UM HORROR CHAMADO ASSÉDIO

Eu preciso te explicar,
Não quero mais me enfraquecer.
Chega de te agradar
Sem me importar com o meu querer
.

Sinto que você precisa aprender a respeitar
O meu corpo, a minha lei
E você têm que escutar
,
Quando eu digo não é não.

In: Não é Não – de Lila & Leo Justi

Uma recente pesquisa chegou a uma estarrecedora conclusão: 52% dos quase cinco mil entrevistados afirmaram já terem sofrido algum tipo de assédio moral e/ou sexual dentro do ambiente de trabalho. E a estatística piora. Deste total, 87,5% não denunciaram o fato.

Outro estudo revelou que 97% das mulheres afirmaram já terem sofrido assédio no transporte público e privado no Brasil.

E, ainda que muitos pareçam saber que Não é Não, a violência sexual aumentou 50% durante o último Carnaval.

Comportamentos que se qualificam como assédio sexual:

Físico – violência física, contato físico, aproximações desnecessárias. Verbal – comentários e perguntas acerca da aparência, do estilo de vida e da orientação sexual; chamadas de telefone ofensivas.
Não verbais – assovios; gestos de conotação sexual; apresentação de temas pornográficos.

Toda a sorte de constrangimento, discriminação e humilhação – além de palavras e ações que tem o poder de agredir tanto a honra quanto a dignidade de alguém – estão potencialmente presentes em todos os locais onde duas ou mais pessoas sejam obrigadas a trabalhar numa forçada convivência diária.

Não restam dúvidas de que estas circunstâncias roubam do trabalhador tanto parte de seu rendimento quanto da sua capacidade criativa e produzem sofrimentos e dores brutais.

Júlia teve uma pasta esfregada em seu rosto pela gerente. Carla foi requisitada diversas vezes para comparecer à sala do chefe para que ele declarasse seus ‘afetos’ em relação a ela – a portas fechadas. João Carlos cansou de ouvir que seu diretor iria “acabar com sua carreira ali e fora dali”. Milene foi apalpada pelo dono da escola onde dava aulas. Augusto era sempre chamado de incompetente todas as vezes que o chefe precisava justificar os erros que ele próprio cometia.

Estes são apenas alguns dos milhares de exemplos que denunciam, de maneira clara e irrefutável, situações de violência dentro das relações de trabalho. Por mais que pareçam simples frutos de desvios de conduta ou de comportamentos exagerados, tais exemplos de abuso de poder não são novidades.

Segundo dados bastante atuais, o assédio moral, também chamado de terror psicológico dentro do ambiente de trabalho, está entre as três queixas mais frequentemente registradas dentro dos processos julgados por ‘danos morais’ em nosso país.

É correto afirmar que tal prática se institucionalizou como elemento comum no meio profissional e as denúncias têm crescido de maneira assustadora nos últimos tempos.

De acordo com os escritórios de advocacia especializados nesta área, os casos quintuplicaram nos últimos dois anos.

Mesmo assim, parece existir uma perigosa e equivocada tendência no sentido de desestimular a formalização da denúncia.

O problema é que a justiça exige provas documentais assim como testemunhais envolvendo colegas que eventualmente concordem em arriscar seus próprios empregos. Tanto uma quanto a outra são condições claramente limitadoras para que a reclamação seja levada adiante.

O assédio moral pode parecer imperceptível ao olhar alheio – mas, de fato, nunca o é.

As pessoas ao redor preferem fingir não perceber a permanente tortura que presenciam para não sofrerem as mesmas perseguições e os inevitáveis problemas de consciência que fatalmente lhe assaltarão quando confrontadas com os fatos.

O assédio funciona exatamente como nos casos de bullying: o(a) chefe começa, sem qualquer explicação plausível, a ignorar, menosprezar e desmoralizar tanto as atitudes quanto as ideias da sua vítima. Estas ações ocorrem, na maior parte dos casos, diante dos colegas não apenas como uma forma de humilhar uma determinada pessoa, mas, acima de tudo, como uma ameaça declarada aos demais: “veja bem o que posso e vou fazer contra você caso venha a me aborrecer de algum jeito”.

