JUSTIÇA PARA HENRY BOREL

Henri Borel

“Eu que tenho medo até de suas mãos…
Mas o ódio cega e você não percebe,
Mas o ódio cega.

E eu que tenho medo até do seu olhar…
Mas o ódio cega e você não percebe,
Mas o ódio cega.

A lembrança do silêncio daquelas tardes…
Daquelas tardes.
A vergonha do espelho naquelas marcas…
Naquelas marcas.
Havia algo de insano naqueles olhos,
Olhos insanos…
Os olhos que passavam o dia a me vigiar, a me vigiar…”

In: Camila, Camila – de Nenhum de Nós

MÃE’ E NAMORADO ACABAM DE SER PRESOS PELO ASSASSINATO DO PEQUENO HENRY (08/04/2021).

Se você quiser machucar uma criança sem deixar marcas, puxe com força aqueles cabelinhos perto do couro cabeludo – é perfeito!”, declarou, diante de um estupefato grupo de colegas, a professora primária e pretensa futura psicóloga da nossa turma de psicologia.

Aquilo que poderia parecer uma brincadeira fora de propósito, nos revelou uma personalidade perigosa e perturbadora.

Pouco tempo depois alguns professores detectaram, ali, traços claros de psicopatia e, com louvor, conseguiram fazê-la desistir de permanecer no curso.

Por muito tempo fiquei imaginando o quanto aquela “professora” poderia continuar traumatizado crianças indefesas com suas agressões criminosas. Talvez tenha feito isto por anos. Talvez nunca tenha sido descoberta, não sei.

O fato é que esta lembrança voltou a me assombrar agora, depois de mais de três décadas.

As pessoas pensam que psicopatas sempre se apresentam como seres frios e desumanos, demostrando claramente suas incapacidades emocionais e empáticas.

O que quase ninguém sabe é que eles se tornam especialistas em parecer genuínos quando fingem sentimentos humanos, sobretudo a empatia. Tais habilidades são aprendidas no decorrer de suas vidas, assim que percebem que a falta de identificação com outras pessoas pode lhes causar grandes problemas.

Aqueles que experimentam traços psicopáticos como crueldade, além de impulsividade e persuasão exageradas, tendem a viver uma vida de fingimentos. E muitos se saem bem nesta empreitada.

Alguns vivem vidas até promissoras (não é à toa que alcançam cargos altíssimos na política e nas empresas, dentre outros, posto serem extremamente frios e calculistas). Isto significa que nem todos os psicopatas se tornarão criminosos e muitos passarão pela vida sem que ninguém saiba o que são. Mas, quer eles acabem causando inconvenientes ou não, não há a menor chance de sua personalidade se transformar.

Então, é sempre bom lembrar que a psicopatia, por ser uma forma de personalidade e não uma doença mental, NÃO TEM CURA e, portanto, nenhum psicopata será capaz de mudar.

O problema, o enorme problema, são justamente os que se veem alimentados e apoiados para serem destrutivos e perversos. Estes, via de regras, vivem em famílias “psicopáticas”.

Pesquisadores descobriram que indivíduos com alta pontuação em medidas de psicopatia reproduzem perfeitamente as manifestações faciais de medo após serem solicitados a imitar um rosto amedrontado.

Estes mesmos sujeitos também se mostram praticamente imbatíveis quando são solicitados a fingir remorso após relatarem um episódio verdadeiro, mas pelo qual não se sentem culpados (embora sejam).

Logo, seres com essas características geralmente são bons em aparentar o que não sentem e o que não são. Mesmo se forem obrigados a frequentar uma terapia, serão capazes de manipular e enganar seus terapeutas.

Entende a dimensão do problema?

Psicopatas não temem punição ou estigmatização social. Não sentem necessidade de se ajustar às normas sociais e as expectativas da sociedade têm impacto ZERO sobre seu comportamento.

Deste jeito, a prática destas criaturas torna-se um mero jogo de enganar, manipular, ferir e destruir vidas.

