DISSEMINANDO ÓDIOS

O ódio não tem fim,
Será que sou ruim?
Há um monstro dentro de mim.
Quando isso vai acabar?
Não sabem como é difícil,
Até tentei me matar,
Mas nem isso eu consigo.
Uma voz na minha mente
Minha raiva alimenta
.”

In: Rap do Hulk – Tô Sempre Com Raiva – de 7 Minutoz

O número de pessoas atingidas por conflitos e perseguições pelo mundo, em 2017, somava impressionantes 78 milhões – o maior desde a Segunda Guerra Mundial. Neste mesmo ano, o número de pessoas atingidas pela fome e pela miséria mais radical chegou a 80 milhões em dezoito países.

Este clima geral de insegurança e de desespero encontrou seu mais dramático ápice na atual pandemia mundial, que atinge sobremaneira o Brasil e os Estados Unidos – os dois primeiros colocados na terrível estatística.

A instabilidade e o medo diante do futuro podem tornar as pessoas muito vulneráveis em face do ódio que, nesses momentos, encontra terreno fértil para ser disseminado pelos criadores do caos.

Psicopatas parecem estar aflorando em cada esquina deste país. E não adianta fingir que tudo permanecerá igual porque, definitivamente, há algo de muito ruim acontecendo. Ou olhamos para isto ou o caminhão vai nos atingir de frente – e em curtíssimo prazo. Porque o ódio é uma espécie de infecção que rapidamente se dissemina.

O que aprendemos até aqui, sobre traumas e medos, nos confirma que hoje eles se encontram profundamente agravados. E é bastante possível que as pessoas agora reajam de um jeito bem mais intenso do que em situações ‘normais’.

Na verdade, temos muito mais probabilidade de respondermos de maneira extremada quando nos sentimos sob ameaça. Se tivermos experimentado ameaças repetidamente, o medo faz nosso cérebro ficar hipervigilante, pronto para ativar nossa resposta ao perigo a qualquer momento. Isto abre um espaço para que a violência exploda das jeitos mais diversos.

Banalizou-se a agressão como uma resposta aceitável, não só em relação a tudo aquilo que se contrapõe ao que alguém resolveu chamar de certo mas, também, para que alguns – que se acham mais alguns do que outros – façam valer sua vontade cega e egoísta.

Continuarão, estas criaturas, a mostrarem sua faceta de ódios exacerbados até que alguma medida as aconselhe a parar.

Não existem leis contra ódios disseminados.

Muito embora todos percebamos que é exatamente este o sentimento que mantém guerras e invasões mundo afora, ainda que a maioria nem sequer entenda porque odeia e para o que serve tal cólera, por detrás deste ambiente beligerante, existe um pequeno, organizado e poderoso grupo que sabe exatamente aonde vai dar tamanho descontrole coletivo.

Pense muito nisso antes de sair desfilando seus ódios à torta, à direita e à esquerda.

Que crises e hostilidades sempre custaram um preço extremamente alto para a humanidade – e não para aqueles que sistematicamente criam este inferno, obviamente – todos nós deveríamos saber. 

No entanto, o que tornou-se absolutamente impressionante é a extensão do atual sofrimento e o número de vidas que estão sendo perdidas.

Então, se nos programas de televisão chovem exemplos de violência, esta não é uma mera coincidência!

A divulgação sistemática e a vulgarização da brutalidade cometida por uma percentagem mínima da sociedade (sim, estudos estatísticos apontam claramente para este dado) servem para disseminar a violência como mera banalidade.

Ou seja: ao rever centenas de vezes a cena onde o rapaz, que não oferece qualquer resistência, é ferozmente agredido por um policial, o espectador, numa atitude de defesa, começa a encarar a cena como algo “natural” e humanamente concebível.

Nosso psiquismo absorve cada cena de violência, repetida à exaustão, como se fosse a primeira vez. E, assim, para defender uma sanidade básica, ele passa a registrar aquilo como procedente e natural.

Como um pedreiro e seus calos formados a partir do impacto sofrido, que persistem para defender o dedo e, desta forma, torná-lo mais “tolerante” frente as agressões sofridas.

A propagação da violência produz, neste sentido, um calo emocional que, com certeza, nos tornará mais frios e indiferentes, transformando, para pior, o futuro das próximas gerações.

Daí a ideia de que estamos criando pessoas mais insensíveis, individualistas e egoisticamente ‘autocentradas’ é tão previsível quanto perturbadora. Ou você ainda duvida disto?

Diversos estudos desenvolvidos em diferentes países dão conta da relação bastante incômoda entre a observação da violência “fora de si” e a prática de atos violentos “a partir de si”.

Um deles demonstrou que, por exemplo, entre adolescentes e adultos jovens expostos à programações que abordam a violência por mais de três horas diárias, a possibilidade deles próprios incorrerem em práticas violentas aumentou CINCO VEZES em relação àqueles que acompanham a mesma programação por menos de uma hora/dia. Este estudo tornou-se emblemático não apenas pelo resultado em si mas, também, pela metodologia criteriosa que estudou 707 famílias entre os anos de 1975 e 2000, ou seja, por vinte e cinco anos.

Isto, por si só, deveria ser o suficiente para que fossem banidas de vez, atrações muito conhecidos na televisão brasileira que, diariamente, oferecem um coquetel indigesto de violências de todos os tipos e matizes.

Estes conhecidos programas apresentados, na sua grande maioria, ao vivo, apresentam toda a sorte de selvageria, além de expor maciçamente situações onde pessoas mais simples sequer podem se defender. Não existe qualquer sinal de respeito à já tão degradada condição humana.

Aparentemente, todos nós vamos ter que encontrar uma maneira de continuarmos a viver com uma ameaça constante à nossa existência. O que podemos fazer, porém, é desenvolver maneiras de controlar o medo crônico sem nos aliarmos aos algozes.

Seres humanos sem apoio, vivendo terrores sociais, pessoais e financeiros, precisam aprender a lutar, apesar de tudo isto, por tempos melhores, onde a violência não seja encarada como o inimigo maior, mas, sim, a falta de solidariedade, humanidade e empatia.

Romper este ciclo é imperativo para nossa própria sobrevivência enquanto civilização.

Portanto, vai aí uma ideia: desligue os seus televisores nesses (e em tantos outros) horários. Acompanhe portais menos comprometidos com este tipo de prática que preconiza que quanto mais violência mais audiência; leia mais livros, converse mais com seus filhos, seus amigos, seus vizinhos.

Desligue a TV – sua saúde mental agradece!

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E, se desejar, envie seus comentários para: psicologaheloisalima@gmail.com

Um pensamento sobre “DISSEMINANDO ÓDIOS

  1. A sociedade vem normalizando a violência de tal forma que estamos debatendo o que é certo e o que é verdade. Como pode?!!
    Pessoas com cultura rasa e fútil, cheias de um falso saber, estão transformando para pior as relações – e depois posando de moralistas. É como você mesmo escreveu: “Romper este ciclo é imperativo para nossa própria sobrevivência enquanto civilização.”
    Excelente análise, Heloisa!

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