Inicialmente os constrangimentos podem se apresentar disfarçados de “falo isto porque gosto de você”, “é para o seu bem”, “você pode melhorar, tente!”, “eu até aprecio o que faz, mas o diretor vai detestar”, etc, etc.

O assédio pode também começar de maneira velada, mascarado de interesse genuinamente humano. O chefe se aproxima do subalterno e, em nome de auxiliá-lo nas tarefas, vai criando um vínculo que, aos poucos, supera o limite daquilo que deveria ser meramente profissional. Não é a toa que mulheres e homossexuais, nesta ordem, são as presas preferenciais.

O ‘cerco’ também pode se estabelecer logo de cara: o ‘líder’, de imediato, se apresenta como autoridade máxima e sutilmente ‘avisa’ que ali não existe espaço para controvérsias: ele manda e está falado!

Existem ainda situações em que ele apenas ‘sugere’ sua supremacia enumerando experiências muitas vezes inventadas que pretendem, na verdade, salvaguardar sua intolerável consciência de inadequação e de falta de condição para manter-se no cargo. A este cenário alia-se o medo de perder a posição dentro da hierarquia que tanto valoriza.

No ambiente de trabalho estas condutas promovem um clima doentio e intimidador, onde a loucura do perseguidor, que sabe escapar da observação dos seus superiores, pode adquirir aspectos ainda mais perversos e perigosos, uma vez que ele (ou ela) precisará esconder suas verdadeiras motivações – que vão desde o temor de transparecer sua profunda sensação de incompetência e insegurança até o ciúme e a inveja mortal pelo seu ‘objeto de suplício’.

Logo, o assediador moral nada mais é do que o indivíduo profundamente tão desumano quanto imaturo, cuja flácida segurança permeará toda e qualquer situação em que se sinta, de alguma forma, ameaçado.

Atendi, por muitos e muitos anos, dezenas de pessoas que tiveram sua autoestima estilhaçada por conta deste tipo infame de relação destrutiva.

Os abusadores, habitualmente, praticam agressões contra aqueles que acreditam não terem poder ou condição de se defender. É o caso, por exemplo, do empregado que necessita desesperadamente do salário para sustentar a família. E subsistência, sabemos, está na base das principais necessidades humanas. O abusador sabe disso e, desta forma, sente-se à vontade diante de um alvo que irá tornar-se facilmente submisso, subserviente além de controlável e, quando necessário, também descartável.

Também sabem usar o que acreditam ser sua força – ou influência – para lesar aqueles que elegem como desafetos. Têm consciência de que não serão censurados por seus atos e divertem-se não apenas dizendo o que pensam, mas insinuando, provocando e emitindo frases depreciativas.

É impressionante o número de criaturas assim que são estimuladas a ocupar cargos superiores e que mantêm, sob suas miras, centenas de vítimas aterrorizadas e indefesas.

Sabem esconder seus traços psicóticos e sua fraqueza moral desvelados na absoluta falta de senso ético e de noção de justiça.

Nas relações pessoais quando consideramos, por exemplo, marido e mulher ou pais e filhos, os contatos que visam diminuir e desqualificar o outro são capazes de produzir doenças físicas e mentais. Neste caso, o objetivo não é retirar o parente do convívio familiar, mas enclausura-lo numa submissão patológica e potencialmente lesiva.

Tanto este cenário quanto aqueles que se referem ao ambiente profissional aumentam, significativamente, os relatos de casos de surtos, depressão e suicídio – além do crescimento da incidência de doenças letais como câncer, por exemplo.

Fica, então, uma sugestão: converse muito com seus colegas de trabalho a respeito do que sentem sobre esse tipo de pressão. Conversar sobre tais sentimentos é o principal passo.

Sendo você protagonista de um caso de abuso de poder não deixe de registrar tudo o que for possível: filme, grave e fotografe. Recolha todas as provas que conseguir antes de denunciar o abusador. Mas denuncie, de qualquer forma. Até que o respeito se torne uma prática tão imprescindível e comum quanto sobreviver.

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