NOSSOS VERDADEIROS INIMIGOS

Imagem Movimento Manifestação 2

“Vamos saber se contaram nossa história certo,
Vamos rever o que existe de nosso passado,
Devemos conhecer nossos heróis de perto
Tentando consertar o que aprendeu-se errado.

Quem foi o herói que libertou o homem,
Foi quem lutou para não passar mais fome.
Quem foi o Herói que libertou o homem,
Foi quem lutou para não passar mais fome.

Talvez alguém não aceite outra versão dos fatos,
Que a fantasia é a mordaça da realidade.
Os ídolos de barro para os insensatos,
E aos verdadeiros homens, homens de verdade.”

In: Guararapes – de Dorival Caymmi

Finalzinho dos anos 70. Eu e os meus 18 anos, cheios de vigor e energia misturados à uma vontade danada de transformar o Brasil num país melhor, de acabar com a miséria que avançava pra todos os lados, de ver todo mundo tendo as mesmas oportunidades na direção de uma vida feliz e produtiva.

Os jornais, as produções culturais, músicas, professores, estudantes, intelectuais, trabalhadores, artistas, enfim, todos os cidadãos brasileiros, enfrentavam um profundo cerceamento de liberdades e viviam sob intensa censura.

Qualquer um que participasse de algum grupo minimamente organizado ou, ainda, ousasse criticar a política naquele momento, era considerado “subversivo” e, para isso, a repressão contava com o apoio das leis erguidas pelo “Estado de Exceção”, que era o contrário de Estado de Direito e onde qualquer indivíduo poderia ser detido em qualquer lugar e ter sua casa invadida e vasculhada sem nenhuma ordem judicial sustentando tal arbitrariedade. O “suspeito” poderia permanecer incomunicável pelo tempo “necessário”. Estas prerrogativas, muitas vezes, permitiam que estes presos fossem torturados das formas mais sórdidas e inimagináveis – até quando seus algozes preferissem – e mortos e enterrados em valas comuns como indigentes.

Portanto, participar de manifestações contra este estado de coisas exigia, além de uma profunda consciência e forte determinação, grande dose da coragem que, afinal, foi e sempre será o combustível fundamental para as transformações pelas quais as sociedades necessitam passar para avançar a fim de dirimir as diferenças sociais, suprimir as terríveis injustiças e tentar buscar um mínimo da felicidade que, via de regra, só vemos usufruídas por uma minoria ou assistindo a filmes ou telenovelas.

Mas versava eu sobre meus 18 anos e minha convicção de que um mundo melhor, assim como uma vida mais expressiva, não se ganhava de mão beijada.

Soninha foi uma das minhas melhores amigas no primeiro ano de faculdade. Era uma figura sorridente, simpática e muito inteligente. Participava do centro acadêmico e ajudou na formação de vários núcleos, como jornal, música e teatro.

Eu era a única amiga a quem confiara um segredo que, naquela altura, tornara-se difícil de lidar: seu pai era policial militar.

Eles não se falavam há muitos meses. Na verdade, desde que ela ingressara na Universidade de São Paulo, onde estudávamos. Ela dizia que ambos permaneciam muito tempo fora de casa. Ele, no trabalho que lhe consumia muitas horas do dia. Ela, entre o emprego e o curso noturno de História.

E me contou que, através da mãe, soubera que o pai e os seus companheiros de farda eram obrigados, muitas vezes, a passarem horas assistindo a vídeos dentro do quartel, onde os estudantes eram apresentados como ‘comunistas desocupados’ que queriam destruir a sociedade e as famílias e que, assim que assumissem o poder, destruiriam todas as instituições – dentre elas, a polícia.

Dizia também que tais ‘ensinamentos’ eram acompanhados de exigências sobre-humanas de vigílias constantes e ininterruptas. Contava que o pai tivera que passar três dias sem dormir por conta da imposição de exercícios extras e exaustivos.

Estavam todos prontos para enfrentar um inimigo numa guerra que, provavelmente, sequer lhes era dado entender.

Ao ouvir tais relatos tive a nítida impressão de que aqueles homens, vítimas flagrantes de uma espécie de lavagem cerebral, experimentavam algo muito parecido com o que viviam as vítimas de guerra carregando seus profundos traumas.

No dia 15 de julho de 1977, decretado pelos movimentos sociais como o Dia Nacional de Lutas, dezenas de milhares de estudantes e trabalhadores saíram às ruas numa imensa manifestação organizada e surpreendente. Iniciou-se no Largo São Francisco, diante da faculdade de direito, dias antes declarado “Território Livre” pelo Diretório Central dos Estudantes. Dali, seguiu-se o enorme cortejo que, seguindo uma voz ao megafone, lia uma carta aberta à população. Um coro imenso que encobria, a cada frase repetida de maneira afinada, o silêncio que se fez no centro da cidade. O mundo parecia nos ouvir.

Assim seguíamos eu, um grupo de amigos que incluía a Soninha, e toda aquela massa de gente cheia de esperança, em direção ao Viaduto do Chá quando, inesperadamente, o cordão policial que acompanhava toda a passeata iniciou um ataque maciço com cassetetes, ao mesmo tempo em que a polícia montada seguia com seus cavalos pisando em todos que tentavam seguir em frente.

À medida em que corríamos apavorados, procurei por minha amiga até que, de repente, a vi parada diante de um policial que segurava o cassetete em posição de ataque.

A estranheza residia justamente no fato de a cena parecer paralisada no tempo e no espaço. Ela e o policial se olhavam incrédulos ao mesmo tempo em que todos corriam à sua volta. Um filme cujos personagens centrais permaneciam imóveis como que congelados enquanto a vida ao redor prosseguia indiferente.

Aproximei-me a tempo de ver lágrimas correndo pelo rosto de ambos. O momento durou alguns poucos segundos, mas foi capaz de me marcar para sempre.

Soninha, pálida, segurou no braço do policial e abaixando-o com raiva e força gritou “-Pai!”. O homem curvou-se rapidamente, recolheu seu instrumento de trabalho, virou-se no sentido oposto ao fluxo e sumiu em meio à multidão.

Minha amiga já estava aos prantos. Olhou-me desolada, virou-se para o outro lado e também desapareceu no meio da fumaça das bombas de gás lacrimogêneo lançadas.

Nunca mais vimos nossa amiga. Soubemos que naquela mesma semana trancara a matrícula na faculdade e, anos depois, descobri que mudara de cidade.

Não sei se terei a sorte de ser lida pela Soninha. Muito tempo passou, muitas coisas certamente mudaram em nossas vidas. Jamais contei seu segredo pra ninguém, minha amiga querida. Durante meses nossos colegas tentaram encontrá-la, ligaram para a sua casa e sua mãe só informava que você havia viajado para longe.

Não sei quão distante foi sua viagem. Mas sei que foi o suficiente para afastá-las de seus amigos e de seus projetos e lindos planos.

Faltou para você e para seu pai, quem sabe, entenderem a dimensão cruel daquele momento.

Faltou, talvez, entenderem que estavam do mesmo lado.

Porque, no fundo, existem aspectos sombrios nesta luta tantas vezes cega e alucinada.

O inimigo estava, e ainda permanece, bem longe de vocês e da gente. Como o intangível, desumano e pérfido antagonista que jamais aparece na cena da batalha.

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