A INVEJA É UMA MERDA (DEPOIMENTO)

Imagem Movimento Inveja 4

“Meu coração tropical
Está coberto de neve, mas
Ferve em seu cofre gelado
E a voz vibra e a mão escreve: mar,
Bendita a lâmina grave,
Que fere a parede e traz
As febres loucas e breves
Que mancham o silêncio e o cais.

In: Corsário – de João Bosco e Aldir Blanc

 

 

 

Muita gente não gosta de mim. Fato. E daí?

Sei bem como existem pessoas frustradas neste mundo; criaturas irascíveis que gostam de tornar a vida dos outros muito mais penosa do que já é – como a minha se tornou, desde cedo. Fui ‘premiada’ com este tipo de personagem ‘participando’ da minha biografia.

E descobri que nada enfurece mais esta gente do que conhecer uma pessoa minimamente serena ou feliz. E, apesar de todos os pesares que podiam me atingir, eu era e permaneço assim.

Hoje tenho certeza de que falta muita nobreza, além de autocrítica, àqueles que insistem em escamotear seu ciúme e sua inveja num jogo onde vale tudo para se alcançar a destruição do outro.

Ninguém deveria se sentir no direito de julgar qualquer um até que fosse capaz de conhecê-lo – de fato e de direto – percorrendo uma parte do seu caminho e de seus problemas, concorda?

Desta forma, o mínimo que eu podia fazer era tentar entender tal fenômeno. E este se tornou meu exercício mais difícil.

Você já se perguntou se um amigo pode estar com ciúmes de você neste exato momento? 

Eu me perguntava frequentemente por que alguns (ou muitos) nunca pareciam genuinamente felizes por mim, apesar de ‘avaliarem’ todos os meus movimentos. Ainda que criticando disfarçadamente, ainda que fingindo preocuparem-se com a ‘minha felicidade’.

Até compreender que minha primeira intuição estava correta. Muitos que se diziam ‘amigos’ vivenciavam uma raiva mal disfarçada de mim. Ou seja, sentiam, no fundo, muita inveja e ciúme daquilo que enxergavam como qualidades, pequenas vitórias ou características humanas admiráveis.  

Nunca ficar sozinha, era uma delas. Sim. Numa festa, numa balada, eu era a primeira a ser cortejada. Era divertida e simpática o suficiente para naturalmente chamar a atenção dos homens. Era (e sou) bonita. Sabia escutar e entender as frustrações alheias. Tinha, e me mantenho tendo, julgamento zero em relação às coisas que escutava. Gostava de ajudar os que me cercavam. Era (e sou) inteligente e sensível.

E custou muito para que eu me aceitasse desta forma. Porque, no fundo, costumava pensar que fazia algo errado. Que meu jeito de ser ofendia quem era diferente de mim. Chegava a esconder certos êxitos para não despertar sentimentos ruins nos outros. Fingia problemas que não tinha apenas para parecer comum.

Mas isto, no lugar de contribuir para a minha paz, parecia aprofundar meus conflitos.

Foi quando passei a analisar as falsas amizades que me atravessaram a vida até então.

Percebi que o problema era que sempre me entregava por inteiro às relações. E quase nunca encontrava reciprocidade pela frente.

Daí recordei da primeira grande amiga com a qual compartilhava absolutamente tudo: meu sanduíche, minhas roupas novas, meus segredos, minha vida. 

Parecíamos tão íntimas que quando uma sofria um revés, a outra passava horas ao telefone ouvindo mil vezes a mesma história sem reclamar, enquanto chorava junto compreendendo todo aquele sofrimento exposto.

Esta era a minha melhor amiga e ninguém podia nos separar – a não ser ela mesma. 

Em nossos projetos, estudaríamos juntas e depois, na época da universidade, partilharíamos de uma casa que também seria frequentada por nossos outros amigos e namorados. Casaríamos no mesmo dia e seríamos madrinhas de nossos filhos. 

Até que passei a fingir não perceber a total ausência de encorajamento ou apoio quando superava alguma dificuldade. Ouvir um sarcástico ‘bom para você’ era o máximo que conseguia. Ela não dava crédito e criava desculpas para o meu sucesso na escola, por exemplo.

Às vezes, dizia algo como ‘isso é tão fácil de conseguir que até eu se quisesse, conseguiria’.

