CRIATURAS DESPREZÍVEIS

Imagem Movimento Metamorfose

“Assim passei o tempo
Que me deram pra viver.
A voz da minha gente se levantou
E a minha voz junto com a dela.

Veja bem que preparando
O caminho da amizade,
Não podendo ser amigos, ao mau,
Ao mau vamos dar maldade.

In: Eu Vivo Num Tempo de Guerrade Gianfrancesco Guarniere

 

Parece que internet, através de suas redes sociais, tem mesmo o poder de transformar monstros em seres aparentemente ‘celestiais’.

Há muito ouço impressionantes relatos envolvendo pessoas que simulam algo que não são e expressam sentimentos que não possuem. E de uma forma bastante convincente – para a infelicidade geral da nação.

São criaturas que postam fotos e vídeos mostrando uma vida inventada, mentirosa, repleta de conselhos e exemplos que nem sequer pensam em seguir.

Como as ‘celebridades’ ou os simples mortais bem nascidos (todos invariavelmente exibicionistas) que, por exemplo, garantem estar se virando bem durante a pandemia, enquanto cinicamente escondem, por trás das cortinas, o séquito de funcionários que ali se encontram para servi-los, acima de qualquer coisa.

Ou você duvida que existam pessoas assim?

O pior destes últimos (porque, infelizmente, outros virão) casos, foi exposto pelo drama vivido por uma senhora de 61 anos, empregada doméstica que, graças à denúncia de vizinhos, foi resgatada depois de abandonada em condições totalmente desesperadoras.

Contratada em 1998 pela rica engenheira química, responsável por criar produtos para Natura, Boticário e Avon, Sonia Corazza, a mulher trabalhava sem registro de carteira, férias ou 13º.

A partir de 2011, diante de sua situação miserável, passou a morar na casa da mãe desta ‘patroa’, onde também realizava serviços domésticos. Recebia, às vezes, R$400,00 como ‘salário’ por trabalhar nas DUAS residências.

De acordo com depoimentos, a doméstica trabalhava de segunda a sexta-feira na casa da patroa e, paralelamente, cuidava da casa da mãe da patroa, onde morava, fazia a limpeza e pagava as contas de água e luz da residência porque temia que fossem cortadas.

Tempos depois, Sonia se mudou e ela foi sendo ‘herdada’, feito uma escrava, pelas sinhazinhas, filhas dela e pelos sinhozinhos, seus respectivos companheiros.

Com Mariah Corazza, ex-executiva da Avon (pois a empresa acaba de demiti-la) e o marido, Dora Üstündag (cuja atividade nenhum órgão ainda registrou), passou a receber a deplorável quantia de R$200,00 mensais.

“Segundo o DHPP, os três responderão por omissão de socorro, abandono de incapaz e redução à condição análoga à de escravo.”

E seguimos assistindo, entre perplexos e horrorizados, uma violência imensa e crescente contra inocentes e vulneráveis seres humanos.

A filósofa Hannah Arendt nos alertou para o fato de que por trás de todo o mal existem pessoas banais escondidas em seus gabinetes. Frisou que o mal carrega em si o potencial de se espalhar como um fungo e que isso só acontece por causa da incapacidade das pessoas pensarem sobre o que estão fazendo de verdade e, principalmente, porque não se importam com as consequências de seus atos.

Propôs, enfim, que deixássemos de enxergar banalidade em qualquer forma de mal concebendo, enfim, a espantosa pluralidade da condição humana. Que prestássemos muita atenção na perigosa banalização do mal.

O que vemos hoje é a institucionalização do mal, democraticamente distribuído entre os poderes constituídos e absolutamente mergulhado em um sistema político que promove a violência e a coerção – que são aceitas como “parte integrante” do processo civilizatório monopolizado pelo Estado que, em nome de salvaguardar-se, institucionaliza e burocratiza o mal.

A audiência das séries e novelas da TV, onde destacam-se e, de certa maneira, enaltecem-se comportamentos pouco éticos e profundamente amorais da esmagadora maioria dos protagonistas, é um exemplo bastante contundente deste panorama.

