NÃO HÁ MAL QUE PRA SEMPRE DURE

Imagem Movimento Mãos se Tocando

“Quero um montão de tábuas e um motor de pano, 
Pra passear meu corpo e adormecer meu sono 
Na esburacada estrada do oceano. 
Aportarei meu barco apenas de ano em ano, 
E onde houver silêncio eu ficarei cantando 
Pra não deixar morrer o gesto humano. 
Entenderei as águas e os peixes passando 
E se me perguntarem pra onde vou e quando, 
Responderei: apenas navegando, apenas navegando….”

In: O Navegante – de Sidney Miller

Depoimento

Há oito anos fui diagnosticado com um tumor na medula espinhal que foi declarado inoperável e incurável. E foi desta forma que recebi o prognóstico de poucos meses de vida. 

Minha existência, até aquele momento, havia sido talhada de certezas e seguranças que, em poucos segundos, foram para o espaço. Eu ia morrer em pouco tempo. Pra que, então, tinha corrido pra chegar tão ‘longe’?

Senti medo. Depois uma raiva danada. Me fechei pro mundo e ninguém conseguia romper minha redoma de aço. Até que ela começou a me sufocar.

Meus amigos se afastaram, minha mulher não me reconhecia, meus filhos passaram a ter medo de mim.

Foi quando senti falta do amor no qual, sinceramente, eu nunca tinha prestado atenção. Porque estava muito mais preocupado em ganhar dinheiro, ser admirado, ter sucesso e parecer sempre bem e feliz.

Passei a tentar reconhecer seus sinais. Comecei a percebê-los pela falta que passaram a fazer pra mim.

E foi num ‘estalo’ que resolvi que me cercaria de pessoas que eu sabia que me amavam e por quem eu verdadeiramente sentia uma forte conexão amorosa.

Separei-me da minha companheira de anos, assim que entendi que um homem doente era a última coisa que ele esperava ver em mim.

Resumindo tudo – porque precisaria de um livro pra contar minhas buscas e meus encontros com práticas, antes impensáveis, como meditação, yoga, relaxamento, mentalização, massagens, alimentação saudável, etc, etc, – eu pude, então, compreender sentimentos que, juntos com sensações físicas, me fizeram legitimar uma profundidade emocional jamais experimentada. A partir disto, direcionei-a para a parte do corpo que precisava dela. E foi exatamente aí que passei a sentir meu corpo se abrindo para o amor, aceitando-o e absorvendo-o com absoluta humildade.

Desse modo, e passo a passo, fui caminhando pra dentro de mim até não sentir mais nenhum sintoma.

Até que, finalmente, quando voltei aos médicos para outros exames, eles resolveram decidir que algum engano teria ocorrido nos anteriores.

Aprendi que existe uma maneira de ler o corpo como um mapa da consciência interna, de modo a determinar a causa interna do sintoma físico. Existe um perfil de personalidade associado a cada sintoma, uma forma de ser que não representa realmente quem é aquela pessoa, mas sim a expressão do que ela estava fazendo. 

Muitas vezes há uma história de amor envolvida, uma história de amor infeliz talvez, mas uma história de amor, no entanto.

Mas escrever sobre isto daria um segundo livro.

Comentários

A doença, de uma maneira geral, pode ser encarada como a expressão mais pungente do que escolhi chamar de dor da alma e, nesse sentido,trazer em si uma metáfora a ser desvendada.

 Ela surge, de alguma maneira, como um meio do indivíduo fazer frente ao seu conflito interior, esquecendo-se de outras possibilidades menos danosas. A doença viria preencher algum vazio na vida do paciente, como uma forma de comunicar ao mundo o seu sofrimento.

Esta questão levanta uma outra reflexão subjacente no que se refere ao risco de levar o doente a se considerar responsável pela própria doença.

