UM DIA DE CADA VEZ

As horas custam a passar
Na sala a solidão espera pra jantar.
Ele faz um café e acende um cigarro,
Respira fundo antes de explodir.
Toma um comprimido e vai dormir
Que amanhã vai ser um outro dia.
E quando o sol
Vier lhe acordar,
E não lhe encontrar
Deitado sobre um caos,
Esperando o fim chegar,
Ele vai estar de pé
Pra tentar viver,
Um dia de cada vez
.”

In: Um dia de Cada Vez– de Uns e Outros

 

 

Você já sentiu como se todos os seus dias tivessem se transformado em noites escuras, frias e solitárias?

Uma espécie de vazio que se traduz num cotidiano cinzento e cheio de nada? Com lugar nenhum para ir? Coisa algum pra fazer, numa confusão de tempo perdido com distrações estúpidas, devaneios sem sentido, pensamentos soltos feito uma arraia desgarrada?

Uma solidão tão familiar que parece um lar.

Como uma imobilidade que atravessa a alma e nos força em direção ao buraco que, com o tempo, se tornará nosso esconderijo sombrio. É aí que você deixa de se sentir uma pessoa e passa a experimentar uma profunda vivência de sofrimento e de desespero.

Você passa a desenvolver uma visão aérea das coisas, nada parece bom o suficiente e você também não parece suficientemente bem para coisa alguma.

Existe uma sensação de carência que lhe assombra e, então, você começa a publicar mentiras nas redes sociais. Tudo, qualquer coisa, que possa esconder a verdade que lhe assusta e entristece.

A ilusão de inclusão. Como as promessas do fim de noite que são logo esquecidas ao amanhecer.

Às vezes, você se cerca de pessoas na esperança de que o barulho preencha o silêncio em seu coração. Mas isto nunca dá certo. Porque a noite sempre volta, não tem jeito. E ainda que haja um silêncio mortal por fora, seus pensamentos não lhe darão trégua.

Você desaprendeu como procurar e, principalmente, como identificar seres humanos que possam lhe ouvir, que consigam lhe acolher neste momento tão difícil.

Entenda: a solidão é uma das condições humanas. Por isto ela é a doença e também a cura.

Assim, se a gente se apropria dela, sem medo ou culpa, ela pode nos ajudar.

E quando você encontrar pessoas sensíveis e sinceras, dispostas a lhe escutar sem julgamentos ou preconceitos, aprenderá a se aceitar cada vez mais plenamente.

E será capaz de superar a depressão com a ajuda dos outros e, muitas vezes, dos medicamentos. Até que a solidão vá se transformando numa grande aliada.

Porque todos nós somos e estamos sozinhos. E ficará tudo bem, acredite.

O melhor que você tem a fazer é entender a si mesma(o), saber o que é que você quer e não deixar que os idiotas atrapalhem seu caminho. Ainda que, ao seu redor, ninguém pareça se dar conta da sua enorme aflição.

Afinal, a depressão, enquanto o verdadeiro mal-estar da nossa civilização,
é bastante democrática e, por isso, não escolhe sexo, idade, religião ou estado civil.

A atenção que os casos envolvendo pessoas famosas desperta – logo elas, tão “alegres e divertidas”, “bem-resolvidas”, “bem-formadas”, “bem-colocadas” na vida – ocorre justamente pelo suposto paradoxo que representa tamanho desatino.

Como se esta pretensa incongruência fosse alguma novidade em tempos onde parecer vale muito mais do que ser e onde todos se sentem compelidos a participar do feroz ‘jogo das aparências’ incentivado pelos mundos real e virtual.

Sabemos que a depressão é constantemente confundida, de maneira muito irresponsável, com ‘frescura’, ‘fraqueza de caráter’, ‘insegurança exagerada’, ‘falta do que fazer e pensar’, e por aí continuam os insultos.

Mesmo dentro da área psi, quantas vezes não lemos ou ouvimos que basta um bocado de ‘força de vontade’, aliado a algumas doses de chá e conversa fiada, para que aquela triste sensação desapareça por completo?

Ou você nunca ouviu alguém ser condenado por fazer uso de antidepressivos?

Ora, segundo a Organização Mundial de Saúde, até  o final de 2020, a depressão será a segunda maior causa de doenças em todo o mundo, com sua consequente perda de qualidade de vida, perdendo apenas para os problemas cardiovasculares.

Em um relatório bastante recente, a OMS registrou que a depressão é hoje considerada a principal doença entre os adolescentes de 10 e 19 anos. E isso sem contar os inúmeros adolescentes sem diagnóstico que não pedem ajuda e cuja dor é pensada enquanto sintomas típicos da idade.

Convenhamos: grande parte das relações interpessoais é totalmente destrutiva do ponto de vista existencial. Vivemos mergulhados em competições impiedosas e insanas, compelidos a parecer melhores, mais fortes, mais competentes, mais bonitos, mais interessantes, mais plenos que os demais. Quase imortais.

A finitude da vida deveria ser ensinada, desde a nossa infância, como parte dela. Os orientais nos esclarecem muito sobre o tema. E esta compreensão serena se revela no respeito que mantêm em relação aos idosos – coisa muito estranha para uma sociedade consumista que, sumariamente, os ‘joga fora’.

Convertemos a morte num tabu que precisa ser banido das conversas e das informações que passamos às nossas crianças. Desta forma, todas as coisas que estejam ligadas à ela (doenças, hospitais, envelhecimento, asilos, etc.) ficam à margem, como se não fizessem parte natural da existência.

A morte significa o fim natural de um ciclo que termina assim como terminam tantos outros. É só isto.

Medicamentos são fundamentais para grande parte dos casos de depressão, porque só tratando dela a pessoa vai encontrar condição de elaborar suas questões mais prementes e conversar a respeito das suas angústias. Fora disso, nos resta a perfumaria que não sanará o problema e, sim, o tornará dolorosamente crônico.

Sendo assim, preste atenção aos indícios desta doença que, cada vez mais, atinge um número maior de pessoas: se alguém próximo de você falar com insistência acerca da possibilidade de morrer; se não apresentar mais a vitalidade de antes; se estiver, cada vez mais, ausentando-se de seus compromissos sociais; se apresentar um desleixo inexplicável sobre si próprio (alguns deixam de tomar banho, trocar as roupas, arrumar o cabelo); se apresentar uma falta injustificada de vitalidade; se dormir mal, comer mal, tudo junto ou algumas destas coisas separadas, dedique uma atenção carinhosa.

Esta pessoa que está perto de você, na verdade, já está muito distante de si e da vida. Ajude-a a procurar ajuda, orientando-a e acompanhando-a.

E se, porventura, cruzar com um profissional que aconselhe práticas paliativas para escapar do mal, escape destas garras o mais rápido que puder.

E lembre-se sempre: depressão não é um bicho de sete cabeças do qual nunca iremos nos livrar. E quanto mais tempo levarmos para tratá-la, mais dor e menos saídas lograremos alcançar.

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