PANDEMIA E SOLIDÃO

Imagem Movimento Solidão Covid 3

Nós somos ásperos por força do hábito,.
Trazemos o sangue muito quente
Vivemos de migalhas, promessas e batalhas,
Estamos rindo de nervosos.
Cobertos de feridas num beco sem saída,
No entanto o coração palpita
.”

In: Circo de Marionetes – de Kleiton e Kledir

Correu o mundo a imagem de um jovem palestino sentado à beira da janela do quarto onde sua mãe morria por conta do Covid-19. Jihad Al-Suwaiti, de 30 anos não teve permissão para visitar sua idosa mãe, Rasma Salama, que acabou por falecer pouco depois.

A visão do filho despedindo-se da amada mãe, praticamente dependurado no peitoril de um hospital, tornou-se uma espécie de emblema insuportavelmente triste, por todas as razões óbvias.

Praticamente uma síntese dolorosa do que, fundamentalmente, todos nós temos passado nos últimos meses.

O fato é que existem inúmeros aspectos envolvendo esta tragédia – seja ela natural ou planejada – que nem sequer estamos preparados para compreender neste momento.

Como prever o impacto da notícia de milhões de mortes mundo afora? De que forma calcular o sofrimento dos familiares que lutam para salvar seus entes queridos? E sobre o medo constante perseguindo cada um de nós, quem vai responder por isso?

Todos estes aspectos confirmam a luta tenaz que, basicamente, enfrentamos de forma solitária e que nos tem lançado para uma espécie de tanatologia coletiva.

Tanatologia, é bom esclarecer, é uma forma de ansiedade caracterizada pelo pavor diante da possibilidade da própria morte ou do processo de morrer. É conhecida como ansiedade da morte.

Uma luta que, na tentativa de equilibrar uma vida aparentemente normal – em tempo integral e, muitas vezes, dentro de um mesmo ambiente – com o medo latente e inescapável, pode ser quase tão nefasta quanto a própria pandemia.

Um estudo sobre a epidemia de SARS em 2003 – ainda que localizada – revelou claramente que pessoas submetidas a confinamentos, apresentaram um alto grau de sofrimento psicológico. Quanto maior o tempo do distanciamento, maior a possibilidade de desenvolver o distúrbio do estresse pós-traumático.

Para ao esmagadora maioria das pessoas que já viviam sozinhas, isto redunda em pouco ou nenhum contato humano durante meses. Independentemente da situação de moradia ou profissional, a solidão aumenta muito o sofrimento emocional, a sensação de desamparo e o sentimento de angústia.

Embora as pesquisas mais esclarecedoras estejam ainda em andamento, as evidências apontam para o aprofundamento da crise de saúde pública, além do que poderia ter sido estimado.

Nesta semana, uma conhecida foi internada, junto com o marido, por conta do Covid. Com ele dentro da UTI, ela permanece no quarto e relatou, com uma clareza impressionante, o aspecto mais terrível desta vivência: a absoluta e abissal solidão que precisa enfrentar diariamente.

Além de não poder ser acompanhada por ninguém, todos os profissionais que entram em contato com ela, totalmente paramentados, logo após, precisam deixar suas luvas, máscaras e demais apetrechos num lixo, logo na saída.

É como se eu estivesse chapado o tempo todo, mas sem as partes divertidas”, relatou-me, também, outro amigo recentemente. E, de alguma forma, esta expressão resume a atual condição (des)humana na qual a imensa maioria dos povos do mundo se encontra.

A solidão decorre de sentir-se desconectado em um nível afetivo; o isolamento é doloroso e está associado a uma variedade de problemas de saúde graves, incluindo depressão e ansiedade.

Em casos extremos – como dentro de um confinamento solitário, ou como um prisioneiro de guerra, por exemplo – a ausência de estímulo social pode tornar-se tão grave que o cérebro passa a criar estímulos para si mesmo. 

É quando o sono e o humor ficam muito desregulados. Todo o nosso organismo é atingido, como nos batimentos cardíacos, na pressão sanguínea, no sistema imunológico, além do aumento da propensão a acidentes, depressão e inflamações.

Isto significa que nem todos teremos condições de ultrapassarmos esta fase com um mínimo de equilíbrio mental. Nem todos sobreviverão com alguma qualidade de vida preservada.

Sobretudo considerando que, mesmo diante de tamanho desterro, a humanidade ainda se vê obrigada a conviver com os psicopatas que, saídos do esgoto, rapinam vacinas, testes e praticam descaradamente crimes de desvios de verba, do dinheiro destinado à saúde e à sobrevivência da população. Gente ocupando altos cargos políticos e infestando, feito animais peçonhentos, todas as nossas comunidades.

Para as pessoas que mantém uma visão fictícia sobre a chance de uma superação serena da atual fase, uma ilusão em nosso controle sobre o meio ambiente e uma fé cega na competência e na honestidade dos governos e dos sistemas que nos rodeiam, tais crenças podem se tornar profecias autorrealizáveis ​​e, por isto, se torna traumático abandoná-las.

Não entramos nesta pandemia com uma sociedade saudável. Entramos já com uma grave crise de conexão. Nossa natureza está em conflito com esta transformação de realidade tão inesperada.

Mas a grande ironia é que as curvas perigosas nos forçam, cada vez mais, a reconhecer o quão unidos, conectados e atentos precisamos permanecer diante desta difícil realidade. E a saída, caro leitor, é nos mantermos humanizados, nos defendendo com amor e solidariedade. Sempre.

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E, se desejar, envie seus comentários para psicologaheloisalima@gmail.com

Um pensamento sobre “PANDEMIA E SOLIDÃO

  1. Para essa pandemia, realmente não tem superação serena. Vai ter algum custo…
    A questão é como vamos lidar com isso. Mas como você bem falou Heloisa, é importante não esquecermos da nossa humanidade.

    Vai dá certo.

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