UMA DOENÇA CHAMADA MANIPULAÇÃO

Imagem Movimento Marionetes 3

“Eta vida, essa vida de infelizes,
Quanto mais coração, mais cicatrizes;
No amor é que a dor cria raízes;
De dentro do bem é que o mal trama,
Da felicidade cresce o drama
Dessas tristes de nós vidas humanas.”

In: Evangelho – de Dori Caymmi

Seria muito bom e saudável se cada um pudesse construir sua própria vida, guiado por escolhas retiradas das experiências individuais genuínas e livres de induções.

No entanto, o que ocorre, em grande parte das vezes, é que as pessoas sucumbem à influência dos outros. Não porque desejem. E muito menos porque saibam que isto está acontecendo.

Mas o que é manipulação?

Muitas vezes, em nome de alcançarmos nossos objetivos, desenvolvemos diferentes estratégias. Porém, algumas formas de fazer isso podem estar muito próximas de viciadas ciladas comportamentais.

Se para obter algum tipo de benefício você ‘precisar’ enganar alguém, mentir ou forçar a barra, sua prática pode ser chamada de manipuladora, sem dúvida alguma. Se seu intento for alcançado à custa de alguém que nem sequer tinha ciência de suas finalidades você, definitivamente, é um(a) manipulador(a).

(A partir deste momento vou usar o termo ‘manipulador’ genericamente, e englobando as práticas manipulativas na sua totalidade)

Para qualificar alguém deste jeito, é necessário levar em conta uma constelação de pistas. E para descobrir se estamos envolvidos num relacionamento assim, devemos observar o outro, além de nós mesmos, a fim de ficarmos atentos à dinâmica daquela interação.

Ser vítima de manipulação pode ser extremamente prejudicial ao desenvolvimento da vida afetada. É importante perceber o mais rapidamente possível e tentar encontrar ferramentas para lidar com essa situação.

Manipuladores escondem-se sob muitas facetas. São também difíceis de serem identificados porque seus métodos são silenciosos e sutis. É como um ataque que se coordena sem que ninguém tenha a menor noção do que está por vir.

Parecem muito simpáticos, cordatos e gentis. Aproximam-se aparentando uma afeição que não sentem e são excelentes na arte de perceber as necessidades dos outros fingindo estarem ali para resolvê-las. Só que não.

Utilizam-se da bajulação para atrair apreço, mas mudam de comportamento dependendo das situações, das circunstâncias ou do ‘público’ – que procura manter ignorante das suas artimanhas e dos seus objetivos reais.

Pode ser o papai ou a mamãe. O irmão. A ‘melhor’ amiga. O marido. A esposa. A colega de trabalho. O chefe. Aquela criatura carente demais ou a que ‘sabe de tudo’ igualmente demais.

Afinal, utilizam-se do mais poderoso motivador: a insegurança. Incutem no outro a ideia da existência de um perigo potencialmente presente. Desta forma, controlam suas ações convencendo o incauto de que qualquer outra maneira de agir, diferente da que eles “sugerem”, será ruim.

É como a mãe que declara para o filho, que não dorme antes dele voltar para casa. Ou que a todo momento repete: “o que os outros vão pensar de você?”

Esta modalidade de comunicação invariavelmente traz desconforto. Isto porque inconscientemente se percebe sua falta de sinceridade e seu ‘jogo’ perverso, já que, no fundo, o que estes tipos tentam favorecer são – exclusivamente suas próprias necessidades e carências. Suas deficiências pessoais.

Por conta disto é que mostram-se geralmente tão ‘sensatos’, uma vez que aprendem a lidar bem com as palavras (escritas ou pronunciadas), ainda que não saibam suportar as próprias emoções.

Por outro lado, ser confrontado regularmente com uma espécie gradual de expectativa, mesmo que disfarçada sob a denominação de um afeto inexistente, gera um sofrimento significativo no indivíduo atingido que, muito provavelmente, passará a vivenciar um ou mais dos seguintes sintomas:

– uma crescente falta de confiança em si mesmo;
um sentimento de insegurança e de inferioridade na presença do manipulador; depois, esta sensação se expande para tudo e todos que o rodeiam;
uma perda de referência onde o manipulador não se faça presente;
– problemas de sono: insônia e pesadelos;
– presença de distúrbios alimentares;
– somatizações do tipo: dores de cabeça, dores abdominais, reações cutâneas, mal- estar difuso e constante, etc;
sensação de viver em permanente estado de stress, ansiedade, irritabilidade e fadiga até alcançar a depressão;
uma tendência à confusão mental podendo chegar a transtornos graves e irreversíveis.

