PAZ SEM VOZ É MEDO

“A minha alma tá armada e apontada
Para cara do sossego!
Pois paz sem voz, paz sem voz,
Não é paz é medo!

Às vezes eu falo com a vida,
Às vezes é ela quem diz:
– Qual a paz que eu não quero conservar
Pra tentar ser feliz ?”

In: Minha Alma (A Paz Que Eu Não Quero) – de O Rappa

Depoimento de uma neta de nordestinos que, desde a infância, vive em São Paulo.

“Lembro-me como se fosse hoje. Ali sentados, eu e os meus oito anos de idade, junto dos meus irmão, primos e tios, todos em volta da grande e farta mesa, onde porções abundantes de iguarias eram servidas: galinha assada, legumes cozidos com caldo de peixe, pirão, arroz soltinho, feijão de corda, a maravilhosa paçoca salgada, saladas, sucos de caju e graviola, a macia tapioca acompanhada de uma generosa porção do doce de leite, feita na hora, pedaços de rapadura, mangas doces e suculentas saídas do pé para serem agarradas e chupadas por nossas bocas ávidas.

Tantas coisas gostosas feitas e oferecidas pelas mãos experientes das empregadas da casa que, incansáveis ainda que exaustas, mantinham seus sorrisos sinceros e serenos enquanto, de longe, assistiam ao alvoroço para o qual jamais eram convidadas. Nem elas, nem seus filhos, nem ninguém além daquele bando ali confortavelmente instalado.

Depois do almoço, sem qualquer ajuda na retirada de pratos, todos se acomodavam à vontade no alpendre. Alguns se esticavam nas redes ali instaladas, outros terminavam seus saborosos sobrepastos e a maioria simplesmente jogava conversa fora – sinônimo para aquelas deliciosas prosas onde todos falavam dos próprios sentimentos, riam e contavam piadas. Depois desfrutavam da sesta a que tantos ansiavam.

Havia tempo. Logo, não faltava nada.

Recordo-me, também, da estranheza que sentia ao perceber os olhinhos tristonhos da menina da minha idade, filha de uma daquelas mulheres, a nos fitar de longe, encabulada.

A mesma menina que, minutos antes, brincava junto da gente na piscina, buscando as bolas que jogávamos para fora  -o que me fazia, aflita, perguntar algo que eu nunca viria a entender: por que era sempre dela a tarefa mais ingrata?

Ela não tinha o mesmo tempo das outras crianças. Muito embora quisesse brincar as mesmas brincadeiras, a ela cabiam tantos afazeres que praticamente não lhe restava tempo. Quase nada.

Portanto, a visceralmente envergonhada ali era eu. De maneira doída, solitária e silenciosa. 

No passar dos anos, cansei de ouvir relatos sobre surras e maus tratos. Sobre sequestros e cárcere privado. Sobre abusos sexuais envolvendo empregadas e suas filhas. Violências físicas e morais acobertadas pelo abominável poder econômico dos patrões.

A partir desta e de tantas outras observações que me tocavam, ainda que sequer percebesse a profundidade de tais sentimentos, foi que alcancei um olhar mais terno e, talvez, menos raso acerca da realidade que me rodeava e ainda rodeia.

E foi prestando atenção aos olhares sofridos dessas pessoas, verdadeiras vítimas desta terrível desigualdade, que aprendi a perceber e antever neles dor e aflição. Algum fragmento de esperança, por vezes. Como a vontade de se conceber como iguais aos demais, de escolher seus caminhos, de poder fazer as coisas agradáveis além das desagradáveis que lhes eram – e são – injustamente impostas.

A doce menina de oito anos desejava, como toda criança deseja ou deveria poder, sentar na mesma mesa, se divertir nos mesmos brinquedos e descansar quando cansada.

Certamente ansiava por conversar sobre fatos banais, contar suas histórias, falar sobre as coisas do mundo e da vida.

Mas para que pudéssemos desfrutar da alegria e do prazer de viver aquela ‘paz’, era necessário que uma outra porção de seres humanos fosse forçada a abdicar da mesma diversão, da mesma serenidade, de seus direitos e de suas liberdades.

Ainda que nada de justo recebessem por isto, muitas vezes apenas a comida e o teto necessários para manterem-se vivos a fim de continuarem cumprindo o inominável papel de nos servir. Ou algum salário (ainda hoje) irrisório.

E esta não seria a definição perfeita de trabalho escravo?

Quantas pessoas jamais experimentaram ou experimentarão os mais básicos prazeres da vida apenas para que uma minoria obcecada e abjeta possa continuar mantendo  seus intoleráveis privilégios?

Porque, honestamente, quem escolheria trabalhar uma vida inteira sem quaisquer perspectivas de alcançar uma existência mais plena e feliz, com tempo de sobra para amar, cuidar dos seus, sentar, comer e prosear?

A maioria de meus primos e primas herdou a mesma velha e distorcida visão de ser humano e de mundo. Porque no planeta que habitam ainda hoje existe um reino proibido aos humanos desprovidos de recursos materiais sejam eles os mais simples ou os mais pobres que, no fundo de suas perversas miopias, existem apenas para atendê-los.

Daí até entender que minha família faz parte de uma classe média que, de maneira geral, sempre pagou e continua pagando os piores salários por serviços absolutamente necessários para a sua própria existência enquanto ‘classe’ foi um passo.

Grande parcela desta população continua pagando muito mal para quem lava sua roupa, faz sua comida, toma conta dos seus filhos, limpa suas sujeiras e sua casa. Tudo isto para ganhar mais tempo para ser investido na sua formação e na sua felicidade individual. E egoísta.

Em contrapartida aceita arcar com altos valores pelos bens de consumo que almeja e pouco se importa de pagar por um dos carros mais caros do mundo. Assim como também não liga se suas roupas de grife são cotadas em dólar (isto quando não são adquiridas em outlets americanas onde são vendidas a preço de banana, ainda que adorem ostentar que compraram nas ‘lojas originais’).

Essa classe média (que aqui não cabe entender se alta ou média porque o que vale é estar identificada com estes valores) descaradamente rouba o tempo dos trabalhadores e remunera de maneira sórdida o longo período que não quer gastar com seus próprios cuidados e com suas coisas pessoais.

Talvez isto explique a resposta que ouvi de minha tia quando, lá do alto da inocência dos meus oito aninhos, perguntei por que aquela menininha não podia se sentar no lugar vago ao meu lado:

‘- Minha filha, nem levante uma ideia dessas. Não quero acostumar mal essa gente. Ela precisa ser educada pra ser igual a mãe dela!’

Afinal, é assim que pensa e se expressa, mesmo que em outras palavras, a preguiçosa e mal-acostumada autointitulada elite brasileira.”

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