AS PALAVRAS E O MEDO

IMAGEM MOVIMENTO AlgorítimosMudou…
O impulso aflito de dizer que não,
A lua é nova e a nova informação
Muda meu céu e vai mudar meu chão.
A terra ardeu e o céu desmoronou
E há o que fazer e a flor não me ensinou
E há o que saber e o sonho não mostrou.”

In: Mudou – de Taiguara

Como vivemos em tempos de palavras que pouca verdade conseguem transmitir e onde o exibir das redes sociais ocupa o lugar do fazer, é preciso que nos mantenhamos alertas e cientes de que tudo o que assistimos é somente a representação de meros algoritmos, que repetem padrões a fim de criarem “bolhas” – e o “efeito manada” – onde você vê apenas aquilo que lhe agrada.

Isto, enfim, representa muito pouco. Praticamente nada do real.

E confesso que ando com medo das palavras – tanto das que ouço ou leio quanto das que escrevo. Medo porque sei que, muitas vezes, elas podem não conseguir expressar exatamente o que sinto ou como vejo determinado fenômeno. E temor pelas que leio porque posso não estar entendendo aquilo que tentam exprimir.

Porque lendo ou escrevendo não há como perguntar, discordar, esclarecer. É aquilo o que escrevi, é aquilo o que li e ponto final. Danem-se as possíveis interpretações. Lasquem-se as palavras equivocadas que podem mudar a ideia central.

Por outro lado, ando bastante cansada de gente que fala sem pensar acerca do que fala. Gente que, descarada, mente. Se você assistir aos arremedos de discursos, aos “embates” que nada mais são do que meras representações daquilo que é inter-dito ou mal-dito, facilmente perceberá que a quase totalidade daquilo que nos interessaria saber está oculta. Não nos é dada conhecer. Assim como a linha condutora que estabelece nexos causais entre tantos “fatos” que deságuam diariamente diante de todos nós.

Fatos? Não sei. Um verdadeiro circo armado? Talvez.

É desta mesma forma que vejo a atual onda de “denuncismos” que assola as redes sociais. O que aparentemente estaria a serviço de divulgar, alertar e revelar ‘ao mundo’ determinadas informações a fim de reunir forças capazes de transformá-las, nada mais faz do que chamar a atenção de quem já detêm uma visão semelhante à do ‘denunciante’.

Porém, parece mesmo muito difícil alcançar a percepção de que estes espaços, que muitos acreditam dividir com centenas de milhares de sujeitos além deles próprios, nada mais é do que a representação meramente virtual de uma vida que não existe de verdade.

Basta desligar o computador e sair pelas ruas caminhando para notar que nada daquilo que tanto parece mobilizar na “rede” está presente no cotidiano das milhares de pessoas que acordam cedo, caminham ao nosso lado, entram nos ônibus e passam mais de quatro horas diárias dentro das conduções, por exemplo.

E por que é que não conversamos mais?

Diferente dos outros animais, aquilo que de mais precioso possuímos é a nossa capacidade de conversar. O papel não conversa. A tela de um computador também não.

E aonde foi parar nossa boa, velha e insubstituível conversa?

Conversar é demonstrar. Aquele que fala, mostra. E o falar necessariamente implica em também ouvir e silenciar. E sempre ocorrerá na relação entre dois ou mais interlocutores disponíveis para tanto.

O falar mais cotidiano se apoia na razão – que significa indicar, argumentar, provar e buscar, no interlocutor, o limite da liberdade deste, o momento em que ele começa a duvidar de suas crenças e a experimentar outras possibilidades do refletir.

Este falar é seguro porque permite que o interlocutor aceite (ou não) aquilo que escuta. No falar do conhecimento e das opiniões, um fala para o outro – feito um pacote que vai e volta dentro daquilo que chamamos de diálogo.

Já o falar mais vulnerável precisa ser quase indigente uma vez que não procura demonstrar nada e simplesmente convida ao entendimento. Ele vai nascendo dentro de uma relação de confiança, ainda que a partir do falar seguro acima mencionado.

Este falar se vincula à experiências muito pessoais. Sem razões para apoiar. Fala da intimidade uma vez que um espera ‘tocar’ o outro aguardando que este o compreenda. Mas esta compreensão precisa ser de graça. Vir de maneira sincera e espontânea.

É um falar arriscado este falar com o outro e não para o outro.

É um falar que desperta uma sensação primitiva de perigo que só passa quando ocorre a compreensão. Falar com o outro, então, é arriscado porque o entendimento pode acontecer ou não. É quase um salto no escuro.

E como é ousado e perigoso falar daquilo que nos é mais próprio, não é mesmo?

No entanto, quando o outro nos compreende algo de significativo e maravilhoso finalmente acontece. Ganhamos parceria. Confirmamo-nos enquanto comunidade resgatando nosso caráter gregário e humano, pois, finalmente, realizou-se o dizer que resgatou do esquecimento o que devia e precisava ser (bem) dito.

E se o dizer daquele que não é ouvido é sempre um dizer indigente, o ouvir também necessita ser.

Como uma criança que nunca viu ou tocou um instrumento. Ao deparar-se com ele, pela primeira vez, é flagrante a liberdade com a qual conduz este contato, como que estivesse encantada com o novo. Logo, é a liberdade – da qual falaremos logo mais – que conduz este fazer da criança que des-cobreo que, até então, não lhe era desvelado.

É este mesmo encantamento que deve nos sustentar quando nos propusermos a ouvir/descobrir o outro. Sem ele, nada feito. Nada de novo se produzirá a partir do velho e viciado modo.

O falar de quem se propõe a verdadeiramente escutar pressupõe, antes de tudo, o silenciar – já que o silêncio é a única maneira dentro da qual podemos ser atingidos pela pequena ‘verdade’ que nos é revelada.

Um interlocutor trazendo sua indigência também não sabe (ainda) do falar indigente do outro. Tornam-se duas vias confiáveis; uma mão-dupla de aprendizado do outro.

E, assim, o silenciar abre a possibilidade de libertação dos pensamentos genuínos antes aprisionados.

E somente deste jeito quem conversa encontra objetivos comuns. Algo por fazer junto.

O fazer dos homens se estrutura de uma forma peculiar, dinâmica e bem diferente da natureza que opera a partir do passado.

A ação do homem parte do fim, do futuro. E, por isto, a ação sem objetivo torna-se absolutamente impossível, posto que realizar um objetivo é o que costura e articula o fazer dos homens.

O fazer dos homens é fundado na palavra. O fazer é verbo. A palavra introduz uma determinação completamente original e não uma mera continuação do que vinha sendo. E, neste sentido, o fazer humano é sempre um novo começo.

O fazer mantém relação intrínseca com a liberdade uma vez que rompe com a ordem natural e introduz um padrão de desordem – que é o fundamento da liberdade. Liberdade é sinônimo de desordem. E o fazer dos homens impõe uma nova ordem. Algo que devem começar.

O fazer dos homens e a liberdade se co-pertencem.

Como dizia Hannah Arendt: “Os homens não nascem para morrer, mas para começar.

Enquanto as comunidades virtuais não enxergarem o quão distantes estão do lugar que, enquanto homens comuns, deveriam habitar, menos espaços e ouvidos alcançarão.

Um fato, infelizmente tão atual quanto desesperador, é a pandemia do Covid-19. De quantas informações e contrainformações uma política de guerra perversa precisa para dizimar populações inteiras, empurrando todos para o “salve-se quem puder“?

Afinal de contas, a internet é apenas uma rede virtual. E vale lembrar que criada, controlada e mantida pelo Pentágono, que é a sede do Departamento de Defesa dos EUA.

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