Não obstante isto, persistia acreditando que éramos muito próximas até o dia em que, antes de entrarmos na faculdade, ela me disse que preferia dividir apartamento com outra colega com a qual se identificava mais – e justamente a pessoa que eu detestava por sua forma arrogante e dissimulada de ser.

Sabe quando sua melhor amiga se transforma na pior inimiga e você fica imaginando o que poderia ter dado tão errado? Foi o que fiz e o que consegui foi me culpar por tudo.

Tempos depois, conheci um tímido rapaz por quem me apaixonei perdidamente. A recíproca parecia ser verdadeira. Nos tornamos muito parceiros. Saímos regularmente e ele foi se ligando aos meus amigos, cada vez mais independente de mim. Eu achava aquilo o máximo.

Contudo, comecei a notar que muitos deles foram ficando distantes ao mesmo tempo em que se achegavam a dele. 

A partir de certo ponto, percebi que quando fazia planos incluindo todos, estranhamente, a maioria sempre se mostrava ocupada ou nem sequer me retornava. Passei a descobrir festas e viagens para as quais não fora convidada.

Até que um dia, um deles me falou que meu namorado havia contado histórias a meu respeito que visavam demonstrar que eu não era uma pessoa confiável.

As calúnias corriam soltas enquanto que, na minha frente, ele parecia amoroso e feliz. 

Quando lhe questionei ele passou a me acusar de todas as coisas que sabia sobre mim. Jogou-me na cara segredos que lhe contei, atacou-me pura e simplesmente com as fraquezas que lhe confiei!

Desnecessário dizer que me afastei dele e da maioria dos amigos dos quais ele se aproximara e fiquei extremamente arrasada e infeliz.

O resultado é que hoje confio muito pouco em ‘amigos’ e não acredito em amizades eternas. Posso parecer amargurada, mas não sou. Penso ser bem mais realista e feliz desta forma.

COMENTÁRIO:

Qual é o segredo de uma amizade bem sucedida? Parece que ninguém realmente tem as instruções. Jules Renard, escritor francês, encontrou sua solução, com a qual concordo. Para ele, “não há amigo, há apenas momentos de amizade“.

Já a escritora Diane de Beausacq, definiu de maneira ainda mais justa seus dissabores: “Para fazer um bom inimigo, pegue um amigo: ele sabe onde atacar”, ao mesmo tempo em que, sobre a família, comentou: “A família é um conjunto de pessoas que se defende em bloco e se ataca em particular”.

Por que reproduzo estas ideias?

Porque acredito mesmo que o problema de confiar na autenticidade dos laços afetivos reside na maneira como nos entregamos a eles. Quer dizer: onde está escrito que devo contar tudo para alguém, incluindo meus mais recônditos segredos? Quem nos obriga a abrir o baú de memórias a fim de mostrarmos toda a nossa história sem qualquer ressalva?

É preciso sempre lembrar que a inveja é uma besta de olhos grotescos. É uma doença e, também, uma espécie de fome. 

É a autofagia do eu que necessita possuir aquilo que é mais amado porque, senão, algo é capaz de torná-lo a gota de vinagre no copo de leite doce. 

Portanto, anote aí: nem mesmo as ‘grandes amizades’ estarão isentas dela. 

Aliás, muito pelo contrário.

Seu amigo lhe conta uma vitória. Você sorri. Este é o seu amigo. Certamente você se sente feliz por ele. Mas, no entanto, um espaço se abre entre vocês. Você pode pressentir isso claramente, o suficiente para que uma brisa gelada ali se atravesse.

 “– Como assim, você vem e tira o melhor de nós (nossa igualdade) e ainda parece satisfeito?”

A inveja fica no canto, escondida, quieta e faminta. Para que ela se atice, basta remexê-la ou sacudi-la e, pronto, está feita a desgraça.

Inveja se ataca. Ela está sozinha e é sua própria vítima – que se autopropulsiona e se auto absorve. Afinal, é necessário apenas um para invejar. E ela age sem pressa. É como um buraco, um mundo que se esvaziou e tenta se preencher com ela, a inveja – uma doença que desperdiça anos e anos de existências que poderiam ser úteis.

E, como gosto de dizer: não divida todos os seus tesouros. E suas histórias são isso, tesouros de uma vida única e singular, de uma existência ímpar da qual você deve cuidar. Todos os dias.

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