A INSANIDADE ASSOLA O PAÍS

Imagem Movimento Misoginia 2

“O movimento começou, o lixo fede nas calçadas.
Todo mundo circulando, as avenidas congestionadas.
O dia terminou, a violência continua.
Todo mundo provocando todo mundo nas ruas.
A violência está em todo lugar.
Não é por causa do álcool,
Nem é por causa das drogas.
A violência é nossa vizinha,
Não é só por culpa sua,
Nem é só por culpa minha”.

In: Violência – de Titãs

É praticamente certo que o pequeno e indefeso Henry Borel, de 4 aninhos de idade, tenha sido assassinado pelo namorado da mãe durante uma inominável sessão de tortura.

Logo após sua prisão (junto à mãe de Henry, também suspeita), foram reveladas várias histórias envolvendo ataques deste mesmo indivíduo contra outras crianças e mulheres.

De onde saem estas verdadeiras bestas-feras desprovidas de humanidade e compaixão? Criaturas perversas provindas dos esgotos de onde jamais deveriam ter o direito de sair?

A desumanidade é astuta. E quando atinge mulheres e crianças, é ainda mais devastadora.

Todos os dias, cerca de 243 casos de tortura ou agressão física e psicológica contra menores de idade são notificados no Brasil. Somam mais de 10 vítimas a cada hora. Para especialistas, esse número representa apenas a ponta de um iceberg de violência contra nossas crianças.

Muitas vezes a tortura pode não deixar cicatrizes físicas, mas o corpo se torna o recipiente de um ser destruído cuja alma ficará marcada por incontáveis ​​feridas. 

E não se engane. Por fora você poderá ver uma pessoa inteira, mas que, por dentro, carregará sob escombros seus cristais quebrados e sua carne dilacerada.

A cada ONZE SEGUNDOS uma mulher sofre algum tipo de violência neste país.

E estes todos são dados oficiais. Não consideram os casos em que as vítimas morrem ou, se sobrevivem, não contam o crime para ninguém – ou porque conhecem seu agressor (parentes, amigos e conhecidos) ou porque são seus parceiros (permanentes ou eventuais) ou, ainda, porque temem pela própria vida e pela de seus familiares. Consta que apenas 35% dos casos reais são reportados como crimes.

Muitas crianças e mulheres escondem seu martírio, principalmente, porque tem consciência de que sua acusação poderá redundar em mais violência contra si, fora os julgamentos e comentários maldosos que se tornarão seu segundo suplício.

Ademais, carregarão a amarga sensação de que poderiam ter evitado a agressão se: tivessem mantido distância; vestissem-se de outra forma; falassem outras coisas; comportassem-se de outra maneira; percebessem o perigo eminente; etc. etc.

Só para lembrar: a ONU afirma que UMA EM CADA CINCO MULHERES se tornará vítima de estupro ou de tentativa de estupro durante a vida. Enquanto que, por ano, mais de um bilhão de crianças serão vítimas de violência por parte de adultos.

Os sobreviventes, muitas vezes, se verão totalmente alienados de tudo e de todos aqueles que conheciam. Para esses homens, mulheres e crianças, descrever as desumanidades que lhes atingiram não só é difícil como também pode ser inutilmente doloroso, se as outras pessoas que lhe ouvirem não forem receptivas, confiáveis ou não estiverem dispostas a acolher e compartilhar o fardo de tamanho sofrimento. 

Nada é mais doloroso do que confiar em alguém e, ao contar sua história, descobrir a indiferença do outro lado.

Pois bem. Vale, então, anotar em letras garrafais o que vou, a seguir, registrar:

Nada ou ninguém terá condições de impedir um criminoso de praticar qualquer barbaridade que já tenha premeditado, se a sociedade continuar fornecendo espaço para tanto.

A única coisa capaz de refrear este tipo de ação será a consciência coletiva (alcançando todos os gêneros) de que a banalização da violência hoje é um fato concreto em nosso país.

A violência é reproduzida seja condenando a vítima, seja se alienando da experiência como se ela fosse algo simplesmente ‘estranho’. Conceber tal selvageria como apenas um ‘ponto fora da curva’ ou uma ação ‘fora da normalidade’ é negar a responsabilidade social que nos cabe diante da violência que permitimos dentro de nossas próprias vivências.

Logo, por detrás de quem ataca a criança ou a mulher martirizada duvidando de sua versão, colocando sob suspeita seus hábitos e suas condutas ou, ainda, defendendo o violador encontra-se um violador em potencial.

Muitos daqueles que ouvi, ainda que anos depois de sofrerem abusos, permanecem até hoje enfrentando a síndrome conhecida como estresse pós-traumático. Vários ainda necessitam ser acompanhados a todos os lugares, inclusive banheiros, e não conseguem trabalhar e nem sair de casa sozinhos. Preocupam-se de maneira intensiva com as roupas que usam e com seis próprios modos, questionando-se sempre se não estão passando uma ‘impressão errada’.

Todos também relatam que, quando decidem denunciar, durante os depoimentos e/ou julgamentos, sentem-se julgados por questões do tipo: Por que permaneceu naquele lugar? Por que não fugiu de lá? Que roupas usava? Sentia atração pelo(s) acusado(s)?

Mesmo as evidências apresentadas por DNA, reconhecidas como prova fulminante, parecem indiferentes tanto aos olhos do violador quanto para os detratores das vítimas uma vez que seguem, muitas vezes, desqualificando-as e humilhando-as.

Falta ainda muito para que a sociedade brasileira trate de maneira correta as vítimas destas monstruosidades. Todos os dias. Muitas vezes. Não existem mais desculpas para que estes crimes continuem acontecendo de forma impune na enorme maioria dos casos.

Basta! Até onde iremos com tamanha insanidade?

Acompanhe os novos textos através do: http://www.facebook.com/aheloisalima

E, se desejar, envie seus comentários para psicologaheloisalima@gmail.com

Um pensamento sobre “A INSANIDADE ASSOLA O PAÍS

  1. Pingback: – A Síndrome da Vítima Eterna. | DISCUTINDO CONTEMPORANEIDADES

Deixe seu comentário...

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s