O SUICÍDIO DE MINHA FILHA (DEPOIMENTO)

Vestiu um ego que não satisfez,
Dramatizou o view da rotina.
Como fosse dádiva divina,
Queria só um pouco de atenção,
Mas encontrou a própria solidão.
Ela era só uma menina
.”

In: Desconstrução – de Tiago Iorc

Numa chuvosa e fria manhã de domingo, há exatos seis anos, minha jovem filha, linda e inteligente, atirou-se de cima de uma ponte em direção à morte.

Horas depois, enquanto pensávamos que ela estaria apenas atrasada na sua corrida matinal, o telefone tocou e meu marido foi atender. Lembro de ouvi-lo explicar que ela não se encontrava e estranhei ele se manter naquela interminável ligação fazendo apenas alguns sons de confirmação.

Passados alguns minutos, e como ele permanecesse em absoluto silêncio, meu coração subitamente se apertou. De um momento para outro tive plena certeza de que minha filha, de apenas 20 anos, estava morta.

Cobri minhas orelhas com as mãos trêmulas e geladas, para não ouvir nada, enquanto percebia meu coração disparar ao mesmo tempo em que sentia meu rosto queimando e minha respiração ofegante.

Comecei a sussurrar frases desconexas sobre Deus mantê-la viva, súplicas para me levar em seu lugar, promessas, pensamentos confusos que desesperadamente tentavam retardar a notícia que eu tinha certeza que iria escutar.

Em poucos segundos, que pareceram intermináveis horas, vi meu marido se aproximar com o rosto lívido e encharcado de lágrimas, balbuciando palavras que não faziam o menor sentido para mim.

Ela caiu‘, ‘acharam o corpo‘, ‘aguardam a perícia‘, ‘reconhecimento‘, ‘bombeiros‘, ‘polícia‘….

Naquele exato momento lembrei-me do seu sorriso lindo – que há muito não avistava – e da sua depressão há anos diagnosticada e que seguia sendo tratada; das vezes em que ela confessava não querer mais viver, além dos incontáveis episódios em que se machucava de propósito. Do quanto ela foi se afastando de todos aqueles que a amavam, incluindo eu, seu pai e sua irmã mais nova.

Nada parecia ter o poder de ajudá-la e nos sentíamos perdidos, angustiados e exaustos por vê-la neste estado.

No sábado ela parecia estar bem, ainda que a medicação, trocada inúmeras vezes, não estivesse funcionando de novo. Me disse que não conseguira dormir e reclamou que as pessoas a ‘perseguiam’. 

No meio daquele pesadelo, nossa filha mais nova retornou às pressas de uma viagem e lembro-me de vê-la em um estado total de desespero. Senti medo por ela. Senti pena de todos nós.

As pessoas ao nosso redor foram gentis e tentaram nos ajudar, mas o fato era que minha filha estava morta e o pensamento dela jogada entre as pedras, sozinha, fria e miserável, era mesmo demais para suportar. Organizaram a papelada do cemitério, o velório, a missa, tudo. Hoje me recordo das cenas como de um filme do qual participei sem sequer estar lá. Uma cópia esvaziada de mim era quem trocava de roupa, recebia abraços, tomava a água insistentemente oferecida e ouvia o padre encomendar uma alma que eu não sabia a quem pertencia.

Lembro-me vagamente de estar sentada ao lado do caixão, desejando poder vê-la, tocá-la, beijá-la e acariciar seu rosto. Acordá-la daquele estranho estado onde ela jamais deveria ter entrado.

A saudade era imensa e, ainda que eu me sentisse tão próxima, não me deixaram abrir o caixão. Todos afirmavam que eu deveria lembrar dela perfeita, muito embora eu não entendesse o significado de ser ‘perfeito’.

Eu finalmente disse adeus à minha menina na segunda-feira, as 10 horas da manhã. E nada mais seria o mesmo a partir daquilo.

Em um instante, todos os nossos sonhos mudaram para sempre. Eu e meu marido, de uma hora para outra, nos vimos sem a garotinha que criávamos para que fosse capaz de desenvolver uma bela e longa existência. Minha outra filha perdeu a única irmã – alguém com quem, certamente, compartilharia muitas experiências de vida. 

Só a tivemos conosco por poucos vinte anos.

Passei os primeiros três meses vasculhando seu celular, seu notebook, seus cadernos, seus papéis, tentando encontrar respostas. Conversei com seus amigos e até simples conhecidos, na esperança de compreender seu sofrimento. Esses esforços ofereceram pouca clareza e realmente não ajudaram. O sentimento de culpa em mim apenas se agravou. 

A verdade é que poucos sabiam que ela sofria de transtorno dismórfico corporal, ansiedade social e depressão.

Como uma família que tentava, de todas as formas, se manter amorosamente unida, acreditávamos ter tudo sob controle, achando que não precisávamos revelar nossas lutas pessoais para ninguém além das nossas paredes.

Tentávamos respeitar os desejos da nossa menina, não contando às demais pessoas sua luta para manter a saúde mental. Porém, sem percebermos, ao guardarmos seu ‘segredo’, acabamos validando seus sentimentos de vergonha. 

