NÃO TEMOS TEMPO PRA TEMER

Imagem Movimento Balões 2

“Segue o teu caminho, minha caravela,
Vai por outros mares, outras terras.
Eu sou marinheiro e revirei o mundo,
Pra descobrir o exílio no coração.

Pelos sete mares enfrentei quimeras,
Mas não sei domar as minhas feras.
Fui sem oriente no rumo de outras Índias,
Perdido nas neblinas da ilusão.”

In: Caravelas de Egberto Gismonti e Geraldo Carneiro

 

Algum dia você vai relembrar alguma passagem de sua vida e, inevitavelmente, pensará num bocado de coisas que poderia ter feito e não fez e na outra porção de atitudes das quais, sem pestanejar, abriria mão – mas que ali, no calor do instante, escolheu adotar.

Sem titubear, reescreveria cada sentença e ensaiaria à exaustão cada gesto para que o enredo, enfim, saísse perfeito. Irretocável, talvez.

Só que não.

Reedições são permitidas apenas para as coisas que se pretendem imortais como livros, filmes, peças de teatro, obras de arte, edificações e algumas coisas mais.

Logo, para aqueles momentos em que você tanto se lamentou, sentindo o coração estilhaçado em fragmentos tão minúsculos que fizeram você, resignada, olhar ao redor e pensar: ‘como é que vou juntar todos estes caquinhos? Não tem cola que dê conta! ’ – para estes, tenho uma fórmula simples e infalível:

Interrompa o fluxo dos pensamentos repetitivos. Paralise o gesto reincidente. Feche a boca, respire fundo, acalme o coração e faça um silêncio sepulcral.

E, então, ouça suas vozes mais legítimas. Seus mais íntimos anseios.

Quem sabe, ali, naquele espaço cômodo e conhecido, você descubra que buscar novas opções – o que todos, querendo ou não, fazemos a cada passo que trilhamos – faz parte da nossa busca dirigida contra o medo do desconhecido e é milhões de vezes mais edificante e prazeroso do que a repetição cravada na velha monotonia que muito bem imprimimos na rotina do trabalho, nas relações pessoais, nos contatos amorosos, e em tantas coisas que perdemos a conta.

Afinal, quem duvida da razão pela qual a invariabilidade do tédio nos seja (sempre) muito familiar?

Na quietude talvez você perceba que tudo aquilo que você tenazmente defende é nada mais, nada menos – do que as grades da prisão que lhe dá a garantia de que vive do jeito “que esperam que viva” – e não da maneira que realmente gostaria.

A essência e a plenitude da vida residem justamente no vigor retirado da nossa energia vital somada à capacidade de (re) inventar planos e projetos – passos de dança que desejamos aprender para, assim, executarmos uma nova e bela coreografia.

Viver é aventurar-se e arriscar-se. É saltar de um trampolim e pairar no ar. No vazio.

É parar de lutar contra o que mais desejamos, fazendo coisas que nos tornam infelizes para que tudo permaneça como está. Rígido e imutável. Como se esta paralisia não fosse o pior sintoma da nossa mais clara e dolorosa doença física e mental.

Uma boa alternativa? Fazer as escolhas que nos tornem mais satisfeitos e conseguir permanecer em paz com elas. Uma paz que seja possível enxergar do outro lado do oceano, feito uma luz que brilha resplandecente e vigorosa para ser vista por todos. Pública e desavergonhadamente.

Sim! Eu fiz a escolha que podia e a qual fiz jus. Naquela altura, naquele tempo, sob aquela luz que me foi dada, naquelas frágeis ou robustas condições.

Fiz e pronto. Não me arrependo. Defini caminhar naquela direção porque me indicava a melhor saída – ou a melhor entrada. Determinei minhas perguntas e obtive minhas respostas; designei meus sacrifícios e meus campos de batalha, ciente de que arriscava minha paz tão efêmera quanto duvidosa era minha segurança.

N’outra hora troquei de banda e desfiz todos os laços dados. Mudei de perspectiva para experimentar como era ver o sol nascer de outro lado.

Vivi a felicidade que pude no tempo em que foi possível viver. E agora sei que não só posso como preciso encontrar outras felicidades possíveis, distantes da velha miragem que insistem em me apresentar como a única e previsível saída.

É preciso dizer adeus às coisas que não nos fazem mais bem tanto quanto imprescindível se torna nos mantermos fiéis a esta decisão!

Porque, a verdadeira ‘missão’ de muitos sentimentos que experimentamos é, no fundo, destroçar nosso ego e nos apresentar aos nossos verdadeiros limites, fragmentando, desta forma, tantos sofrimentos inúteis para que, entre suas minúsculas partículas, uma nova e poderosa luz possa ser experienciada.

Este é o ‘compromisso’ da maioria dos eventos da nossa vida. Preparar-nos para os que se seguem até que estejamos de tal forma calejados que nenhuma dor, por mais abissal que pareça, seja capaz de dizimar nossas forças ou esvaziar nossa vitalidade.

Portanto, preste atenção: algumas pessoas que passam por nossas vidas, alguns acontecimentos que nos marcam feito ferro quente, algumas histórias que nos prendem a atenção como num exercício de hipnose, todos eles só nos alcançaram para nos revelar algo de dentro de nós mesmos; alguma coisa que até ali desconhecíamos.

Por isso estes eventos nos tocaram num lugar profundo, muito mais íntimo do que imaginávamos ser.

E é pra isso que estes fenômenos ocorrem. Não tem mais função alguma, por mais que você tente enganar-se.

Desta forma, e rapidamente, deixe-os ir embora. Não atrapalhe o fluxo da vida e, assim, ajude-os a seguir adiante. Como você deve fazer.

Procure não temer a dor da perda, porque ela é inevitável. A dor da solidão? Idem, idem…. quem não teme? Mas, cá entre nós e essas letras embaralhadas que ora produzo, você de fato acredita que não está sozinho apenas porque está acompanhada neste ou naquele momento? Porque está casado e tem filhos? Vive rodeado de parentes e amigos?

Tenho uma amiga querida que vivia deste jeito. Ou assim preferia crer, não sei. Cercada de pessoas e de um aparente afeto. Até que quebrou os dois braços ao mesmo tempo (verdade, escorregou em uma cachoeira acompanhada do seu enorme rol de amigos!).

Em poucos dias conheceu o desterro da solidão e do abandono emocional.

Descobriu, a duras penas, que aquele grupo de “conhecidos” ali estava apenas para dividir os momentos leves e divertidos.

Na dor, viu-se sozinha.

Mas aprendeu que este, sem dúvida nenhuma, poderia ser este o seu melhor caminho. Esvaziou-se de seus doentios anseios na procura por controle e segurança e abriu espaço para que os valores mais verdadeiros entrassem naquela sala que se encontrava vazia.

E você vai aprender que: aquele emprego magnífico, que você tanto sonhou e que se transformou numa prisão insuportavelmente fria; o grande amor que se anunciou com sinos e trombetas, despertando em você cores antes adormecidas, mas trincou-se logo no primeiro conflito; a amiga terna, sua melhor confidente, que mostrou sua face sombria até então encoberta, são faces de uma mesma e desvalorizada moeda da qual você pode abrir mão sem pena.

Afinal, a vida encontra-se repleta de chances e de oportunidades de mudanças plenas. Aventure-se nelas. Porque ninguém pode afirmar que teremos outras chances. Ou vidas.

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