Aparentemente, nossa cultura não admite que tenhamos controle sobre muitos eventos – principalmente aqueles que dizem respeito à nossa própria existência. Isto porque, de uma maneira geral, também não existe espaço para que o sofrimento emocional seja levado a sério. Preferimos pensar que o sujeito só fica deprimido quando não reage, quando é ‘fraco psicologicamente’.

Seria muito importante que despertássemos para o fato de que a doença do nosso organismo é, de uma maneira ou de outra, uma forma muito singular de expressar seu sofrimento emocional.

Em estados depressivos, por exemplo, nosso organismo perde a capacidade de reconhecer e dar combate às células malignas, as quais podem passar a se reproduzirem livremente. Existem estudos que apontam claramente neste sentido. Ou seja: é possível criar uma relação de causa e efeito entre muitos casos de câncer e sentimentos de desesperança profunda e/ou reação à perdas recentes e significativas.

Um perfil predominante amável, generoso e bondoso nos pacientes de câncer –  o que sugere que tal dose de generosidade pode estar relacionada à baixa dose de autoestima – tem grande chance de significar que estas pessoas não se amam o bastante ou o suficiente para sentirem-se em harmonia consigo e com o entorno. E a exagerada bondade pode ser a alternativa que percebem como a única capaz de fazê-las receberem, em contrapartida, uma réstia de afeto e amor de que tanto carecem.

O paciente de câncer, então, pode ser uma pessoa que está vivenciando um desespero contido e encoberto. Disfarçado para as demais pessoas. Condescendente e gentil por fora, mas todo insatisfação, desolamento e fúria por dentro.

Nosso corpo produziria, desta forma, substâncias, como os neurotransmissores, que tem uma clara ação sobre os órgãos e são comandados pelo psiquismo. E estas seriam a ponte entre o sofrimento emocional e o mau funcionamento do organismo.

O câncer seria, assim, uma profunda tristeza interiorizada. O indivíduo que faz um câncer, como regra geral, é muito bem aparente e exteriormente. Mas todas as mágoas, todas as angústias ali interiorizadas estão lhe corroendo por dentro.

Acredito que o paciente portador de câncer comumente assimila e/ou reprime os sentimentos hostis tendo muita dificuldade de exprimir qualquer emoção relacionada à raiva ou ao rancor. 

Está escondido por detrás da “fachada” bondosa, perpetuada numa calma e numa tolerância exageradas. Em alguns casos, é capaz de morrer pela pátria ou de brigar por causas gerais e coletivas. Em outros, esconde-se da realidade fingindo que nada é o que de fato é. 

Em ambos, porém, é incapaz de tornar-se hostil na defesa de suas necessidades ou direitos pessoais. Não sabe exigir nada para si.

Provavelmente a alienação no que tange às suas próprias necessidades e seus mais primitivos anseios, caracteriza seu (único) modo de se relacionar com o mundo. Modo este que lhe consome a vida tanto o quanto a doença lhe consome o organismo. 

A doença parece ser, então, quase que a única possibilidade existencial deste indivíduo realizar-se. Na mesma medida, a doença também o auxiliaria a livrar-se de si mesmo, do fardo de sua própria existência, mergulhado que está em uma vida esvaziada de satisfação verdadeira, de algo que dê significado ao simples fato de enfrentar o cotidiano com esperança e entusiasmo. 

Logo, a paz interior, necessariamente relacionada ao amor pela vida e pelo mundo, torna a vida muito mais plena para ser vivida. 

E só é  possível alcançar isto quando se busca a compreensão mais genuína e sincera da vida, aceitando a realidade sem fantasiá-la, serenamente e com a consciência tranquila. 

A capacidade de amar a todos indistintamente, ou seja, tanto as pessoas quanto a natureza, é o melhor caminho que dispomos – desde que mergulhado no ato generoso de amar e de escolher os melhores objetos nos quais depositar este precioso sentimento. 

E só assim, creio, percebendo a importância do amor como antídoto, no melhor e no mais incrível sentido, alcançaremos a compreensão da nossa angústia existencial.

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