O NARCISISMO E A DOENÇA SOCIAL

Imagem Movimento Narciso 5

“Sou eu em minha superioridade
Julgando ser o mais notável do universo.
Sou eu em minha dominância,
Em minha vaidade,
Na fantasia de poder
de fama ter,
de belo ser.
Sou eu condenado a admirar o meu reflexo,
Nas águas de um lago para sempre.”

In: Narciso – de Lúcia de Fátima Guedes de Lima (Lufague)

Segundo a mitologia grega, Narciso era um jovem de beleza rara e exuberante. Filho do deus Cephisus e da ninfa Liriope, despertava toda sorte de inveja e paixões entre ninfas e donzelas. Ainda assim, Narciso preferia viver sozinho porque acreditava não existir alguém que merecesse seu amor.

Um dia, ao inclinar-se para beber água em uma fonte cristalina, deparou-se com a imagem refletida e enfeitiçou-se com a visão. Encantado, contemplou o lindo rosto que via e apaixonou-se por ele sem perceber que era o seu próprio reflexo.

Por diversas vezes Narciso tentou alcançar aquele sublime espelho colocando inutilmente as mãos dentro da água. Nenhum abraço era possível. Nenhum verdadeiro contato. Depois de muito tempo, já completamente esgotado, deitou-se e seu corpo, aos poucos, foi desaparecendo em meio à relva. No final, em seu lugar, surgiu uma flor amarela com pétalas brancas que ficou conhecida como Narciso.

Por que tantas pessoas são compelidas ao narcisismo doentio?

O mundo contemporâneo passa por transformações que nos afetam tanto física quanto psicologicamente. Se há alguns anos precisávamos nos levantar inúmeras vezes do sofá para alcançar o botão da televisão – o que nos obrigava a pensar sobre nossas escolhas – hoje basta um suave toque no controle remoto e mais nada. O que deveria nos trazer comodidade e prazer, na verdade, está nos transformando num grupo de seres inertes e sem criatividade, que repete cegamente comportamentos condicionados, dissociados e inúteis – que, na maior parte das vezes, nos afastam do prazer, da reflexão e da capacidade crítica sobre o que nos cerca.

Estamos nos convertendo rapidamente numa sociedade doente, ansiosa, em permanente estado de alerta, descomprometida em relação a uma porção de valores humanos e, acima de tudo, sem ideais.

Ainda assim, e apesar de toda a mera “aparência”, aspiramos uma vida mais produtiva que possa ser experimentada de um jeito leve, autônomo e prazeroso. Uma vida, enfim, farta de sentido.

O conceito psicanalítico de narcisismo é adequado para fornecer um bom diagnóstico dos nossos tempos se considerarmos que, neste atual “mundo globalizado”, existe uma brutal ausência de projetos comuns – o que aponta para o reforço do investimento no bem-estar individual como única opção real e definitiva.

A sociedade contemporânea criou, desta forma, condições para a ocorrência de uma espécie de narcisismo exacerbado. O narcisista, então, se caracteriza pela desconfiança generalizada, superficialidade emocional, medo de intimidade, hipocondria, falsa auto percepção, horror à velhice e à morte.  É descrente em relação à possibilidade de modificar o futuro, despreza o passado e vive exclusivamente para o aqui e o agora.

Então, toda a dedicação do indivíduo se volta para o presente e, ao mesmo tempo, para SI MESMO – o que revela uma surpreendente perda da noção tanto de continuidade histórica quanto de pertencer a um contingente humano além de si.

Daí, forja-se uma percepção profundamente equivocada: se não existe passado ou presente, o que se fizer agora simplesmente não importa.

Por isto, vemos pessoas que só se importam consigo e com, no máximo, a próxima geração de descendentes consanguíneos. Podemos enxergá-las nos empresários, políticos, governantes e demais “castas” que só se preocupam em garantir o próprio estilo de vida assim como seus (im)próprios privilégios além dos de seus filhos e netos.

Mas, evidentemente, não garantirão NADA para NINGUÉM. Pois o mundo, de tal forma desequilibrado, só tende caminhar rumo ao total e absoluto desterro.

Em nome de garantir alguma saída individual ou um ínfimo sucesso pessoal, o cidadão médio vai assimilando rasas concepções de mundo e entorpecendo suas intuições humanas para transformar-se, rapidamente, em mais um tolo narcisista ambulante.

Uma sociedade que incentiva este narcisismo está, na verdade, afastando do seu eixo vital a tão necessária relação com as tradições humanas – como se estas fossem um entrave para o desenvolvimento perverso que o controle psicopata do centro do mundo deseja impor.

Desqualifica-se o velho e o passado. Da mesma maneira, o futuro é colocado em suspensão, uma vez que não existem boas expectativas para alterações positivas (do ponto de vista da população desesperançada), nem segurança suficiente nas organizações políticas, além do sempre presente medo das violências cotidianas, guerras, atentados, desastres ecológicos ou nucleares.

Vivemos todos como se estivéssemos com as vidas por um fio. Ou no fio da navalha: entre o seguro e o contingente; o ótimo e o péssimo; o poder e a submissão; o controle exagerado e a indiferença cabal; a força extremada e a vulnerabilidade total.

Por isto, a ideia cada vez mais presente do “cada um por si e danem-se todos”.

Hoje, as relações pessoais tornam-se instáveis e precárias. E, o que é pior, altamente ameaçadoras. Desconhecemos o significado da confiança e da lealdade, da mesma forma como o da solidariedade, da esperança e do afeto.

Acreditamos na necessidade de estarmos incessantemente conectados ao mundo virtual que se contrapõe, de maneira superlativa, à existência real. Precisamos chamar a atenção de algum jeito – seja pela ausência, seja pelo excesso.

Daí, a insana demanda por parecer feliz e realizado – mesmo que ninguém realmente se sinta assim.

Afinal, a realidade não admite edição nem fotoshop. Não podemos escolher em que ângulo nosso interlocutor vai nos enxergar. Nem nosso mais belo lado a ser publicamente exposto.

Esta vivência produz uma neurose caracterizada por uma carência de perspectivas e de significados. O indivíduo contemporâneo deposita nos meros objetos toda sua significação. E, diante de uma eventual perda deste, ele passa a considerar-se inadequado, inábil, fraco e ignorante.

E, na falta de valores como justiça social e continuidade histórica, a ética do “custe o que custar” passa a nortear a cultura narcísica – que nada mais é do que uma resposta emocionalmente desorganizada frente às pressões e angústias do mundo atual cujo modelo, definitivamente, contribui com a sensação de falta de sentido.

E, por isso, o indivíduo tenta privar-se da vivência dos medos, das angústias, das perdas e dos lutos, sentimentos reais, enquanto se enaltecem as aparências das coisas, assim como de seu valor comercial, glorifica-se a alienação e a indiferença, tantas vezes amparadas pelo uso excessivo de toda a sorte de drogas lícitas e, principalmente, ilícitas. Quanto mais drogas, mais esvaziamento interior e mais sofrimento posterior.

Não nos esqueçamos que a angústia, o temor e o desespero são sentimentos que nos possibilitam vivenciar nossa mais verdadeira e genuína condição, nos lançando em direção à experiência mais autêntica enquanto seres humanos livres, ímpares e transformadores.

Fora disto o que resta é a mais pura e absoluta farsa.

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