DESCONSTRUINDO AMÉLIAS

Imagem Movimento Tranças

“O ensejo a fez tão prendada.
Ela foi educada pra cuidar e servir.
De costume, esquecia-se dela.
Sempre a última a sair.
Disfarça e segue em frente
Todo dia até cansar.
E eis que de repente ela resolve então mudar.
Vira a mesa, assume o jogo.”

In: Desconstruindo Amélia – de Pitty 

Me impressiona a capacidade que algumas pessoas adquirem a fim de se tornarem aptas a suportarem dores, aflições e desesperos em demasia – e durante toda suas existências.

Observo mulheres que, surpreendentemente, parecem terem sido talhadas para isto. Veja bem: “parecem”. Pois o que ocorre, na verdade, é que foram obrigadas a aprender, desde a infância, que devem ser tolerantes, compreensivas e exageradamente comedidas. E esta é a base da incômoda e espantosa submissão feminina.

E para que serve esta herança?

Para manter o status quo socialmente preestabelecido, onde ‘família’ é para ser aquilo mesmo. Uma rua sem saída. E esta visão permanece, até hoje, bastante cristalizada, como num sistema fechado que ninguém arrisca questionar. 

Não é à toa que nossos dicionários registram SISTEMA enquanto:

1. Um conjunto de princípios verdadeiros ou falsos, donde se deduzem conclusões coordenadas entre si, sobre as quais se estabelece uma doutrina, opinião ou teoria. 2. Corpo de normas ou regras, entrelaçadas numa concatenação lógica e, pelo menos, verossímil, formando um todo harmônico. 3. Conjunto ou combinação de coisas ou partes de modo a formarem um todo complexo ou unitário: sistema de canais. 4. Qualquer conjunto ou série de membros ou elementos correlacionados: sistema de força.”

Sistema de força onde todos são pressionados a se entrelaçarem, gostem disto ou não: pense bem no que isto significa. Pense em toda sorte de abusos que aí se originam.

E se a família, enquanto uma instituição histórica e socialmente produzida, veio em nome de manter os indivíduos fechados dentro de um sistema de crenças e valores defendido por uma ideologia dominante, para isto, evidentemente, ela precisou desenhar uma representação ideal de si própria.

E como deve ser um (bom) casamento? Quem manda e quem obedece? Que atitudes precisam ser cegamente reproduzidas para que todos decorem o que se pode e, principalmente, o que não se pode fazer? Quais regras devem ser impostas para que a sucessão seja mantida dentro dos muros litigiosos daquele grupo – independente dos verdadeiros laços de afeto e amizade?

Outro casamento? Nem pensar. Homem infiel? Passível de compreensão. Mulher infiel? Impossível admitir.

De qualquer forma, homem (ainda) pode matar a mulher com machadadas, com sete tiros no rosto ou estrangulada, esquartejada, tanto faz. Os atenuantes são históricos e socialmente tolerados.

Homem tem mais força e, portanto, não deve ser contrariado. Então, pode tudo.

Mulher é toda feita de amor. Doce, permissiva, algumas vezes muda, cega e surda. Então, não pode. Nada.

Existe maneira mais injusta e despropositada de se enxergar a relação entre seres humanos? Pode haver um jogo tão repleto de erros quanto este?

Certamente não é isto o que você deseja que seus filhos reproduzam em suas vidas amorosas. A não ser que seja este exato viés que você ‘ingenuamente’ ensine a eles.

Importante nunca perder de vista que os relacionamentos familiares podem afetar substancialmente a saúde mental, o comportamento e até a saúde física. Uma série de estudos comprova que relações sociais e, particularmente, relações familiares, podem produzir efeitos nefastos no psiquismo humano. Dependendo da natureza desses vínculos, o equilíbrio mental será aprimorado ou negativamente impactado.

Conheço inúmeras histórias que dão conta de homens que abandonaram suas esposas justamente no momento mais difícil da vida: ou quando um filho estava doente, ou quando ela mesma se encontrava enferma. E, ainda assim, eles continuam sendo aceitos e compreendidos pelos filhos e, principalmente, pelas filhas.

Três dos relatos a seguir são exemplares.

Num deles, o homem deixou a mulher assim que percebeu que ela se tornara portadora de um transtorno mental, que aprofundou-se assim que ela teve o terceiro filho do casal. Sim, o terceiro! E ele não titubeou em abandonar os quatro à própria sorte, mudando-se de cidade e afastando-se de todos os parentes e conhecidos. Depois de vários anos, alguns meses após o falecimento da mãe, uma das filhas conseguiu reencontrá-lo com sua nova mulher e filhos e, a partir de então, passaram a se encontrar em datas comemorativas. A ‘lua de mel’ familiar durou até o falecimento dele, quando os filhos mais jovens decidiram que não dividiriam a herança deste com os mais velhos.

Noutra curiosa família, o pai abandonou a mãe com seus cinco filhos e foi viver com outra mulher. Nunca deu qualquer assistência à esposa da qual jamais oficialmente se separou temendo, muito provavelmente, a necessidade de dividir os bens. Mas manteve algum contato amistoso com os herdeiros, seguindo com sua vida numa aparente e surpreendente paz. A relação entre os irmãos nunca foi tranquila pois todos se dividiam nas opiniões sobre o progenitor. Quando a mãe faleceu, houve ainda algumas discussões sobre divisões de heranças e coisas afins. No final, o apartamento onde a mãe residia com uma filha foi vendido e o homem ainda exigiu a metade do valor, sem se importar com justiça ou necessidades. Mesmo assim, duas das filhas ainda hoje o defendem e afirmam que ele seguiu sendo um bom pai – o que todos sabem não ser verdade.

Outra história fala de um brasileiro que abandonou a mulher e seus oito filhos, fugindo para uma pequena cidade da Alemanha, onde viveu coisas impensáveis para um homem cheio de responsabilidades e dependentes, como ser zelador em um mosteiro. A mulher precisou virar-se sozinha com a ajuda da família e dos filhos mais velhos, sem poder esperar do marido qualquer tipo de auxílio. Muitos anos depois (cerca de vinte e cinco) ele, já bastante combalido pelos excessos praticados nesta aventura, foi resgatado pelas filhas que, durante todos estes anos, o visitaram periodicamente – e sem nunca esboçarem qualquer tipo de crítica à nenhuma de suas ações. Este homem ainda tentou ser ‘cuidado’ pela ex-mulher – da qual também jamais se divorciou – que, obviamente, não aceitou viver tão esdrúxula situação, ainda que as filhas achassem tudo muito natural.

Do ponto de vista feminino, histórias envolvendo ausência de críticas ao comportamento masculino – ou porque este é sempre considerado aceitável ou porque as mulheres acreditam piamente que ‘não se condena homens nas suas decisões’ – são escandalosamente fartas. E esta estranha realidade se contrapõe, de maneira inacreditável, às críticas ferozes e contundentes que estas mesmas mulheres fazem ao comportamento feminino de uma maneira geral. Ou a tudo que saia desta curva.

Como na conhecida história da jovem que foi estuprada pelo noivo da melhor amiga de quem seria, inclusive, madrinha de casamento. A amiga não só se recusou a acreditar nas evidências físicas (como presença de esperma, hematomas, etc., comprovadas no exame de corpo de delito), como afastou-se da vítima, casou-se com o criminoso, ainda que ele tenha sido condenado a sete anos de prisão algumas semanas depois da cerimônia.

Existe história mais emblemática do que essa?

Sim, existe. Uma porção delas. Infelizmente.

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