INFÂNCIA MACULADA

Imagem Movimento Criança floresta

 

“Alunar, alunar,
fogaréu vertical;
aterrar, aterrar,
não preciso de seu medo, mamãe,
só morrer é seguro.
Tudo em paz, tudo bem,
quero ver soluções;
boa noite, meu bem,
tudo em paz com nosso amor e depois
só morrer é seguro.”

In: Alunar – de Milton Nascimento

 

Você sabia que o abuso sexual continua ocupando o segundo lugar dentre as violências mais sofridas por crianças e adolescentes brasileiros, só perdendo para negligência e abandono?

Estudos recentes apontam que, em diagnósticos psiquiátricos envolvendo a violações sexuais, 46% dos casos vão resultar em transtornos depressivos e 32% em transtornos de estresse pós-traumático.

Os autores são conhecidos por suas vítimas em mais de 80% dos casos, e a violência sexual completa ocorre em quase 50% deles. 

Um dado indiscutível é que a gravidade do ultraje mantém uma correlação significativa com uma enorme gama de transtornos psiquiátricos. 

O desconsolo reside no fato de que a grande maioria das agressões sexuais permanece não relatada, o que torna difícil a coleta de dados confiáveis ​​sobre o número dos crimes praticados.

Persistem, ainda, entraves relacionados a fortes sentimentos de culpa ou de vergonha, dificuldades cognitivas e de desenvolvimento, transtornos psicológicos, natureza do abuso, relação com os agressor, existência de confiança com o prestador de cuidados pós trauma e ameaças contra a vítima.

E, nestes casos, tudo corrobora enquanto fator a desencorajar a denúncia.

A maior parte dos autores de abuso sexual contra meninos e meninas é do sexo masculino. As meninas são mais propensas a fazer a denúncia do que os meninos. Existe consenso de que estes ataques são mais prevalentes entre as meninas, tendo maior impacto sobre elas também.

Este crime tem efeitos a longo prazo no bem-estar mental, dependendo da gravidade e da persistência do abuso. É reconhecidamente um fator de risco para muitos transtornos psiquiátricos na infância, adolescência e idade adulta. 

Os problemas psicológicos mais comuns associados ao abuso sexual na infância são depressão, ansiedade e raiva. 

Há também uma importante associação destes atos sórdidos com recorrentes tentativas de suicídio, baixa autoestima, medo, insônia, queixas somáticas, problemas de atenção e concentração e distúrbios alimentares.

Crianças vítimas de abuso sexual podem ter menos amigos íntimos, mais conflitos com os pais, mais parceiros sexuais e mais bloqueios no sentido de se abrir para relacionamentos mais emocionalmente produtivos, diferente do que ocorre com crianças que não passaram por este trauma.

Então, com certeza, você tem ciência de que grande parte dos agressores é composta pelos próprios pais ou por outros familiares, assim como por pessoas de convívio muito próximo da criança e do adolescente, como amigos e vizinhos, certo?

Diante do que reproduzi e que, aparentemente, já deveria ser de ‘conhecimento público’, passo a relatar o impressionante e desolador resultado de uma pequena pesquisa que fiz junto a vídeos registrados no youtube.

É simplesmente inconcebível que ainda se possa espalhar imagens que relacionem crianças a algum tipo de dança com apelo “sensual”. É estarrecedora a constatação da existência de um número nada desprezível de vídeos muito desprezíveis, onde criancinhas aparecem reproduzindo gestos de cunho erótico, cujo significado, com certeza, não têm nenhuma capacidade de entender. 

Isso sem contar o número de visitas, um deles chegando a mais de 2 milhões de views!

Classifiquei a amostra como ‘incontável’, além de insuportável, porque desisti de continuar a computá-la assim que percebi que o número extrapolaria as minhas mais pessimistas previsões.

Existe, de fato, um certo clima coletivo que favorece a exibição e a exploração da sexualidade feminina desde sua mais tenra idade e que enxerga o corpo da mulher como depositário de riquezas, tornando-o, desta forma, quase um pasto do desejo erótico masculino.

Entre perplexa e indignada pude comprovar que a grande maioria destes vídeos foi postada por pais (pais ou mães), tios, padrinhos e amigos da família dos pequeninos.

Um deles mostra uma menininha de um ano de idade que, trajando apenas um shortinho, é incentivada por adultos ao seu redor a dançar funk. Um deles chega a chamá-la de “ordinária”!

Em outro, duas bebezinhas gêmeas rebolam com suas fraldas um tal de ‘funk da motinha’ enquanto a mãe força uma delas a largar a mamadeira para que possa dançar direito!

Em outro, meninas de 6 anos, muito envergonhadas, são obrigadas pela tia a dançar o “tchan” enquanto são filmadas. Noutro, uma garotinha de 2 anos é chamada, por um homem, de ‘safada’.

Um outro apresenta um grupo formado por meninos e meninas, com idades variando entre 6 e 10 anos, em uma creche, dançando um tal de “popozuda” enquanto um homem filma.

Outro vídeo mostra um menino e uma menina em cima de um palco, junto a uma banda e diante de uma grande plateia, dançando um certo “swingão“, em troca de um “prêmio”. Outros, ainda, exibem garotinhos requebrando-se de cueca.

Uma menininha de 6 anos leva uma bronca da mãe porque não dança direito o “funk da popozuda” enquanto, em outro, a garotinha é chamada de “periguete” pelo sujeito que aparenta ser seu pai. Diversos vídeos mostram mais meninas dançando coisas como “kuduru“, “pondo“, “dança da bundinha” e por aí vai.

Mas, por aí se foi também minha paciência, ao perceber que o rosário de sandices, às quais as crianças são submetidas, não teria fim.

Alguns comentários postados abaixo destas gravações conseguem ser mais infames e indecentes do que a própria situação à qual essas inocentes crianças são submetidas.

Penso que tais injúrias deveriam ser retiradas da rede, acompanhando-se tal medida de uma campanha educativa que visasse orientar os pais, responsáveis, familiares e amigos dos menores expostos no sentido de explicar-lhes que o respeito pelo corpo passa, necessariamente, pelos direitos ao cuidado e a preservação do mesmo, assim como à privacidade da sua intimidade.

Desta forma, registro, a seguir, três perguntas que não devem calar:

– O adulto, seja ele seu responsável legal ou não, tem direito de dispor, a seu bel prazer, da imagem de uma criança?

– Como se admite este tipo de exposição – involuntária, por parte da criança – sem que se considere o ônus emocional que lhe custará, tanto agora quanto futuramente?

– Que tal pensarmos na mensagem subliminar que este tipo de prática registra no psiquismo infantil?

A mais plausível, sem dúvida, é a de que a criança passe a considerar que seu corpo, desde cedo, não lhe pertence e, portanto, é passível de servir como objeto de diversão (e, consequentemente, prazer) do adulto que dela se aproximar.

Ora, se sua imagem pode ser repercutida virtualmente, sem qualquer limite ou controle, como é que ela terá condições de se cuidar e preservar sua própria intimidade?

Que direito acreditará ela ter sobre seu próprio corpo se não for auxiliada a compreender que o valor e a graça de uma mulher não residem apenas no aspecto físico, mas num conjunto muito mais amplo de elementos que envolve saúde, educação, conhecimento, discernimento e equilíbrio?

Até quando vamos permitir que nossa sociedade avance, assim, tão desprovida de afeto?

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