Teríamos feito o mesmo se ele tivesse pressão alta, câncer ou alguma doença cardíaca?

A dismorfia corporal é um transtorno psicológico que envolve um olhar excessivamente rigoroso da pessoa em relação ao próprio corpo. Assim, pequenas imperfeições, detalhes que ninguém percebe, tornam-se um fardo. Um pequeno aspecto na aparência resulta algo muito negativo para a autoestima, e isto afeta de forma profunda a vida social, profissional e afetiva daquele ser.

Minha filha se achava extremamente feia. E não adiantava ouvir de todos que era bonita, simpática e querida. Ela se via horrorosa sem, absolutamente, sê-lo.

Havia algo que a incomodava. Acreditava que seus olhos eram separados demais e que sua testa era enorme. Assim, usava franjas que praticamente encobriam seu rosto.

Evidentemente, era isso que saltava aos olhos dos outros. Ou seja: ao camuflar o que ninguém via, ela chamava a atenção justamente sobre aquilo que tentava esconder. Feito um paradoxo vivo, sofria minha filhinha.

Embora não acreditasse, ela era popular, talentosa e amada por seus amigos e familiares. Seu velório foi um dos maiores já vistos na nossa cidade. Sua faculdade, no município vizinho, suspendeu as aulas e todos choraram muito no momento do seu sepultamento.

No entanto, ela se sentia sozinha em suas lutas. E, apesar de nossos esforços fervorosos no sentido de ajudá-la, ela escapou de nossas mãos. Meu marido e eu tivemos que aceitar o resultado mais brutal: não pudemos salvá-la.

No começo eu simplesmente não chorava. Então, dias depois, as lágrimas começaram a surgir involuntariamente e eu me tornei incapaz de controlar onde e quando elas viriam. 

Torrentes passaram a sair dos meus olhos. Eu podia estar na rua, numa loja ou num supermercado e, do nada, começar a chorar, sem me importar com quem me observava ou sobre o que pensariam de mim. 

Apesar da toda nossa agonia, meu marido e eu decidimos não desmoronar. Concordamos que não seria justo com nossa filha sobrevivente nos rendermos inteiramente à dor. Não seria justo conosco, nem com nossos familiares e amigos. 

Então agora, passados seis anos desta nova vida, eu escrevo quase todos os dias

Penso na minha pequena e tento escrever sobre a nossa jornada, um pouquinho de cada vez. Isto tem me ajudado a aliviar os sentimentos que vi serem socados para dentro de mim. Escrevo, sobretudo, para homenageá-la. E escrevo para que aqueles que estejam passando pela mesma situação saibam que não estão sozinhos.

Histórias machucam. Mas também têm o poder de curar. Assim, escrevo por mim, por eles e, principalmente, por Laura, minha amada filha.”

COMENTÁRIOS:

Diante da publicação (autorizada) do depoimento acima:

Se você me perguntar quais os melhores remédios para combater a vontade de morrer? Felicidade, trabalho, solidariedade, prevenção? Como evitar que alguém cometa suicídio? Como antever a barreira prestes a ser atravessada e como parar a caminhada do outro na sua direção?

Eu não seria capaz de fornecer uma única resposta para estas perguntas porque, sinceramente, acredito que o tema suicídio não envolva apenas um caso para ‘especialistas’, mas, sobretudo, o modelo de sociedade onde o humanonão tem seu espaço e onde, como consequência, o individualismo e a indiferença ganharam o lugar de destaque.

Então, por que tantos suicídios?

Pense: quem, honestamente, tem tempo para prestar atenção àquele que não está indo bem no mesmo momento em que está sobrecarregado com uma montanha de problemas? Quem pode ouvir o outro sobre suas dificuldades diante das suas próprias mazelas?

Quem é feliz o suficiente em sua própria vida para dar uma mão a todos aqueles que precisam ser ouvidos?

Desta forma, podemos antever que o problema tende a avançar cada vez mais.

O suicídio não é um ato inútil ou aleatório. Para as pessoas que pensam em acabar com suas próprias vidas, ele representa uma resposta a um problema de alguma forma insolúvel ou uma saída para algum dilema insuportável. É uma escolha que parece ser preferível a outro conjunto de circunstâncias temidas e que envolve muito sofrimento emocional – que a pessoa receia mais do que a própria morte.

Passou da hora de pensarmos sobre os horrores que a nossa sociedade tem produzido. A desesperança redundando em suicídio é, desgraçadamente, um deles. 

Importante lembrar do Centro de Valorização da Vida (CVV), no número 188, para quando precisar de alguém pra conversar e desabafar. De qualquer lugar do Brasil. Gratuito e sigiloso. 24 horas. Todos os dias da semana.

Acompanhe os novos textos através do: http://www.facebook.com/aheloisalima

E, se desejar, envie seus comentários para psicologaheloisalima@gmail.

4 pensamentos sobre “O SUICÍDIO DE MINHA FILHA (DEPOIMENTO)

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