UM VENENO CHAMADO ÓDIO

Imagem Movimento Boomerang 2

“Essa noite uma bomba vai explodir.
Quem é que vai conseguir dormir?
Essa noite, essa noite, muitos tiros!
Quem é que vai ligar pra isso?
Se acontecer comigo ou com você,
Vamos saber nos programas da TV
Se a culpa é minha ou é sua,
Não faz diferença nenhuma.
A guerra é aqui!
A guerra é aqui!

In: A Guerra é Aqui  – de Titãs

Se você se considera uma pessoa sensível e generosa, a ideia de simplesmente sair odiando quem atravessar seu caminho deve lhe parecer algo inadmissível.

Mas existe muita gente que só consegue lidar com seus conflitos projetando-os nos outros e ingressando numa espécie de padrão odioso que lhe permita canalizar a culpa para fora de si.

Muitas vezes o ódio é o visitante inesperado que nos surpreende sem aviso prévio ou alarde e, habitando os mais recônditos esconderijos da nossa morada, ao nos darmos conta, já se encontra em nossas sombras instalado. 

Irmão gêmeo da inveja (essa muito mais esperta e dissimulada – pois sem parecer que chegou já está sorrateiramente indo embora, deixando uma porção de estragos como rastros) e primo em primeiro grau do ciúme, o ódio se esconde dentro de aparentes convicções e cuja correnteza torna-se, com o tempo, um sentimento tão profundo e poderoso que pode induzir seres humanos, aparentemente sãos e equilibrados, a matar, destruir e arruinar suas vidas e a de seus semelhantes. Diz um verso popular:

Se os olhos veem com amor, o corvo é branco; se veem com ódio, o cisne é negro”.

O ódio, todos sabemos, produz guerras sangrentas, rivalidades insanas, intolerâncias de todos os tipos e modalidades (contra brancos demais, negros de menos, asiáticos, latinos, homo ou pansexuais, aleijados, mendigos, drogados, gordos, magros, ruivos, altos e baixinhos), preconceitos que alcançam credos e religiões, gostos e aptidões. O ódio mata milhões de inocentes e inaugura a irracionalidade enquanto ‘razão’ baseado na seguinte premissa:

“Se você não pensa como eu, não faz o que eu espero ou manipulo para que faça; se você não finge não ver quem, na verdade, sou e não percebe o lugar que determinei enquanto seu, então você não pode existir. Não tem o direito de ‘ser’.”

O ódio cego cria a fúria colérica. E quem paga a conta são os seres humanos que tentam viver em paz sem depender do suor e do trabalho alheios.

A violência, herdeira deste ódio, resulta de mecanismos profundos e, muitas vezes, inconscientes que, ao exacerbarem fantasias projetivas, alcançam manifestações que desrespeitam os direitos fundamentais de cada um dos seres humanos atingidos.

Desta forma, os ‘outros’ deixam de serem indivíduos com direitos e passam a existir como meros objetos à serviço dos desejos dos que se julgam “mais fortes” (seja pelo uso da força física, econômica, política, etc.). O problema é que estes aproveitam-se de determinadas circunstâncias coletivas para demonstrar, de maneira mais descontrolada, a selvageria como forma de externalizar sua própria e inerente destrutividade.

A irracionalidade opera mais ou menos assim: uma instância interna do sujeito recebe, com profunda ansiedade, um sinal de ameaça vindo da sua pulsão suicida internalizada e, para manter-se vivo, projeta este pavor para o ambiente externo.

Ou seja, ao pressentir o perigo de fazer mal a si próprio, ele passa a desejar aniquilar os que estão próximos. E sua escolha recai sobre os que, de alguma forma, lhe parecem ameaçadores

Os escolhidos podem ser (dentro de uma visão muito ‘peculiar’): o amigo mais interessante, a amiga mais bonita, o parente mais satisfeito com a vida, o colega de trabalho mais competente, etc. E ainda: os grupos sociais dos quais teme um dia fazer parte, os desfavorecidos, os desvalidos, os ‘diferentes’ ou aqueles que tiveram a coragem de assumir as pulsões que ele nega em si – e neste caso encaixam-se perfeitamente os homofóbicos e demais ‘fóbicos sexuais’.

Quer dizer: para desviar-se da possibilidade de autodestruir o que percebe em si enquanto fragilidade, o indivíduo escolhe dizimar o “outro” negando que tal ameaça parta dele mesmo para se convencer que ela se encontra instalada no mundo externo. E, neste perigoso cenário, nascem os falsos heróis, os líderes insanos e maniqueístas que dividem o mundo entre bons e maus e não admitem discórdias em relação ao que pregam ser “a verdade”.

Assim também nasce o nazista, o fanático, o mentiroso contumaz, o enganador, o intimidador, o abusador, o pedófilo, o torturador, o maledicente – todos disfarçados de “pessoas do bem” ou “salvadores da pátria”.

E, então, o perverso cria um clima de intimidação onde busca convencer os incautos de boa-fé de que o mundo também os ameaça e que ele possui a “chave da salvação” – que sabe não existir, a não ser em prol de si próprio e das vantagens que pretende tirar desta manipulação.

E se o mundo externo lhe responder às agressões sofridas de maneira severa, sentirá reforçada sua fantasia paranóica e estará estabelecida a lei do “olho por olho, dente por dente”. Nesta altura, o que me ocorre é a lembrança de um precioso ditado:

O ódio é o veneno que você toma aguardando que o outro morra”.

Portanto, não se engane: viver é uma arte. E nunca se esqueça disso. Logo, viva com (muito) mais amor. Ame sem temor. E afaste de si o maldito cálice de fel.

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Um pensamento sobre “UM VENENO CHAMADO ÓDIO

  1. Infelizmente o ódio vem permeando grande parte da humanidade, e esse sentimento provoca um grande desgaste das relações. Vamos viver com mais Amor e menos ódio no coração. Isso se torna essencial para a sanidade dos relacionamentos!🙏

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