A lista acima não é conclusiva, mas apresenta alguns dos processos regularmente observados nas vítimas.

Por outro lado, a culpa, do ponto de vista do ‘algoz’, torna-se um sentimento bastante frequente e que aparece no seu modo defensivo diante de quem manipula trazendo, como coadjuvantes, as tentativas de desestabilização e subjugação.

Diante deste sentimento, o manipulador tenta apresentar-se como vítima buscando despertar sentimentos protetores diante da sua falsa vulnerabilidade. Mas, ao mesmo tempo, exige que todos o vejam como deseja ser visto. Caso contrário, usa golpes baixos como expor as fragilidades do outro a fim de justificar aquilo que chama de fraqueza e ausência de condições de exercer autonomia. Até que convença todos de que sua vítima é impotente e incapaz e que, portanto, cabe a ele fazer “o melhor”.

Esta figura sempre ignora opiniões diferentes das suas alegando manter consigo a “verdade”. É o/a ‘sabe-tudo’. É aquele que lembra dos detalhes de cada história – à sua maneira, é claro. Faz isto de forma quase imperceptível. Não esqueça que ele é o rei dos disfarces e os utiliza com maestria. Costuma ser irônico ou sarcástico e reagir com insultos a qualquer gênero de recusa; adora semear a discórdia através de insinuações que criam desconfianças e dúvidas. E, acima de tudo, desencoraja qualquer tentativa de diálogo aberto envolvendo opiniões independentes que possam influenciar positivamente aquele a quem domina.

No fundo, fomenta o isolamento desta pessoa na tentativa de manter algum grau da sanidade que teme estar perdendo. Seu “objeto” passa a ser o seu “espelho”.

Mas nem tudo envolve apenas péssimas notícias. A boa nova é que existem maneiras de evitar estas armadilhas. E as mais importantes são aquelas que contrariem o manipulador. Tais como:

– ouvir com profunda atenção suas necessidades e sentimentos pessoais;
– analisar o mal-estar tentando identificar suas causas reais;
– manter ou buscar criar um pensamento crítico acreditando nos próprios pressentimentos ou descrenças;
– treinar a capacidade de dizer “não”;
– buscar constantemente o autorrespeito;
– nunca deixar de exercer o direito da réplica;
– recusar-se a assumir as obrigações e responsabilidades dele;
– procurar prestar mais atenção à sua face irritada e à suas críticas injustificadas;
– ter perseverança para obter todos os esclarecimentos que entender necessários exigir.
– manter-se próximo das pessoas que provaram ser “confiáveis” no passado;
– considerar com carinho as suspeitas daqueles que criticam esta relação na qual você esteja envolvido(a);
– procurar informações diretamente das pessoas que se queixam do manipulador.

E, finalmente, posso tentar elencar algumas atitudes capazes de dissolver tais relações doentias:

– olhar a realidade de frente e dirigir a vergonha da humilhação não para si, mas para seu manipulador;
– procurar agir rapidamente para desfazer o laço doentio;
– afastar-se dele;
– listar mentalmente os contra-argumentos para as insinuações do manipulador para que nunca mais se afete com elas;
– mostrar sincera indiferença para com suas tentativas de rebaixamento ou desestabilização;
– lembrar-se de que verdadeiros amigos agiriam em seu benefício, ao contrário do manipulador;
– distinguir a crítica construtiva da crítica degradante e, diante desta, exigir do interlocutor o devido respeito;
– tomar a liberdade de recusar o que lhe for solicitado, especialmente se você se sentir pressionado/a; a frase que pode ajudar é: “quando se faz um pedido você deve ser capaz de aceitar tanto um sim como um não”;
– defender os seus limites, necessidades e desejos até o fim;
– se opor à chantagem emocional, dizendo que “todos são livres para pensar, sentir e fazer o que quiserem“.

E, por último (e o mais importante): desistir de tentar mudar uma personalidade manipuladora. Seus argumentos, ou até mesmo o seu amor, não vão poder modificar nada.

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