FAMÍLIAS DESTRUTIVAS (DEPOIMENTO)

Imagem Movimento Sol se Pondo 2

“Quando não houver saída,
Quando não houver mais solução,
Ainda há de haver saída.
Nenhuma ideia vale uma vida .
Quando não houver esperança,
Quando não restar nem ilusão,
Ainda há de haver esperança.
Em cada um de nós, algo de uma criança.”

In: Enquanto Houver Sol – de Sérgio Britto

Este post se impôs diante da verdadeira tragédia que envolveu mais uma criança brasileira o garotinho Henri Borel – morto no esplendor dos seu 4 anos de idade. Com graves ferimentos, incompatíveis com uma queda da cama, como afirma o namorado da mãe de quem ele tinha verdadeiro pavor (fato que fica claríssimo em um simples vídeo mostrando os dois próximos, dentro de um elevador) Henri tornou-se mais uma das milhares de vítimas que, no Brasil, aumentam as odiosas estatísticas que alcançam jovens indefesos diante de verdadeiros psicopatas que se encontram à solta pelo país.

Alguns destes monstros são os próprios pais ou parentes. Outros são “amigos” ou “conhecidos” da família. Todos os casos carregam, em comum, o fato de abusarem da fragilidade e da inocência infantil, além de contarem com o medo e o silêncio de todos os envolvidos.

O depoimento:

Eu sempre detestei as cenas de ‘famílias margarina’, aquelas que mostram uma casa impecável, com todos em volta da mesa, rindo no café da manhã, enquanto falam sobre amenidades, sem nenhum conflito e com filhos sempre limpos e arrumados. 

Afinal, a palavra ‘família’ sempre evocou em mim uma terrível sensação de sofrimento.  Acho que me sentirei eternamente prisioneira deste sentimento.

Hesitei muitas vezes antes de escrever. Minha história vai parecer trivial pra você, mas a mim dói demais. E à minha irmã e à mamãe também.

Para nossos parentes, para nossos amigos e vizinhos, parecíamos uma família feliz e exemplar. Estávamos sempre sorridentes e éramos muito educados e cordiais para ‘fora’.

Nas fotos do Instagram aparecíamos sempre rindo e fazendo coisas legais. Nas viagens familiares, onde nem sequer conversávamos direito, costumávamos parecer alegres e realizados. Assim obrigava meu pai. Assim fingíamos todos nós.

Deve ser por isto que a minha maior tristeza na vida atende pelo nome de ‘pai’. Nunca entendi porque ele foi e continua sendo tão frio e cruel. Quando eu era criança me perguntava: ‘Por que ele não me ama?’ ou ‘O que fiz de errado?’

Vivia ausente de casa por causa do trabalho e, quando chegava, só sabia dar ordens e gritar. Tudo andava sempre errado pra dele. Era e permanece sendo um homem amargo, apesar de aparentar ser um cara bacana e sociável para os que não convivem com ele. Nunca vou entender como duas personalidades tão diferentes podem habitar o mesmo corpo.

Teve sucesso, ganhou muito dinheiro e se realizou na carreira profissional. Na esfera privada, porém, segue como um ser horrível. Minha mãe não aguentava nos ver tão oprimidas (especialmente eu) e agonizantes sob essa autoridade tão perturbadora. Mas, para nosso azar, ela também tinha pavor dele.

Meu pai sempre me deu medo. Além de ser agressivo fisicamente, nos machucava de outras maneiras. E existem muitas formas de se ferir alguém, não é mesmo?

Eu tentei me distanciar dele indo estudar numa escola em outra cidade, longe de casa e morando com uma tia. Não adiantou. O afastamento deveria ter me ajudado. Entretanto, ele mantinha tamanha ascendência sobre mim que podia me fazer chorar à distância, por telefone, sempre com os mesmos tipos de censuras: ‘Você tá saindo muito cara para nós’, ‘Você continua gorda’, ‘A escola que você escolheu é para preguiçosos’, ‘Ser professora primária não vai lhe dar emprego’, ‘Quem quer que resolva ser, o que quer que faça, nada vai se ajustar’. 

‘Você não serve mesmo para nada’, finalmente vaticinou.

Desnecessário dizer que ele nunca expressou estar orgulhoso de mim ou me amar. E eu permaneci aguardando ouvi-lo dizer algo assim.

Parece que nós, filhos, vivemos apenas para ver aquela luz de orgulho nos olhos dos nossos pais. Para sentir que valeu a pena nascermos naquela família e que somos queridos lá. Para saber-nos amados e amparados.

E eu me sentia um peso que despencara no centro da família errada. Nunca houve lugar para mim ali. Nunca haverá.

No fundo, eu percebia que ele jamais mudaria e que este seu comportamento instável e agressivo podia ser resultado de algum trauma sofrido durante a infância. Mas não éramos responsáveis por isto e o fato é que ele jamais tentou se esclarecer ou se curar.