Causar dor ou aniquilar, sem serem descobertos, torna-se um sádico exercício de prazer e de poder. É quando a perversidade se torna uma atividade fascinante para essa gente. É quando o psicopata mostra sua face mais desumana.

A tragédia envolvendo o garotinho Henry Borel, de 4 anos de idade, que morreu com graves lesões espalhadas pelo seu frágil corpo enquanto esteve aos “cuidados” de sua mãe e do namorado desta – uma figura conhecida como “vereador Jairinho”, envolvido em outras denúncias de agressões contra criancinhas e mulheres – trouxe à tona um dado absolutamente aterrador em nosso país.

A violência doméstica é uma realidade que, além de afetar a todos nós, tem impactos devastadores a curto e médio prazo: no Brasil, a cada DEZ MINUTOS, uma criança é agredida, enquanto a cada DUAS HORAS, uma mulher é assassinada.

Existem muitos mitos sobre o abuso doméstico e suas causas. Mas, o pior deles, envolve a ideia tacanha de que a violência doméstica é um assunto particular da família que a sofre, e não uma questão social.

A violência e o abuso contra mulheres e crianças se expandem exatamente por conta da frequência com que as denúncias são desqualificadas, principalmente se o agressor, além de psicopata, for “bem relacionado”.

Quando grande parte destes abusos são revelados, a maioria das pessoas ainda considera que sejam questionáveis ou irrelevantes, por mais absurdo que isto possa parecer.

Por conta disto, é bastante provável que as vítimas escondam de todos, e até dos amigos mais próximos, as ‘pequenas’ e cotidianas brutalidades que elas e seus filhos sofrem.

Para a mulher, de maneira geral, persiste ainda a ideia romântica de que aquele homem com o qual namora ou com quem se casou, zelará por sua segurança e integridade física e pessoal – independente de quaisquer conflitos. Por isto, muitas vezes, mentem para esconder as marcas das agressões. Sentem vergonha por não serem capazes de, com seu amor, controlar a fúria insana do marido, ou namorado, no qual tanto acreditaram.

Recebo no consultório, há anos, mulheres que se relacionam com tais predadores. Estes, invariavelmente, apresentam-se como homens carismáticos, inteligentes e divertidos. Para o público, mostram sua faceta mais simpática – o que torna a percepção de sua psicopatia ainda mais difícil.

É certo que a mulher leva muito tempo para perceber que aquelas mal disfarçadas manifestações agressivas, assim como as reações desproporcionais do companheiro, fazem parte de um caminho sem volta. Isto porque a violência dos homens se sustenta dentro de um contexto de medo e de controle – que ele próprio criou.

E quando uma esposa/namorada – que desejava estar inserida no que todos esperam ver como casamento/namoro ideal – não deseja revelar suas mazelas, ninguém vai mesmo conseguir avistar qualquer pista.

Não enquanto ela se mantiver cega diante do veneno de uma psique pretensiosa, egoísta, egocêntrica e vaidosa; sem entender que isso pode ser tudo, menos amor. É o ódio que não tolera defeitos, inseguranças ou negações; é aquele que, mesmo sem dar, exige receber sendo o exclusivo e único receptador.

Enquanto não colocarmos os/as sobreviventes deste padrão de ataque no centro das nossas preocupações, a violência doméstica continuará acontecendo todos os dias afetando milhões de mulheres de todas as idades, classes e origens. 

Trata-se de um crime grave e generalizado que minimizamos, toleramos e permitimos, não se engane.

Desta forma, em respeito ao pequeno Henry, cabe-nos perguntar:

Quantos filhos ou enteados vão continuam sendo agredidos ou sendo sexualmente abusados por pais, mães ou padrastos/madrastas, acobertados pela fantasia de que “família é o lugar mais seguro do mundo”?

JUSTIÇA PARA HENRY BOREL!

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Um pensamento sobre “JUSTIÇA PARA HENRY BOREL

  1. Indignado, é como me sinto, em relação ao assassinato do indefeso Henri. E quantos outros casos estão acontecendo agora! Revoltante isso.

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