ESCONDER NÃO FAZ A DOR DESAPARECER

Imagem Movimento Gota D'água

“Medo de ter, medo de perder.
Cada um tem os seus
E todos tem alguns.
Suando frio, as mãos geladas,
Coração dispara até sufocar.

Só tememos por nós mesmos
Ou por aqueles que amamos.
Homem que nada teme
É homem que nada ama.”

In: Medo – de Pitty 

 

Há alguns anos, uma conhecida modelo e atriz, que faleceu em decorrência de um câncer contra o qual lutou por vários anos, deixou muitos programas gravados, para um canal de TV fechado, onde ela já se mostrava visivelmente combalida – o que, certamente, deveria ter sido o suficiente para que fosse desaconselhada a permanecer numa tarefa daquela complexidade.

Mesmo diante do flagrante avanço da doença, ela decidiu não diminuir o ritmo de trabalho dando, inclusive, diversas entrevistas onde relatava sua fé e confiança no sucesso dos tratamentos aos quais se submetia.

Era como se a dor não fosse dela. Nem suas trágicas vicissitudes.

Demonstrando confiança e otimismo extremados, penso que ela perdeu uma grande oportunidade de aquietar seu coração no momento profundo e precioso que é quando se desvela o temor mais íntimo e solitário que alguém pode experimentar: a possibilidade de morrer e de, finalmente, saber-se existencialmente finito. Além de solitário.

Sua bela figura que, aviltada pelos processos quimioterápicos – ainda que camuflados sob coloridos turbantes – parecia tentar sustentar a aparência de uma força que, muito provavelmente, já se esvaia e esta impressão me fez recordar um ministro brasileiro das comunicações que faleceu em 1998.

Este homem muito me impressionou quando, acometido por uma gravíssima inflamação pulmonar, desenvolvida a partir de uma bactéria inalada através do ar-condicionado de seu gabinete, se apresentava nos expedientes e entrevistas coletivas carregando um tubo de oxigênio que, vez por outra, publicamente inalava. Como  se fosse esta uma ‘atividade’ banal.

Tive, também, vários pacientes que ficavam verdadeiramente mortificados quando, por exemplo, sofriam um acidente que, de alguma forma, os incapacitava. Sentiam vergonha da fragilidade (passageira ou duradoura) que os acometia e faziam absolutamente tudo para esconder a angústia de sentirem-se um ‘peso’ que necessitava de cuidados alheios.

Uma outra paciente assim que descobriu um câncer no seio decidiu rapidamente retirá-lo e, em menos de 20 dias, o fez. Porque ‘não tinha tempo para desperdiçar’, ‘tinha muito o que fazer’, ‘filhos e marido para cuidar’. Tão rápido que quase ninguém soube ou acompanhou o episódio. Tirou o tumor, mas não resolveu o conflito de base que, evidentemente, desembocou em problemas mais complexos e dramáticos que, ainda hoje, passados cinco anos, busca tratar.

pior coisa que fazemos com nossas vidas não é escondermos o que temos de ‘ruim’, mas, principalmente, escondermos tudo aquilo que de bom trazemos, mas que também é feito de dor, de aflições, de medos, de ternura, generosidade, arrebatamento, carinho e amor.

Esconder a dor naquilo que somos e sentimos, nada mais é do que esvaziar nossa existência da sua força mais pura e vital.

E, desta forma, não só aceitamos como nos impomos reedições tolas de gestos medíocres e empobrecidos que nos reduzem a figuras repetitivas. Tudo isto para passarmos em branco, para sermos normais, para sermos iguais, para não chamarmos a atenção em relação àquilo que temos de mais humano e, portanto, mais verdadeiro.

Se a atriz pudesse sentir a dor e o medo sem temer julgamentos sobre uma pretensa ‘fraqueza’, se ela nem sequer se preocupasse com isto, quem sabe, não teria partido de uma maneira mais serena e equilibrada? E se o ministro tivesse mandado tudo às favas e tivesse morrido num leito cercado de paz, placidamente deitado e próximo dos seus, reconfortado por gratas memórias?

Se reconhecessem em si próprios as necessidades de serem percebidos e compreendidos em sua mais clara dimensão, certamente teriam ajudado os demais a compreenderem aquilo que tanto necessitavam.

Porque muitos de nós sequer conseguimos alcançar uma tênue percepção sobre nós mesmos, sem dúvida teremos muito menos condições para percebermos os demais que nos cercam – por mais importantes que sejam em nossas vidas.

Fazemos uma economia incrível da nossa capacidade de reconhecer o que realmente importa – para a gente e para o outro.

E por sermos tão econômicos em relação às nossas próprias percepções, nos distanciamos em demasia das nossas capacidades mais autênticas e, por isto, mais prementes – suficientes para nos salvaguardar do desterro da solidão – que está dentro e não fora da gente.

Porque não há solidão maior do que aquela representada pelo auto-abandono, perfeitamente revelado no momento em que não nos deixamos tocar pelo que nos fere ou aflige – como nossos exemplos acima demonstraram de maneira plena.

Portanto, para vivermos e morrermos genuinamente, precisaremos tocar nossa emoção mais pura cuja morada se encontra nos limites tangíveis do nosso corpo. Limparmos todos os nossos espaços desses vícios automáticos que a vida em sociedade nos impõe para, então, voltarmos à nossa pura criança carente de cuidados e de amor.

Acompanhe os novos textos através do: http://www.facebook.com/aheloisalima

E, se desejar, envie seus comentários para psicologaheloisalima@gmail.com

Um pensamento sobre “ESCONDER NÃO FAZ A DOR DESAPARECER

  1. Não é fácil entrar na arena e enfrentar a dor, e essa frase do texto compreende um pouco isso:
    “Porque não há solidão maior do que aquela representada pelo auto-abandono, perfeitamente revelado no momento em que não nos deixamos tocar pelo que nos fere ou aflige”.

    Excelente reflexão, Heloisa!
    Gratidão!

Deixe seu comentário...

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s