Assim ele destruiu minha autoestima e o resultado é que hoje me vejo como um monstro incapaz de produzir coisas boas. Ninguém pode me tocar. Ninguém consegue se aproximar de mim amorosamente. Não tive qualquer experiência sexual e acredito que jamais desejarei ter.

Tenho impressão de que não alcançarei algum tipo de equilíbrio psicológico. Assim como minha irmã ou minha mãe.

Alguns meses depois de eu ter saído de casa, ela nos contou que está pensando em se separar. Estranhamente, na minha cabeça, tudo desmoronou ainda mais. 

Ela confessou desejar aguardar até que minha irmã mais nova termine seus estudos. Contou saber que, há anos, é traída e humilhada.

Minha família é destrutiva, tóxica e muito infeliz. No entanto, aprendi que seja qual for a família, ela é tudo aquilo que você vai ter e o único grupo com o qual poderá contar na sua vida, ainda que deteste tê-la por perto.

Pensei que, apesar de todos os problemas, minha família se manteria, ainda que longe de mim. É um lugar amedrontador e instável, mas é o único lugar que parecia que eu sempre iria ter, entende?

O divórcio pode afetar qualquer pessoa, a qualquer momento e por qualquer motivo. Nunca imaginei que o medo dele me machucaria tanto. Logo eu que acabo de completar 22 anos de idade e de sofrimento familiar.”

Comentário:

O psicanalista José Ângelo Gaiarsa escreveu um livro chamado “A Família de que se fala e a Família de que se sofre” onde coloca questões ‘incômodas’ acerca deste tema tão pouco (bem) conversado entre todos nós. Aponta que a exigência de transformar a criança em um adulto normopata (como ele chama) arruína as melhores qualidades com as quais nascemos, como a doçura, a curiosidade, a versatilidade e a capacidade de sentir prazer.

Ele diz que por trás dessa ‘educação’ estaria a família atual que, ao contrário do que preferimos acreditar, se encontra muito longe de ser o melhor lugar do mundo para o desenvolvimento dos seres humanos. Desta forma, propõe que tenhamos coragem de produzir novas reflexões críticas acerca desta família na qual, na verdade, tantos padecem enquanto fingem não sofrer.

Posso afirmar que minha experiência clínica revela que praticamente 100% das queixas e das fontes de TODOS os tipos de dificuldades encontradas dentro das relações humanas se originaram, justamente, nas relações familiares.

Portanto, não tenho a menor dúvida de assegurar que, muitas vezes, a família torna-se uma das organizações mais estranhas e prejudiciais para grande parte dos seres humanos.

Ninguém duvida de que esta terrível ‘unidade familiar’ pode, facilmente, se transformar num escudo para que a família possa maltratar as crianças, por exemplo. E esta prática, segundo Gaiarsa, não envolve só a punição física, mas também o olhar duro, o castigo psicológico, a omissão —  ‘uma vez que para a maioria dos pais, educar é repetir tudo o que aprendeu dos próprios paismesmo que isso implique numa educação retrógrada e conservadora’. E conclui: ‘Não é à toa que as neuroses nascem sempre das relações familiares’.

Quando uma relação é baseada em qualquer tipo de abuso mental, física, sexual, verbal ou emocional, é preciso encerrá-la o mais rápido possível.

Quando se baseia em manipulação, aberta ou secreta, você pode ter certeza de que está sendo usado(a) e abusado(a).

Quando você está vivendo numa constante ansiedade, nunca sendo capaz de prever o que pode acontecer, é hora de se amar o suficiente e ir embora.

É hora de terminar um relacionamento quando o único resultado dele em você é basicamente negativo; quando este contato serve para derrubá-lo(a) ou fazer você sentir que não é bom(boa) o suficiente; quando cria tanto estresse que afeta áreas fundamentais da sua vida; quando suas emoções estão totalmente mobilizadas para se defender ou conseguir se manter dentro deste verdadeiro caos.

É hora de deixar ir. 

Porque decididamente você está se envenenando com tamanha toxicidade. E pode sucumbir, pois ninguém é tão forte para suportar tanto, creia.

Entenda que esta relação se configurou sem que você tivesse direito de intervir. E que se manter nela só aprofundará sua sensação de desalento e fracasso. 

Quando você entender que ali nunca haverá espaço ‘suficiente’ para se construir um relacionamento saudável, você precisará se concentrar em sua própria cura. E ela só se dará longe deste ambiente doentio.

A maioria das pessoas sabe intuitivamente quando é hora de romper as amarras a fim de conseguir dar um salto em direção ao equilíbrio almejado.

Então, tome coragem, siga sua vida e lembre-se: sempre haverá uma saída. Sempre.

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