SOBRE SE DEIXAR CUIDAR

Imagem Movimento Cuidar 1

“Medo de ter, medo de perder.
Cada um tem os seus
E todos tem alguns.
Suando frio, as mãos geladas,
Coração dispara até sufocar.

Só tememos por nós mesmos
Ou por aqueles que amamos.
Homem que nada teme
É homem que nada ama.”

In: Medo – de Pitty 

Ver a imagem do jovem prefeito Bruno Covas, nos últimos (muitos) meses, sempre me provocava algum tipo de comoção. Independente de qualquer questão política, eu não podia deixar de imaginar seu sofrimento e, ao mesmo tempo, sua aparente indisponibilidade para viver sua dor de maneira plena. É bastante possível que tenha aprendido a agir assim com o próprio avô, Mário Covas, cuja trajetória certamente o inspirou.

Era possível perceber ali uma espécie de incapacidade de conceber o direito de cuidar de si próprio com mais desvelo, com aquela imprescindível dose de ‘egoísmo’ que todos precisamos quando decidimos olhar para nossas próprias necessidades – esquecendo todas as demais demandas, ainda que diante das expectativas que se erguem feito muro – sobre o que devemos ou não devemos fazer.

Sua experiência remontou a do seu avô, que também faleceu por conta do câncer, pouco depois de ter se licenciado do cargo de governador do Estado de São Paulo – mesmo estado cuja prefeitura seu neto, anos mais tarde, assumiu.

Mas reside aqui uma diferença brutal. O avô e mentor faleceu aos 71 anos, em 2001. Bruno Covas acaba de falecer, aos 41 anos de idade.

Quantas vezes perguntei, dentro dos meus pensamentos, por que é que ninguém insistiu para aquele moço parar, silenciando o barulho insistente e insano que o meio político costuma emitir?

Por que ninguém o impediu de seguir adiante quando todos os sinais revelavam que ele não estava bem, que algo ali se encontrava definitivamente errado?

Como assim, perder os pelos do corpo, emagrecer mantendo o semblante triste e abatido e, ainda assim, deixar-se exposto ao vivo e a cores, todo o santo dia, em rede nacional?

Nenhum parente ou amigo enxergou ali o iminente desastre?

Como permitiram que este triste desfecho anunciado fosse concluído de forma tão desumanamente pública?

Puxando pela memória, lembrei de Sérgio Motta, ministro das comunicações que, em 1998, vítima de uma grave infecção pulmonar, impressionava o país andando para cima e para baixo com seu próprio equipamento de oxigênio, enquanto trabalhava ou dava entrevistas. Era um grande amigo da família Covas. Faleceu pouco tempo depois.

Da mesma forma, ninguém conseguiu fazê-lo enxergar a urgência de parar tudo para ser cuidada?

O que faria esses homens inteligentes, donos de uma boa dose de conhecimento e experiência, agirem assim, como se acreditassem ser meras máquinas?

Parece tratar-se de uma síndrome muito presente em pessoas reconhecidas como fortes e poderosas, sejam elas famosas, públicas ou não.

Por isso, chama muito atenção o fato de quantas delas, especialmente as que possuem um verdadeiro horror de parecerem vulneráveis, tentam comprovar uma capacidade sobre-humana diante dos reveses da vida. 

Perdi uma querida amiga assim, há poucos anos atrás. Alguns meses antes de falecer, já combalida por uma doença que preferiu esconder daqueles que lhe eram próximos, me escreveu pedindo desculpas pelo seu distanciamento.

Era como se a dor não fosse dela. Nem suas trágicas vicissitudes. Guardou de todos os graves percalços – até que não foi mais possível esconder.

Demonstrando confiança e otimismo extremados, penso que ela perdeu uma grande oportunidade de aquietar seu coração e buscar, sem medos, o cuidado que tanto precisava, dentro do momento profundo e precioso que é no qual se desvela o temor mais íntimo e solitário que alguém pode experimentar: a possibilidade de morrer e de, finalmente, entender-se existencialmente solitário. Como somos todos no final.

Sua bela figura que, aviltada pelos processos quimioterápicos – ainda que camuflados sob seu lindo e cativante sorriso além de sua potente racionalização – parecia tentar sustentar a aparência de uma força que, provavelmente, já se esvaia.

Esta doída impressão me fez recordar a história de uma famosa ex-modelo e atriz que durante sua luta contra o câncer, que durou quase três anos, gravou alguns programas que apresentava para que seu público ‘não percebesse’ sua ausência.

Ainda que já experimentasse uma série de manifestações da doença, incluindo as físicas, ela aparentemente nunca foi aconselhada a abandonar esta frágil representação de si mesma. Sua doença era tão patente que apenas isto já teria sido o suficiente para que fosse desaconselhada a permanecer numa tarefa desta complexidade.

Mas ninguém a ajudou. E, assim, ela morreu como se a morte não fosse dela.

Tive, também, vários pacientes que ficavam verdadeiramente mortificados quando, por exemplo, sofriam um acidente que, de alguma forma, os incapacitava. Sentiam vergonha da fragilidade (passageira ou duradoura) que os acometia e faziam absolutamente tudo para esconder a angústia de sentirem-se um ‘peso’ que necessitava de cuidados alheios.

Outra paciente, ao descobrir um câncer no seio, decidiu rapidamente retirá-lo e, em menos de 20 dias, o fez. Porque ‘não tinha tempo para desperdiçar’, ‘tinha muito o que fazer’, ‘filhos e marido para cuidar’, tentava explicar. Tão rápido que quase ninguém soube ou acompanhou o episódio. Tirou o tumor, mas não resolveu o conflito de base que, evidentemente, desembocou em problemas mais complexos e dramáticos que, ainda hoje, passados muitos anos, busca tratar.

A pior coisa que fazemos com nossas vidas não é camuflarmos o que temos de ‘ruim’, mas, principalmente, escondermos tudo o que de bom trazemos e que também é feito de dor, de medos, de ternura, de generosidade, arrebatamento, de aflições, de carinho e amor.

Se minha amiga tivesse exercido o direito de sentir a dor e o medo que experimentou; se não tivesse temido julgamentos acerca do que percebia como ‘fraqueza’; se não se preocupasse com nada disto, quem sabe, não teria partido de uma maneira mais serena? Com menos sofrimento e dor?

Se a atriz tivesse mandado tudo às favas enquanto tratava de ser simplesmente feliz? E se o ministro tivesse largados suas ‘obrigações’ escolhendo morrer num leito cercado de paz, placidamente deitado e próximo dos seus? Com alguma sorte, reconfortado por gratas memórias?

E se o prefeito tivesse largado tudo para tratar da própria saúde, longe dos olhares vorazes e pouco amorosos de um público mordaz?

Se todos reconhecessem em si próprios a necessidade de serem percebidos e compreendidos em sua mais pura e verdadeira dimensão, certamente teriam ajudado os demais a prestarem o socorro que tanto necessitavam.

Porque não há solidão maior do que aquela representada pela renúncia revelada no momento em que não nos deixamos tocar pelo que nos fere ou aflige.

E o que a força não pode, a fragilidade pode. Posto ser ela uma presença que não ameaça ninguém. E só desativando as reações de medo e de desconfiança é que poderemos nos ligar e nos conectar com o mundo e com nós mesmos.

Para saber como ser vulnerável basta não ocultar o medo e ter coragem de pedir ajuda. E atingir tal plenitude é um dos principais fatores capazes de nos tornar mais resistentes e fortes. Prontos para viver plenamente. E para morrer.

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