E VOCÊ, JÁ INVENTOU ALGO HOJE?

Imagem Movimento Bailarina

“Procurando bem
Todo mundo tem pereba,
Marca de bexiga ou vacina;
E tem piriri, tem lombriga, tem ameba,
Só a bailarina que não tem…
Sala sem mobília,
Goteira na vasilha,
Problema na família
Quem não tem…”

In: Ciranda da Bailarina  Chico Buarque

Começo este texto com a descrição de algumas das muitas mentiras que, praticamente, TODOS cometem em suas redes sociais, tais como:

Mentir sobre realizações pessoais e/ou profissionais. Exagerar a importância das suas atividades. Exibir sua atividade como sendo mais glamourosa do que realmente são. Exagerar detalhes de festas, eventos ou viagens. Mentir sobre os lugares que visitou (sem nunca ter ido). Trapacear acerca de sua situação financeira. Inventar um estilo de vida ‘saudável’ que não segue. Agir como se soubesse mais do que realmente sabe. Representar falsamente uma realidade familiar que não existe. Fingir estar sempre feliz. Aparentar viver relacionamentos saudáveis. Postar informações/mentiras a fim de atingir seus desafetos. Exibir uma invejosa (e ilusória) vida ‘perfeita’. Simular uma sinceridade que não possui. Mentir sobre inclinações, preocupações, sentimentos, realizações, etc.

Diversas pesquisas realizadas mundo afora atestam que mais de 75% das pessoas admitem mentir sobre si mesmos em perfis sociais.

Apenas 18% dizem que seus perfis do Twitter, Instagram e Facebook os representam com precisão.

Cerca de 61% confessaram que seus perfis são “praticamente minha vida, mas sem os pedaços chatos“. E 58% afirma que o Instagram faz com que pareçam muito mais ativos socialmente do que, na verdade, são.

E você, o que me diz? As redes sociais parecem constantemente lhe pressionar, comparando sua vida, dia após dia, com as dos amigos que parecem ganhar mais dinheiro, ter mais amigos e mais sucesso, além de serem muito mais felizes? Têm lhe convencido de que nada do que você vive ou faz é verdadeiramente interessante?

Se este tipo de pensamento, de alguma forma, deprime você, saiba que a melhor maneira de lutar contra esta ilusão é lembrar que nada daquilo é verdadeiro. Que a maioria de nós passa por muitas dificuldades. Na maior parte do tempo. Que todas as pessoas que se exibem no Instagram para milhões de assinantes têm problemas de encanamento, medo de algum bicho, infecções urinárias, dor de cabeça, problemas de família e também precisam esperar muito para conseguir o que desejam – isto quando conseguem. 

Afinal, somos todos humanos e a vida que aparentar ser mais perfeita do que o que é humanamente possível, não fará ninguém se tornar invencível.

A rede, deste modo, vira a vida que se vive de verdade. E o cotidiano, torna-se um mero entrave para o desenrolar dela. Feito o coelho da Alice (no assustador ‘país das maravilhas’), ela grita: “– É tarde! É tarde! É tarde até que arde! Ai, ai, meu Deus! Alô, adeus! É tarde, é tarde, é tarde!”.

Vi gente acabada de tristeza em cima de uma cama postando uma foto, tirada há dias, onde aparecia incrivelmente alegre e satisfeita. Também conheço quem inventa viagens que nunca fez, amigos que nunca teve e festas que nunca existiram para registrar em suas timelines – como resultado de uma vida espetacular e repleta de acontecimentos memoráveis que não vivenciam. Como verdadeiros esquizofrênicos virtuais.

Esquizofrenia foi um termo criado em 1911 pelo psiquiatra suíço Eugem Bleuler a partir das palavras gregas skizo (cisão, divisão) e phrenos (mente, espírito). Significa, portanto, “mente dividida”. É, por definição, uma doença que se caracteriza pela desorganização dos processos mentais levando o portador a apresentar diversos sintomas, tais como: crenças incomuns ou estranhas que possuem proporções delirantes (como nos pensamentos mágicos); experiências perceptuais incomuns (sentir a presença de uma pessoa ou força invisível na ausência de alucinações constituídas); discurso que pode ser geralmente compreensível, porém digressivo, vago ou demasiadamente abstrato ou concreto.

