e no interior de Goiás.

E, falando das vítimas prediletas dessas criaturas abjetas, vou contar uma história cujo registro me foi solicitado (e autorizado). Trata-se de um relato desgraçadamente real.

Ana Luíza foi estuprada aos 18 anos de idade.

No estacionamento da faculdade, no exato momento em que colocava a chave para abrir a porta do carro, dois homens a agarraram e a arrastaram para uma mata próxima onde, com uma arma na cabeça, foi violentada. Do mesmo modo que tantas outras mulheres desamparadas, ela voltou para casa em silêncio, passou a noite embaixo do chuveiro vomitando e chorando enquanto sua família dormia nos cômodos ao lado.

Só não conseguiu esconder o fato – conforme decidira – porque a mãe percebeu, logo cedo, suas escoriações e seu choro descontrolado. Esta, imediatamente juntou a família e todos a acompanharam até a delegacia mais próxima.

Precisou suportar os olhares desconfiados de policiais e delegado e passou pelo exame de corpo de delito vexatório enquanto seu noivo era avisado. Todos os que lhe atenderam eram homens. Isso ocorreu há mais de 20 anos.

Por ter se somado a outros casos na mesma região registrados, os criminosos logo foram capturados. Haviam feito mais de 20 vítimas em poucos meses, apesar de só existirem cinco boletins de ocorrência registrados.

A vida de Ana Luíza jamais voltou a ser mesma.

Deixou a faculdade por não ter superado o pavor de frequentar o local, seu noivo a abandonou alegando não suportar conviver com aquilo e ela compreendeu que ele sempre a culparia por estar naquele lugar trajando aquele vestido, como também nunca mais a olharia da mesma forma que olhava.

Era como se ela tivesse sido maculada por vontade própria.

Aquele olhar que ele passaria a lhe dirigir seria, para sempre, uma facada em seu coração dilacerado.

Talvez por conta disto, tanto ela quanto a família combinaram esconder de todos os demais familiares e amigos a trágica ocorrência. Como se ela pudesse ser responsabilizada por algo, passaram a viver como se “aquilo” jamais houvesse ocorrido.

Ana desenvolveu síndrome de pânico, experimentou episódios de bulimia que a levaram à anorexia nervosa e, cinco anos depois, foi diagnosticada com câncer do colo de útero que a obrigou a retirá-lo.

Chegou à terapia pelas mãos do atual namorado, um homem que finalmente a olhou de verdade e para quem a tragédia precisava ser encarada de frente, sem medos e com absoluta isenção de culpas.

Hoje Ana Luíza participa de um coletivo focado exatamente nas questões que se referem à violência de gênero. Fala abertamente da selvageria que viveu e identifica, sem temores, os culpados com clareza e coragem.

No Brasil, e sem surpresas, estatísticas oficiais dos órgãos de segurança pública afirmam que os casos de estupro superam os de homicídios dolosos (ou seja, com intenção de matar).

A cada DOZE SEGUNDOS uma mulher sofre algum tipo de violência neste país. E a cada OITO MINUTOS, um estupro acontece.

Estes são dados oficiais que não consideram os casos em que as vítimas morrem ou que, se sobrevivem, não denunciam o crime para ninguém. Ou porque conhecem seu agressor (parentes, amigos ou conhecidos), ou porque são seus parceiros (permanentes ou eventuais) ou, ainda, porque temem pela própria vida e pela de seus familiares.

Escondem, principalmente, porque tem consciência de que, diferente do que acontece com quem pode pagar um bom advogado, sua acusação redundará em mais violência contra si, fora os julgamentos e comentários maldosos que se tornarão seu segundo martírio.

Ademais, carregarão a amarga sensação de que poderiam ter evitado a agressão se tivessem mantido distância; vestissem-se de outra forma; falassem outras coisas; comportassem-se de outra maneira; percebessem o perigo eminente; etc; etc.

Só para lembrar: UMA EM CADA CINCO MULHERES se tornará vítima de estupro ou de tentativa de estupro durante a vida.

Pois bem. Vale, então, anotar em letras garrafais o que vou registrar:

Nada nem ninguém será capaz de impedir que um psicopata de praticar qualquer barbaridade que já tenha premeditado. A única coisa capaz de dificultar sua ação será a consciênciadas vítimas e da sociedade – em obrigá-lo a pagar exemplarmente pelos crimes que cometer. Que não escapará da prisão, ainda que pesem artifícios jurídicos tão comuns num país como o nosso.

Isto posto, passo a descrever outra história (também verdadeira).

A jovem participava, com a amiga e o noivo desta, na organização da casa onde os dois morariam depois do casamento marcado para dali a poucas semanas.  Os três resolveram passar uma noite no local. Lá pelas altas da madrugada, enquanto já dormia, teve seu quarto invadido pelo rapaz que a estuprou sem dar-lhe chance para qualquer defesa.

Estava sozinha e desorientada. Mesmo assim, conseguiu chegar até um hospital onde, depois de atendida, foi aconselhada a procurar uma delegacia – o que fez. Começou aí, a segunda parte do seu inferno.

Chamado para prestar esclarecimentos, o noivo, que era capitão do exército, não só negou como afirmou que quem o perseguia era a amiga de sua noiva que, por sua vez, lhe ofereceu apoio incondicional ajudando-o, inclusive, a plantar provas falsas no quarto onde ocorreu o crime – um pênis de borracha contendo o sêmen do rapaz – na tentativa de configurar fraude à ação da vítima.

Mesmo diante de todos estes horrores, a jovem conseguiu provar em juízo o estupro e o réu foi condenado há sete anos de reclusão. Ainda assim, a noiva escolheu permanecer ao seu lado, afastando-se da amiga, e de todos os demais amigos que resolveram apoiá-la, se prestando a ser, inclusive, testemunha de acusação.

Sim. Muitos amigos ficaram do lado dos noivos e ainda compareceram ao casamento destes que ocorreu poucas semanas antes dele começar a cumprir a pena.

Para aprofundar o drama vivido pela jovem vítima – e que provavelmente a acompanhará vida afora – o namorado desta suicidou-se meses depois do crime.

Hoje, 20 meses depois, ela também enfrenta uma síndrome conhecida como estresse pós-traumático, necessita ser acompanhada a todos os lugares, inclusive banheiros, não consegue trabalhar e nem sair de casa sozinha. Preocupa-se com as roupas que usa questionando-se se não estão passando uma impressão errada.

A jovem conta que, durante o julgamento, sentiu-se julgada com questões do tipo: por que estava naquele lugar? Por que dormiu lá? Que roupas usava? Sentia atração pelo noivo da amiga? Inveja dela?

As evidências apresentadas pelo DNA recolhido tanto nela quanto em suas vestes foram provas fulminantes, mas indiferentes para o estuprador e sua parceira que seguiram desqualificando e humilhando a vítima.

Falta ainda muito para que a sociedade brasileira trate de maneira justa as mulheres vítimas destas monstruosidades. Todos os dias. Muitas vezes. Não existem mais desculpas para que estes crimes continuem acontecendo de forma impune na enorme maioria dos casos.

Até quando suportaremos a construção de um país afundado em tamanha violência?

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E, se desejar, envie seus comentários para psicologaheloisalima@gmail.com

Um pensamento sobre “PSICOPATAS ODEIAM MULHERES

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