VIOLÊNCIA PERMANENTE CONTRA MULHERES

Imagem Movimento Lágrimas 2

“Sei que quando saio só
Os outros gostam de falar.
Mas eu decido o que vestir,
Aonde ir sem me importar
.

Sinto que você precisa aprender a respeitar
O meu corpo, a minha lei,
E você têm que escutar
.

Quando eu digo não é não.”

In: Não é Não – de Lila

Em 2018, Mariana, uma linda jovem de 21 anos, foi estuprada por André Camargo Aranha, de 43 anos, “empresário” do ramo de futebol, influente por conta de seus contatos com jogadores “famosos”. O sujeito é filho do advogado Luiz de Camargo Aranha Neto, que já foi representante da Rede Globo.

Segundo a revista “Marie Claire” à época, os exames feitos comprovaram o estupro com o sêmen encontrado na calcinha da jovem, que era virgem.

O crime ocorreu dentro da casa noturna Café de La Musique – dos sócios Álvaro Garnero, Kadu Paes e Kako Perroy – frequentada por endinheirados que, neste país, costumam se comportar como donos do mundo.

Isto deve explicar o estarrecedor e ostensivo pacto de silêncio, escancarado por todos os participantes da audiência de julgamento, envolvendo advogados de acusação e de defesa, promotor e juiz, enquanto a vítima era ferozmente insultada e deliberadamente humilhada.

Podemos afirmar que, neste caso, não é possível existir uma mulher no mundo que não tenha se sentido atingida pelas cenas degradantes, amplamente divulgadas durante a última semana.

Este crime, evidentemente, não é um fato novo e, muito menos, isolado.

No mesmo dia em que ele ocorreu, centenas de outras mulheres foram estupradas, espancadas ou assassinadas neste país.

Uma mulher é agredida a cada 11 segundos no Brasil. Em 2012, o número de mulheres assassinadas por mês saltou de 113 para 372. Hoje, a cada 1h57m43s morre uma mulher vítima de homicídio

Importante registrar que em 1980 este intervalo era de 6h28m28s. A escalada da violência contra a mulher foi, de fato, impressionante.

Mulheres vítimas de violência sexual, física ou psicológica que são atendidas pelo SUS somam, por ano, 147.691 registros — 405 por dia, ou uma a cada quatro minutos! 

Mas é preciso considerarmos que apenas 35% dos casos são reportados à alguma autoridade policial. Logo, 65% das mulheres sequer registram um B.O.

Neste ano de 2020, as estatísticas de estupro bateram recorde e revelaram que maioria das vítimas são meninas de até 13 anos.

Segundo uma recente pesquisa – “Mulheres Brasileiras nos Espaços Públicos e Privados” – realizada pela Fundação Perseu Abramo, seis entre cada dez brasileiros conhecem uma mulher que foi vítima de violência doméstica.

Machismo (46%) e alcoolismo (31%) são apontados como principais fatores que contribuem para este quadro. Uma em cada cinco mulheres declara já ter sofrido violência por parte de algum homem.  

Aparentemente, a Lei Maria da Penha, criada em 2006, não contribuiu muito para que as agressões fossem controladas. Ainda não existem mecanismos eficientes e suficientes para fazer respeitar esta lei.

Existe, sim, uma cultura patriarcal e machista que continua desqualificando e vitimando a mulher – e isso é inegável.

A violência praticada contra a mulher é uma das expressões do descompasso histórico que existe dentro das relações de poder entre homens e mulheres. A realidade é que a violência, bem longe de ser uma luta pela sobrevivência da espécie, é apreendida, disseminada e praticada pela sociedade como uma forma viável de relação humana. Ou seja: a brutalidade masculina contra a mulher ainda é tolerada como  uma prática aceitável.

As raízes são de natureza tanto social quanto cultural e psicológica. Passam pelos decantados estereótipos sexuais, pela socialização equivocada de hábitos rasteiros frente à condição feminina, pelas falhas nas leis e nos sistemas jurídico e penal, pelo desequilíbrio econômico, pela miséria latente que aprofunda a desumanização e, finalmente, pela aceitação de que ‘em briga de marido e mulher ninguém deve meter a colher‘.

O aspecto mais perturbador é o que dá conta da quantidade de mulheres que reproduzem esta autodesvalorização submetendo-se a situações de humilhação e sofrimento mesmo quando teriam outras alternativas.

Somando-se à esta tendência autodestrutiva – geralmente aprendida através dos exemplos mais primitivos advindos do comportamento familiar – a potente agressividade do parceiro, o resultado é o impiedoso e insuportável conflito onde, via de regra, a mulher subjugada serve como válvula de escape para as tensões neuróticas ou psicopatas do “parceiro” que para ela transfere todas as suas raivas e desequilíbrios. Muitas vezes, esse também é o exemplo que o homem traz das suas relações parentais, como uma mãe submissa e um pai frio e opressor.

Pais espancadores, severos ou, simplesmente, indiferentes, também produzem filhos com bastante chance de desenvolverem psicopatias, o que, a grosso modo, significa ausência de sentimentos que gerem a capacidade de serem afetados pelos outros, ou seja, de produzir afeto genuíno.

O psicopata raramente aprende com seus erros ou consegue frear alguns impulsos. 

Muitos, por questões genéticas (uma parte) ou relacionais (a maioria), acabam por embotar o amadurecimento da habilidade afetiva tornando-se, desta forma, indivíduos despreparados para vivenciar a verdadeira intimidade.

Filhos desamparados, vítimas de brutalidades – que tanto podem ser físicas (as mais aparentes) quanto psicológicas (quase invisíveis) – transformam-se em adultos incapazes de formar vínculos verdadeiros. E daí para uma psicopatia o caminho é bastante curto.

O grande problema é que dentro de uma sociedade combalida, que incentiva relações doentias, as patologias individuais passam quase que desapercebidas, como se fossem condutas normais. E é preciso que aconteçam grandes tragédias para que algumas pessoas se deem conta da dimensão do problema que logo passa para o terreno dos dramas esquecidos ou desconsiderados enquanto a evidente epidemia que representam.

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Por isso é que, na esmagadora maioria dos casos, a imagem pública do violador é a de uma pessoa exemplar, simpática, etc., corroborada pela cumplicidade do silêncio familiar e do jogo de aparências que refletem aquilo que, geralmente, é o oposto do que acontece na vida privada.

Enquanto não denunciarmos cotidianamente estas situações – que se dão na esfera pessoal, emocional, física, sexual, econômica e social – elas se perpetuarão nos sombrios calabouços disfarçados de famílias felizes e exemplares.

A mulher ferida, sob o pesado manto de silêncio pelo qual somos todos responsáveis, vai continuar sentindo-se desprotegida e isolada. E assim, com medo, permanecerá calada. O homem agressor, diante da cumplicidade social e da impunidade, se sentirá autorizado a repetir e perpetuar suas atrocidades.

E, então, continuaremos a ser esta sociedade injusta e desigual onde filhos e filhas destes violadores repetirão infinitamente os doentios padrões que lhe são ensinados.

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Por isso, Mariana querida, conte com toda a nossa solidariedade!

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