Os indivíduos que são socialmente ativos podem tornar-se retraídos, perder o interesse em atividades com as quais anteriormente sentiam prazer, tornar-se menos falantes e curiosos e passar a maior parte do tempo na cama. É comum membros da família relatarem a sensação de que o indivíduo está se esvaindo, ou seja, indo embora aos pouquinhos.

Ora, se esta doença é designada pela perda do contato com a realidade onde a pessoa pode ficar fechada em si mesma, com o olhar perdido, indiferente a tudo o que se passa ao redor ou, ainda, ter alucinações e delírios, imaginando coisas e, no fim, acreditando nelas, o que será que acontece com uma pessoa com sintomas semelhantes diante de uma tela de computador ou de um aparelho celular?

Quem já não observou pessoas sentadas numa mesma mesa, absortas e totalmente desligadas do entorno, enquanto acessam conteúdos online, digitam textos, respondem mensagens, combinam encontros, brigam e se comovem ao mesmo tempo em que sonegam um mínimo de atenção ou intimidade aos parentes ou amigos que mantém ao lado?

Não seria este ‘sintoma’ uma nova forma de esquizofrenia coletiva e social caracterizada pela vivência de um mundo paralelo que, de alguma forma, nos torna incapazes de experimentarmos a intimidade tão imprescindível quanto vital?

Já imaginou um bebê crescendo sem experimentar manifestações de afeto, colos, carinhos, beijos e abraços? O que seria de seu desenvolvimento físico, psíquico e emocional se tudo isso lhe fosse sonegado e relegado a um contato frio e distante? E quem pode afirmar que, mesmo depois de “crescidos”, nós, humanos, prescindamos do calor verdadeiramente… humano?

Já ouviu falar que falta de amor provoca doenças e…. mata?

Intimidade, como sabemos, se refere a capacidade de compartilhar o que nos é  ‘interno’; revelar-se para outra pessoa sem medo de rejeição, num contexto particular de afeição, confiança e compreensão. É, de algum jeito, um ato de fé.

Mas se, por outro lado, perdemos a fé de sermos aceitos como somos, com nossas falhas, imperfeições e mazelas, um perfil que se pode editar, colorir e reformar – de maneira a nos tornar aquilo que desejamos ilusoriamente ser – nos serve como uma espécie de realidade paralela, muito semelhante àquela que o esquizofrênico experimenta de maneira profunda e dolorosa, posto que sem direito a edições ou retoques.

Portanto, causa-me estranheza que não estejamos mais engajados nesta indispensável reflexão acerca dos descaminhos que a utilização exagerada deste arsenal tecnológico vai introduzir em nosso desenvolvimento humano.

Porque desenvolver-se de maneira humana implica em aperfeiçoarmos nossas verdadeiras aptidões e talentos, dentro de um espaço protegido e privado, cercado de pessoas que se interessem de verdade pelo criativo gesto humano. Onde amor, carinho, solidariedade, atenção e generosidade sejam sentimentos presentes que caminhem juntos, completamente interligados.

A vergonha de não ser aquilo que imaginamos como ‘melhor’ passa pela experiência profundamente dolorosa de acreditar que se está falhando (ou que não se é ‘bom’ o suficiente) e, deste modo, tornando-se indigno de amor, intimidade e contato.

A vergonha deriva do seu poder de parecer indizível. Mas, acredite, assim que falamos sobre isso, ela desaparece. Devemos encontrar forças para falar sobre ela com outras pessoas. Pessoas de confiança que mereçam ouvir nossa história. E é percebendo a empatia de outro ser humano que a vergonha é curada. 

Erroneamente, associamos vulnerabilidade à emoções que queremos evitar, como medo, vergonha e incertezas. Contudo, desta forma perdemos de vista o fato de que este também é o espaço onde nasce a possibilidade do recriar a alegria, os sentimentos de pertença, de criatividade, autenticidade e amor.

Então, ao se envolver com a mídias sociais lembre-se de que tudo aquilo que você vê não é uma imagem precisa da realidade. Procure não se comparar às imagens alheias. Lembre-se de que tudo é apenas um mero instantâneo destas vidas e exatamente o que desejam que você veja.

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