Ali, de tudo o que há de ruim existe um pouco: o velho empresário que transa com jovens garotas envolvidas numa rede de pedofilia, o médico que flerta com o chefe homossexual para subir de posto; o funcionário que registra ilegalmente uma criança; o irmão que mata o sobrinho por causa da herança; a esposa que tolera toda a sorte de mal tratos; o estudante carreirista que usa uma mulher mais velha para se dar bem… como se tanto mal pudesse ser normal.

A degradação humana, filtrada por oportunistas critérios de classe que tantas vezes apontam para a responsabilidade da miséria e do crime ‘que descem a favela’, fechando os olhos para os motivos que fizeram a miséria e a favela existirem é ainda revertida como sucesso de público para o espetáculo humano que, à moda de uma tragédia grega, é mostrado pelos canais de TV ao vivo e em cores, alcançando uma plateia anestesiada e incapaz de articular causas e consequências.

E por que ficamos tão reduzidos em nossa capacidade crítica frente a claros e flagrantes exemplos de violência e injustiça?

Sabemos que o aparelho psíquico não tem condições de elaborar a visão de um episódio violento sem ser atingido de maneira brutal. Logo, numa ação de autodefesa, nosso psiquismo passa a observar a cena como se esta fizesse parte de uma novela, como se não fosse real. E toda a reflexão crítica daquele ato em si fica comprometida ou nem sequer é realizada.

Em outras palavras: cada vez que uma cena de violência é exaustivamente apresentada na televisão, por exemplo, nosso psiquismo a captura com o mesmo impacto. Todas as vezes – é como se fosse a primeira. Isso traz repercussões psíquicas. Podemos nos tornar fóbicos, neuróticos, delirantes ou, simplesmente, alienados.

Nesta medida é possível sentir-nos bons e justos diante de um mundo mesquinho e cruel, como se não fizéssemos parte deste universo. Há uma certa descarga emocional quando experimentamos este confortável distanciamento diante do ‘mal alheio’. Porém, é justamente ela que nos faz permanecer imobilizados. Temos, daí, a impressão de que tudo ‘aquilo’, que obviamente é errado e insano, pertence ao outro; e tal consciência parece suficiente para nos fazer adquirir algum mérito moral.

Não nos envolvendo contra o mal, tornamo-nos parte daquilo que ele traz de mais nefasto: o silêncio.

E, então, a destruição da vida torna-se banal.

Como com a família insuspeita, do Alto de Pinheiros, que escravizou por décadas uma pobre e indefesa trabalhadora.

Ou com a mulher do prefeito de Tamandaré (Pernambuco), Sari Corte Real, que abandonou sozinho, dentro de um elevador, o filho da mulher que lhe atendia há anos como empregada doméstica, o garotinho Miguel, de cinco anos de idade, para despencar do 9º andar do seu luxuoso prédio.

E, deste jeito, a existência perde grande parte do seu significado único e sagrado. A cultura do medo, associada à cultura do mal, transforma esta magnífica e preciosa experiência em algo descartável.

Por isso, é urgente que, neste processo de naturalização da sociedade e de artificializarão da natureza, a sociedade reencontre o olhar para si e para o mundo, de uma maneira dinâmica e dialética. E que este reencontro alcance dissolver o mal, tornando a violência que hoje impera insustentável e desfazendo o intolerável clima de cumplicidade muda que hoje impera nesta sociedade selvagem e indiferente.

Que os bons parem de fazer a cômoda e silenciosa moderação perante o barulho dos maus!

Ou continuaremos sendo aniquilados como seres humanos.

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E, se desejar, envie seus comentários para psicologaheloisalima@gmail.co

Um pensamento sobre “CRIATURAS DESPREZÍVEIS

  1. Em que situação chegamos! Pior que que não vejo a repercussão que deveria estar havendo na mídia escrita/falada. O poder econômico dos ricos faz isso né! Nojo disso tudo!!!

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