MINHA RELAÇÃO ABUSIVA

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“Meu coração
bate sem saber,
que meu peito é uma porta
que ninguém vai atender.
Quem sente,
agora está ausente;
quem chora,
agora está por fora;
quem ama,
agora está na cama doente.”

In: Meu coração – de Arnaldo Antunes

DEPOIMENTO

“Meu nome é Thais, tenho 33 anos e um filho de 11. Há pouco tempo, considerava-me uma mulher cheia de vitalidade. Sentia-me capaz de preencher todos os lugares que frequentava com muita alegria. Zelava por todos aqueles que amava e era reconhecida por conta do meu jeito afetuoso.

Até que conheci meu atual parceiro, quatro anos atrás. Além de ator profissional, ele também cursou faculdade de filosofia. Esta insólita ‘mistura’ me fez enxergar nele uma ‘aura’ de profundidade e clareza que, inicialmente, me encantava.

Tudo o que ele falava, o meu coração apaixonado acolhia como se fosse fruto da mais pura sabedoria. Ele parecia um homem capaz de fazer as pessoas sorrirem e se sentirem especiais. Além do fato de enaltecer a beleza do ‘feminino’. E eu me sentia única perto dele.

E uma mulher apaixonada enxerga tudo através de uma lente diferente. Vê o que deseja enxergar e faz vistas grossas para aquilo que machuco e não combina com o resto. Desta forma, não fugi do enredo.

Conquistada por palavras sublimes, recheadas de fartas doses de sedução, entreguei-me cegamente a este amor tão almejado.

No começo, sentia-me a mulher mais bela e mais rara do mundo. Estar próxima de um cara tão extraordinariamente sensível tornou-se o meu passaporte para a minha sonhada felicidade. Ainda que durasse o dia da minha semana que ele estipulava enquanto tempo disponível para mim.

E para dirimir minhas dúvidas e aflições, sempre me convencia de que, quando formasse uma família, se doaria de corpo e alma à ela.

Afirmava que a distância que se obrigava a manter de mim era apenas o preço a ser pago para conseguir organizar sua vida e nos garantir um ‘futuro melhor’.

Eu, evidentemente, acreditava que seria a felizarda moça que se casaria com este homem tão singular. Sonhava com esta perspectiva nos demais seis dias da semana que, abandonada, me custavam a passar.

Com os dias, meses e anos, fui me dando conta de que, muitas vezes, se eu não ligasse para confirmar nosso encontro semanal, ele simplesmente não acontecia. Às vezes ele podia e, por vezes, nem isso.

Explicava-me que vivia muito ocupado com seus projetos, peças e ensaios. Que sua vida resumia-se às tentativas de construir ‘aquela’ outra vida mais tranquila – a prometida vida que nunca vinha.

E eu acreditava. E até hoje não sei explicar como.

Fui ficando cada vez mais insatisfeita. E comecei a reclamar da falta de intimidade. Desejava saber mais sobre a vida dele, conhecer sua família, seus amigos. Não queria mais a ‘parte boa’ que só aparecia em locais privados.

Aí começou um ciclo em torno do que ele podia e queria, quando ele podia e queria e eu, novamente, fui adaptando meus desejos dentro dos dele.

Mas o fato é que ele nunca desejava se aproximar do meu filho, nunca aceitava se tornar meu namorado oficial, alegando ser um ‘bicho do mato’ incapaz de apreciar programas familiares ou sociais.

Até que um dia comecei a esbarrar em outras mulheres. Isto mesmo. Mulheres com as quais ele também se relacionava ao mesmo tempo em que ‘estava’ comigo.

Descobri que com elas a trama era idêntica. Do puro deslumbramento à promessa de uma vida futura, nada fugia do seu roteiro de sedutor barato.

Todas nós vivíamos a expectativa de adentrar um pouco mais o coração dele. E vivíamos por este sonho que ele deliberadamente plantava dentro da gente.

Cada uma de nós aguardava o momento de ser a eleita em detrimento de tantas outras. Quem ganharia o ‘troféu’?

Apesar de tantos pesares, muitos anos se passaram e, entre mortes e renascimentos, me mantive acreditando que ele era o homem da minha vida e que valia a pena esperar.

Ainda que parecesse tão claro tratar-se de um ser humano extremamente egoísta, mentiroso e manipulador, a cada reencontro me deixava envolver pelas promessas, pelo amor que jurava sentir e por minha total ausência de autoestima.

