SOBRE FAMÍLIAS TÓXICAS

Imagem Movimento Casamento 3

No centro da sala, diante da mesa,
No fundo do prato comida e tristeza.
A gente se olha, se toca e se cala
E se desentende no instante em que fala.
Medo, medo, medo, medo, medo, medo.
Cada um guarda mais o seu segredo,
A sua mão fechada, a sua boca aberta,
O seu peito deserto, a sua mão parada,
Lacrada, selada, molhada de medo.

In: Hora do Almoço – de Belchior

Sabe quantos filhos vivem situações onde o simples pensamento de voltar para casa pode angustia-los de maneira abissal?

Ainda que muito difícil de admitir, quanto de nós nos sentimos – por vezes – obrigados a conviver com parentes altamente tóxicos, que parecem ligados num modo manipulador tão perverso e desgastante que você prefere deixá-los o mais distante possível? 

E, honestamente, tem sensação pior do que quando nos damos conta de que esses ‘indivíduos’ não são outros senão nossos próprios pais?

Quando presto atenção nos sistemas familiares tóxicos – e são a maioria deles, creia – uma coisa que me assombra é constatar quantas crianças crescem sintonizadas com as necessidades dos pais. Ou seja, a relação familiar parece absolutamente invertida em relação aos limites saudáveis.

COMEÇO DO PESADELO

Existem pessoas em sua vida que irão lhe dar apoio sempre que você precisar. O problema são aquelas que farão tudo pra lhe ferir para se darem bem.

E pode ser bastante desalentador entender que uma destas criaturas hostis é um de seus pais. Ou ambos.

Seja qual for o caso, existem coisas que você pode fazer para mitigar os efeitos desta convivência tão perturbadora. 

COMO IDENTIFICAR UM PARENTE TÓXICO?

Importante esclarecer que “tóxico” não é um termo médico ou um conceito claramente definido. Quando as pessoas falam sobre pais tóxicos, normalmente estão descrevendo figuras que se comportam de modo a provocar medos, culpas e traumas. Suas ações não são eventos isolados, mas padrões de comportamento que moldam negativamente vidas alheias.

A questão é que, como seres humanos, os pais podem cometer erros como exigir demais ou fazer coisas potencialmente prejudiciais aos seus rebentos – ainda que sem querer. Mas, neste caso, eles possivelmente têm autocrítica e um afeto genuíno. E tentam consertar seus estragos.

Já os pais abusivos estão (muito) mais preocupados com suas próprias necessidades. Eles provavelmente não vão se desculpar ou mesmo admitir que o que estão fazendo é errado. E o abuso e a negligência tendem a serem contínuos, progressivos e devastadores.

Dito isso, entenda que esses comportamentos traduzem uma violência. Tente não se enganar sobre isso.

CARACTERÍSTICAS (DESGRAÇADAMENTE) MARCANTES

Comportamentos egocêntricos:

Eles podem ser emocionalmente indisponíveis, narcisistas ou indiferentes diante das necessidades familiares. São cruéis expondo filhos à uma hostilidade disfarçada em “zelo” ou “amor”.

Abuso físico e verbal:

O abuso pode nem sempre ser físico, através de gritos, xingamentos ou ameaças. Você pode ser vítima de ataques mais sutis como depreciações, insinuando que você erra, desobedece, desorganiza e desagrada em vários aspectos. Sugerem, basicamente, que você não é uma boa pessoa e você aceita ser insultado(a) porque acredita – erroneamente – que essas palavras refletem quem é – ‘difícil’, ‘incapaz’, ‘ignorante’.

Controlando comportamentos:

Pais lesivos costumam invadir sua privacidade ou não permitem que você tome suas próprias decisões. Além de serem excessivamente críticos e controladores.

Comportamentos manipulativos:

Tentam controlá-lo usando a culpa ou a vergonha para lidar com suas emoções. Praticamente nada sobre os seus sentimentos conta verdadeiramente.

Falta de limites:

Pais tóxicos tendem a forçar situações extremas a fim de conseguirem o que desejam – até que você ceda, por exaustão ou pura frustração.

