MEDO DE VERTIGEM, QUEM NÃO TEM?

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“Procurando bem
Todo mundo tem pereba,
Marca de bexiga ou vacina;
E tem piriri, tem lombriga, tem ameba,
Só a bailarina que não tem…

Nem unha encardida,
Nem dente com comida,
Nem casca de ferida
Ela não tem…”

In: Ciranda da Bailarina – de Edu Lobo

Há algum tempo causou certo furor uma notícia dando conta de que uma famosa modelo brasileira transmutara-se em muçulmana para entrar em um hospital onde, tudo indica, realizaria uma operação plástica.

Mas, afinal, o que levaria uma mulher, ainda jovem e bonita, resolver disfarçar-se para fazer aquilo que: 1º. Pode fazer; 2º. Deseja fazer; 3º. Pode pagar para fazer; 4º. Não tem nada que a impeça de fazer e 5º. Ninguém daria a mínima se fizesse porque existem trilhões de coisas muito mais importantes acontecendo no mundo do que a bobagem que ela tanto tenta esconder?

Esta última questão nos provoca, certamente, uma outra reflexão: de que tipo de massa cinzenta é formado o cérebro dessa gente que se julga, assim, tão especial?

Por acaso esta mulher nunca vai ao banheiro? Nunca teve uma simples e usual diarreia? Jamais soltou um mísero pum? Nunca tirou caca do nariz numa praia deserta? Ou dentro do elevador vazio? Não tem medos? Jamais sofreu traumas? Não sente raiva ou rancor?

Quem nunca se achou burro ou se sentiu inseguro? Quem nunca fez idiotices? Quem não vai envelhecer e tornar-se menos bonito? Ficar mais gordo, lotado de estrias, celulites e rugas por todo cantor? E quem é que nunca vai ficar flácido ou com muito menos cabelos?

Ah. É verdade. Parece que temos, espalhados por aí, uns zumbis que se dizem pessoas perfeitas que vivem suas vidas perfeitas dentro de famílias perfeitas. Mesmo sabendo que não passam de mentiras ambulantes, essas criaturas adoram propagar (através das revistas idiotas que devem ser lidas em consultórios médicos e salão de cabeleireiros, se você não tiver um livro qualquer para levar) aquilo que não são e se esquecem do mal que causam aos seus “seguidores”.

São pura mentira, efeito propaganda de uma vida que não existe, mas que é inventada para que você sinta inveja da mesma forma como pense que experimenta uma vida sem graça dentro da sua simplicidade e da sua maravilhosa humanidade.

O dinheiro não torna ninguém imortal. Nem a “fama”, por certo. Nada garante para pessoa alguma o tal do reino dos céus.

Nesta mesma medida, a atriz famosa que neste final de semana revelou a solidão e o desamparo que viveu – e ainda vive – desde que ficou doente e chegou a passar quatro anos trancada dentro do seu apartamento – é obrigada a assistir a reprise do seriado do qual fez parte – e onde interpretou uma engraçada faxineira – dar lucros aos seus antigos patrões que, aparentemente, não dão a menor bola para seus atuais problemas.

Parece bastante emblemático que a televisão apague a imagem humana e falível da protagonista para reascender sua personagem meio idiota que brinca com a vida sem se dar conta das próprias mazelas.

E que sociedade desumana não adora quando suas vítimas riem da própria desgraça fazendo muito samba e tomando litros de cachaça?

Portanto, à modelo que coloca uma burca à la Michael Jackson para esconder, do restante dos simples seres mortais, que pratica atos absolutamente normais – na ânsia de continuar parecendo um ser “sobre/supra/super/hiper humano” – um recado:

Zilda Arns, irmã de Dom Paulo Evaristo Arns, era médica, pediatra e sanitarista e dedicou sua vida coordenando, mundo afora, a Pastoral da Criança e da Pastoral da Pessoa Idosa, chegando a ser eleita a 17ª pessoa (por suas atividades humanitárias) mais importante do mundo. Muitas pessoas só ficaram sabendo de sua existência no momento da tragédia de sua morte – durante uma missão humanitária no Haiti quando foi alcançada por um terremoto enquanto andava pelas ruas de Porto Príncipe. Sua realeza residia justamente no fato de jamais ter desejado ser alguém especial. Via os outros humanos como iguais a si. E, por isso, sabia colocar-se no lugar do outro e da sua dor.

Dorina de Gouvêa Nowil, nasceu em São Paulo no dia 28 de maio de 1919 e ficou cega aos 17 anos. Em 1946, dez anos depois, criou a Fundação para o Livro do Cego no Brasil. Foi a primeira aluna cega a frequentar uma escola regular e, desta forma, colaborou com a regulamentação da lei de Integração Escolar. Criou uma imprensa braile, ajudou a criar diversos serviços de educação para cegos em todo o país, incluindo universidades, assim como cooperou para abertura de vagas e encaminhamentos para pessoas com deficiência dentro do mercado de trabalho brasileiro. E, o que é o mais importante, criou a Fundação Dorina Nowill – referência mundial no apoio às pessoas portadoras de deficiência visual.

Existem outros milhares de centenas de exemplos de seres humanos incríveis por aí. A maioria anônima que não deseja mesmo nenhuma visibilidade.

Portanto: mirem-se nos exemplos destas belas, relevantes e realmente importantes mulheres. E deixem de frescura!

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