Ao me doar a ele perdi muito de mim. Fui me tornando mais triste e me afastando de tudo e de todos.

No processo cego de endeusamento deste homem, fui abandonando minha própria existência, perdida nesta insana busca de me reencontrar dentro dele.

E, evidentemente, o que achei foi o abismo aonde ainda me encontro.

Então percebi, todas as vezes em que tentava elucidar nosso relacionamento, ele me acusava de ‘fazer pressão’ e, no fim, eu me sentia culpada por aborrecê-lo com minhas ‘inseguranças’ – que era como ele tratava minhas queixas.

Não podia sequer mandar recadinhos carinhosos, telefonar quando batesse a saudade. Tudo era ‘invasão de privacidade’.

Claro que passei a vasculhar tudo aquilo que podia alcançar. Meio que enlouqueci tentando encontrar números, senhas, nomes, conversas gravadas. Tudo o que eu suspeitava era ‘explicado’ dentre reclamações do que chamava ser ‘abuso’ e ‘falta de respeito’ da minha parte.

Apenas no começo deste ano, quando completamos cinco anos de encontros e desencontros, ele aceitou chamar nossa relação de namoro. Ao mesmo tempo em que jurou ter reconhecido seu machismo, sua falta de doação e de reciprocidade.

Prometeu dar toda a atenção que eu merecia, disse que me amava de verdade e eu, como de costume, sucumbi. De novo. E o resultado é que parei de compartilhar minhas angústias porque ele resolveu ter crises de enxaqueca, todas as vezes que eu ousava falar dos meus sentimentos, me acusando de tolher sua liberdade.

Logo eu, tão ciente dos limites e dos direitos dos que amo.

E, da pessoa que procurava mais carinho e consideração, tornei-me, injustamente, a criatura chata que só sabia cobrar. E passei a me detestar por isto. Tanto que ainda não sei ao certo se minha tristeza vem de como ele diz me ver ou de como eu mesma me vejo. E já nem sei a diferença entre uma coisa e outra.

Se eu estou com ele, naquele ansiado dia, torno-me a mulher mais interessante do planeta. Acho-me bonita e atraente. Mas no outros dias, sombrios, eu me sinto um ‘nada’. Transformo-me num ‘ninguém’ que se arrasta pelo resto da semana.

O mais terrível é que ontem, ao olhar nos olhos dele, me enxerguei às avessas, do contrário de como me entendia no mundo. Vi-me louca, feia e sem atrativos. Mesmo que me digam quão linda eu me conservo.

Esta relação me transformou na pessoa que não admiro. Quer dizer: não gosto de quem sou quando estou com ou sem ele. 

Creio que me agarrei a este homem como um náufrago se agarra a uma caixa de isopor vazia.

Claro que passado o tempo vou percebendo que vivo presa numa armadilha ardilosa. Sou inundada de “amor” semanalmente e parece que preciso me satisfazer com esta migalha.

Vivo tanto na expectativa de “mais um pouquinho” que acabo acreditando que tenha o bastante.

Demorou muito até que eu percebesse que andava desacompanhada desde o começo da nossa caminhada. Custou entender que meu buraco existencial era justamente o espaço em que ele se encaixava e de onde tirava as coisas que eu tinha de melhor em troca de promessas que sabia jamais ser capaz de cumprir.

Hoje permaneço sem saber se ele está exclusivamente comigo. E confesso que mantenho esta relação tão doída porque quando estamos juntos tudo aparenta ser tão bom e gostoso, que minhas angústias se transferem para um outro espaço. 

Sua ausência continua me machucando porque é acompanhada de silêncios e de sombras que, por mais que eu queira, de maneira nenhuma consigo acessar.

Mas algo me diz que ainda aguardo sua promessa se cumprindo e eu me tornando sua mulher, cuidando de meu filho e da gente, me sentindo feliz e completa.

Uma parte de mim ainda quer acreditar que as coisas irão melhorar. Mas outra parte me repete, todos os dias, que nada do que espero vai acontecer.

Perdoe-me se o texto pareceu um pouco confuso, mas, ainda assim, o envio com carinho, pois acredito que outras mulheres, que passem por situações semelhantes, se perdendo de si nesse duro percurso, possam me ajudar.”

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