EXAMINANDO O PASSADO

Se o que você lembra de sua infância são atitudes que mantêm algum tipo de padrão corrosivo, sugiro que dê uma segunda olhada nestas lembranças e pergunte-se:

Meus pais abusaram de mim emocionalmente? Eles me fizeram crer que eu era inútil ou simplesmente ruim? Abusaram de mim fisicamente sob o pretexto de ‘disciplina’? Me forçaram a cuidar das coisas, da casa ou dos meus irmãos? Eu sentia medo deles ou de suas ações? Eu tinha receio de mostrar minha raiva ou frustração? Fui obrigada a manter ‘segredos de família’ sobre coisas que me fizeram, como abuso físico, mental ou sexual?

EXAMINANDO O PRESENTE

E se, diante disto, você perceber que ainda se mantém dentro deste círculo doentio, vale perguntar:

Meus pais ainda me tratam como se eu fosse uma criança incapaz? Me responsabilizam por não conseguirem obter o que querem? Usam ameaças ou outras estratégias de manipulação, como dar ou reter dinheiro, carinho ou atenção? Sinto-me mal ou tenho desagradáveis sensações físicas e emocionais depois de vê-los? Sinto que nunca vou corresponder às expectativas deles?

Se você respondeu sim a algumas ou a todas essas perguntas, considere que pode ser vítima de um pai e/ou de uma mãe opressiva. Reserve um momento para absorver isso e reflita se quer continuar assim.

‘Crescer’ com tanto estresse e confusão pode tornar muito difícil formar uma autoestima saudável, de modo que você pode estar carregando um fardo pesado demais. E esta é a base de como você vê e interage com as pessoas, lugares e coisas ao seu redor.

Depois de perceber que foi exposto ao abuso de ‘poder parental’, pode ser útil e até libertador reconhecer que muitos comportamentos que você aprendeu e repete são meras reproduções, que você só não enxerga por considerar as experiências prejudiciais que experimentou, bem normais.

Mas há boas notícias aqui. Com um pouco de coragem e autoconhecimento, os comportamentos aprendidos podem ser modificados.

Ainda que não seja lá uma tarefa fácil, o primeiro passo é reconhecer que você foi moldado pelo seu ambiente familiar. Identifique isto sem medos, sem culpas, sem remorsos.

Aliás, basta de medos, culpas e remorsos, certo?

O negócio é o seguinte: você é a única pessoa que pode conceder ou retirar a permissão de quem acredita que pode comandar sua vida. É você que pode decidir mudar e retomar o controle dela. Então, comece agora.

LIMITES

Limite claro é uma linha invisível que você define para si mesmo(a) e que não permite que ninguém cruze. Isso pode ser físico ou emocional. E o lugar onde esse limite será traçado depende totalmente de você.

Seja direto(a), claro(a) e consistente com as fronteiras que você define. Quem não costuma respeitar divisas adora forçá-las. Portanto, firmeza é o passaporte para a sua sanidade. Lembre-se sempre disto.

E se seu opressor se fizer de vítima, culpando você por tudo (pode esperar por este tipo de chantagem emocional), usando frases com “você sempre” ou “você nunca”, vire as costas e vá embora. Este ser nem sequer merece o seu perdão.

AJUDA

É importante reservar um tempo para pensar sobre suas experiências de infância e como elas modelaram suas escolhas. Aproxime-se destas recordações. Lembre-se de como elas fazem você se sentir. Pense em como elas lhe fizeram agir até hoje.

Para alguns, esse processo pode ser muito complicado. Você não precisa embarcar no caminho da cura sozinho(a). Considere marcar uma consulta com um profissional de saúde mental para obter algumas ideias de como começar.

E se você sentir que também caiu em padrões tóxicos, saiba que a mudança pode levar um tempo. O importante é que você esteja comprometido(a) com a transição e reconheça a necessidade de mudar para a sua própria saúde mental e para a saúde das pessoas que lhe são caras.

Você vai chegar lá. Procure ajuda e entenda que não estará sozinho(a) nesta jornada.

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